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estudos:caron:erschlossenheit-entschlossenheit

Erschlossenheit - Entschlossenheit (2005:916)

PEOS

  • 1. A MORTE COMO PRÓDROMO DO SER E A ESTRUTURA DO SEIN-ZUM-TODE
    • 1.1. A morte como revelação do nada e abertura fundamental
      • A morte não é compreendida como um evento empírico ou um fenômeno biológico, mas como a “arche do nada”, ou seja, a estrutura que possibilita a revelação do ser em sua retirada. Ela não é um simples ente, mas o segredo do próprio ser, que se destina ao Dasein como abertura fundamental. A morte, em sua essência, não é o morrer empírico, mas a relação ontológica que o Dasein mantém com a possibilidade de sua impossibilidade. Essa relação não é uma obsessão mórbida, mas a compreensão de que a morte é a possibilidade que possibilita todas as outras possibilidades do Dasein.
      • A morte é descrita como uma “lueur” (Schein), uma presença que tremula diante dos olhos, como as cores que aparecem após fixar o sol. Essa imagem, inspirada em Hölderlin, ilustra a natureza da morte como uma revelação que não é uma evidência imediata, mas uma verdade que se manifesta na profundidade do ser. A morte não é um objeto de conhecimento, mas a condição de possibilidade do Dasein como ser-aberto.
  • 1.2. A morte como chamada e voz do ser
    • A morte é uma chamada que ressoa no fundo do si-mesmo (soi). Essa chamada não é uma intimidade recôndita, mas uma espacialidade desmedida, uma abertura que transcende a mera interioridade psicológica. A relação com a morte é uma forma essencial de contato com o ser enquanto ser. O Dasein, como mortal, encontra seu ser e seu desdobramento no abrigo do ser. A morte é a figura de um chamado que revela a origem do ser-aberto do Dasein.
    • A voz da morte está sempre presente, mesmo quando inaudível. Ela é a condição de possibilidade da abertura (Erschlossenheit) do Dasein. Essa abertura pode permanecer velada, mas é ela que possibilita a descoberta do si-mesmo. A fuga dessa voz, característica do cotidiano, é uma tentativa de evitar a confrontação com a facticidade da existência. O Dasein, ao fugir da morte, acaba por perder-se no “On” (o impessoal), onde a morte é reduzida a um evento mundano, um acidente constante, uma banalidade.
  • 1.3. A morte no cotidiano e a fuga no “On”
    • No cotidiano, a morte é compreendida como um acidente que ocorre constantemente, um evento que acontece no mundo. O “On” (o impessoal) conhece a morte como um “caso” que acontece a outros, mas não como uma possibilidade que concerne ao si-mesmo. Essa compreensão banaliza a morte, reduzindo-a a um fenômeno empírico, um ente presente-no-mundo (Vorhandenheit). O “On” falha em compreender a morte em sua dimensão ontológica, como a possibilidade mais própria do Dasein.
    • A fuga da morte no “On” é uma tentativa de evitar a angústia que ela provoca. O Dasein, ao se perder no “On”, evita a confrontação com a morte como possibilidade mais própria. Essa fuga é caracterizada por uma agitação constante, uma busca por mais projetos, mais distrações, mais atividades, como se a morte pudesse ser evitada ou adiada indefinidamente. No entanto, essa agitação apenas esconde a proximidade da morte, que continua a ressoar no fundo do si-mesmo.

  • 2. A FUGA DA MORTE E A PERDA NO “ON”
    • 2.1. A banalização da morte no cotidiano
      • No cotidiano, a morte é reduzida a um evento que acontece a outros, mas não ao si-mesmo. O “On” compreende a morte como um acidente que ocorre constantemente, um “caso” que não concerne diretamente ao Dasein. Essa compreensão banaliza a morte, reduzindo-a a um fenômeno empírico, um ente presente-no-mundo. O “On” falha em compreender a morte em sua dimensão ontológica, como a possibilidade mais própria do Dasein.
      • A morte, no cotidiano, é tratada como um evento que pode ser adiado ou evitado. O Dasein, ao se perder no “On”, evita a confrontação com a morte como possibilidade mais própria. Essa fuga é caracterizada por uma agitação constante, uma busca por mais projetos, mais distrações, mais atividades, como se a morte pudesse ser evitada ou adiada indefinidamente.
  • 2.2. A fuga da morte e a perda do si-mesmo
    • A fuga da morte no “On” é uma tentativa de evitar a angústia que ela provoca. O Dasein, ao se perder no “On”, evita a confrontação com a morte como possibilidade mais própria. Essa fuga é caracterizada por uma agitação constante, uma busca por mais projetos, mais distrações, mais atividades, como se a morte pudesse ser evitada ou adiada indefinidamente.
    • No entanto, essa agitação apenas esconde a proximidade da morte, que continua a ressoar no fundo do si-mesmo. A morte não é um evento que acontece apenas no futuro, mas uma possibilidade que concerne ao Dasein em seu ser. A fuga da morte no “On” é uma tentativa de evitar a angústia, mas essa fuga apenas aprofunda a perda do si-mesmo.
  • 2.3. A revelação da morte como possibilidade mais própria
    • A morte revela ao Dasein sua possibilidade mais própria: a possibilidade de não-ser. Essa revelação não é uma obsessão mórbida, mas a compreensão de que a morte é a possibilidade que possibilita todas as outras possibilidades do Dasein. A morte não é um evento que acontece apenas no futuro, mas uma possibilidade que concerne ao Dasein em seu ser.
    • A morte, como possibilidade mais própria, individualiza o Dasein de maneira radical. Ela revela ao Dasein que ele é um ser finito, mas também um ser que se relaciona com o infinito, com o ser que o transcende. Essa relação constitui o Dasein como um ser aberto, um ser que se compreende como possibilidade.

  • 3. A MANUTENÇÃO DA ABERTURA: ERSCHLOSSENHEIT E ENTSCHLOSSENHEIT
    • 3.1. A abertura (Erschlossenheit) como constituição fundamental do Dasein
      • O Dasein é sua abertura (Erschlossenheit). Essa abertura não é um estado passivo, mas um movimento ativo de compreensão e projeção. O Dasein é sempre um ser que se compreende como possibilidade, um ser que se projeta para possibilidades. A abertura do Dasein é possibilitada pela morte, que revela ao Dasein sua finitude e sua relação com o ser.
      • A abertura (Erschlossenheit) pode permanecer velada, mas é ela que possibilita a descoberta do si-mesmo. A fuga dessa abertura, característica do cotidiano, é uma tentativa de evitar a confrontação com a facticidade da existência. O Dasein, ao fugir da abertura, acaba por perder-se no “On”, onde a morte é reduzida a um evento mundano.
  • 3.2. A decisão (Entschlossenheit) como assunção da abertura
    • A decisão (Entschlossenheit) é o modo como o Dasein assume sua abertura. Ela não é uma escolha entre possibilidades, mas a compreensão de que o Dasein é sempre um ser-para-a-morte, um ser que se relaciona com sua finitude. A decisão revela ao Dasein que ele é um ser que se projeta para possibilidades, um ser que nunca se fecha em uma identidade fixa.
    • A decisão (Entschlossenheit) não é uma resolução no sentido moral ou heroico do termo. Ela não representa a decisão ou a resolução como atributos de antropologias filosóficas. Heidegger a pensa em um nível de profundidade fundamental-ontológico, como condição do desdobramento de um deixar-ser fundamental. A Entschlossenheit não é uma decisão determinada, mas a manutenção na abertura que torna possível a emergência de algo para o qual nos determinamos.
  • 3.3. A Entschlossenheit como abertura resoluta
    • A Entschlossenheit é a assunção da Erschlossenheit e de seus limites noturnos, agora compreendidos como possibilitadores. Ela é a decisão de permanecer aberto àquilo a que se é aberto como Erschlossenheit. Na Entschlossenheit, o si-mesmo assume a vontade de suportar o mistério, de deixá-lo ser, de não se esconder que ele o atravessa, o condiciona e o tece.
    • A Entschlossenheit não é uma decisão no sentido comum do termo, mas a abertura para a abertura. Ela não é uma determinação para um projeto específico, mas a manutenção da abertura que possibilita a emergência de possibilidades. A Entschlossenheit é a abertura para o ser, que possibilita ao Dasein ser a possibilidade que ele é.

  • 4. A ENTSCHLOSSENHEIT COMO CONDIÇÃO DA AÇÃO AUTÊNTICA
    • 4.1. A Entschlossenheit como abertura para o mundo
      • A Entschlossenheit não isola o Dasein de seu mundo, mas o transporta para seu ser preocupado junto ao que está à mão (Zuhandenes). Ela não reduz o Dasein a um eu flutuante, mas o lança na solicitude de seu ser-com com os outros. A partir do “em-vista-de-que” do poder-ser escolhido por si mesmo, o Dasein resoluto se torna livre para seu mundo.
      • A Entschlossenheit é a abertura mais originária do Dasein. Ela abre co-originariamente o ser-no-mundo em sua totalidade, ou seja, o mundo, o ser-para e o si-mesmo que esse ente é como “eu sou”. Com a abertura do mundo, o ente intramundano é sempre já descoberto. O ser-descoberto do que está à mão e do que está simplesmente dado se funda na abertura do mundo.
  • 4.2. A Entschlossenheit como projeção do poder-ser mais próprio
    • A Entschlossenheit projeta o poder-ser mais próprio do Dasein. Ela não projeta um projeto determinado, mas um horizonte de liberdade para uma aparição. Ela projeta a morte, mantendo-se na abertura do ser-para-a-morte. O ser constitui nela, para o Dasein, o pano de fundo de todo ente, que se manifesta livremente em sua região e não mais nos limites que lhe são impostos pela preocupação circunspecta.
    • Na decisão própria, o si-mesmo não se compreende mais como um eu a quem é submetido um ente, mas como um si-mesmo que deixa se desdobrar e possui deferência pelo desdobramento de todo outro. O si-mesmo é despossuído de toda crispation ôntica pelo ser-para-a-morte, que, uma vez assumido pela abertura resoluta, torna possível, pela des-oclusão do si-mesmo, a manifestação da eclosão do ente em seu ser.
  • 4.3. A Entschlossenheit como respeito pelo ente
    • A Entschlossenheit não é um voluntarismo ou uma vontade de potência, mas uma reticência fundamental. Tudo está impregnado de noite, o vazio atravessa todas as coisas, concedendo a cada coisa um espaço de desdobramento e uma possibilidade de ser penetrada por um pensamento. A Entschlossenheit permite uma desobstrução universal do ente, graças à assunção, pelo si-mesmo, de seu poder-ser mais próprio.
    • Na Entschlossenheit, o si-mesmo não visa a este ou aquele ente, mas, no ente, a si mesmo como aberto ao ente e revelador de ser. Ele não é mais o mestre e possuidor do ente, mas aquele que deixa o ente florescer e desabrochar em sua verdade. Pela prova do ser-para-a-morte que escolhe suportar na Entschlossenheit, o si-mesmo permanece continuamente em direção à morte, e todo ente lhe aparece assim sobre o pano de fundo daquilo que não é nada de ente.

  • 5. A ENTSCHLOSSENHEIT COMO FUNDAMENTO DA AÇÃO E DA RESPONSABILIDADE
    • 5.1. A Entschlossenheit como condição de possibilidade da ação
      • A Entschlossenheit é a condição de possibilidade de toda ação. Ela não é uma ação no sentido ôntico do termo, mas uma ação fundamental-ontológica que possibilita toda ação ôntica. A Entschlossenheit é o deixar-ser que possibilita ao Dasein ser a possibilidade que ele é. Ela é a abertura que possibilita a emergência de algo para o qual nos determinamos.
      • A ação, em sua essência, não é a produção de um efeito, mas o desdobramento de uma coisa na plenitude de sua essência. A Entschlossenheit é a assunção dessa essência da ação, que não é uma vontade de potência, mas um deixar-ser que possibilita ao Dasein ser a possibilidade que ele é.
  • 5.2. A responsabilidade como resposta à ação
    • O si-mesmo é lançado na ação. Ele não atinge a si mesmo em seu próprio se tentar submeter o ser que dá o ser a cada ente. Essa submissão é praticada sempre que o si-mesmo, esquecido de seu poder-ser mais próprio, se situa como ente no centro do ente. A Entschlossenheit abre o Dasein e o desdobra, ela abre a ipseidade do si-mesmo.
    • A responsabilidade é a resposta do si-mesmo à ação que lhe é dada. O si-mesmo deve responder por sua ação, pois agir não lhe pertence, mas lhe é concedido pelo espaço que lhe é dado pelo ser. A moral torna o si-mesmo responsável, pois o si-mesmo recebeu algo de que deve responder.
  • 5.3. A Entschlossenheit como des-oclusão do si-mesmo
    • A Entschlossenheit é a des-oclusão do si-mesmo diante de sua própria ipseidade. Ela não exige que o si-mesmo aja sempre mais e sempre com mais firmeza, mas, ao contrário, que aja respeitando cada ente e cada indivíduo, dos quais faz aparecer o ser e, portanto, o espaço de desdobramento ou a individualidade. A Entschlossenheit convida a fazer uma pausa para estabelecer a contemplação de um olhar.
    • A Entschlossenheit é uma ação fundamental-ontológica que possibilita toda ação ôntica. Ela é o deixar-ser que possibilita ao Dasein ser a possibilidade que ele é. A Entschlossenheit é a abertura que possibilita a emergência de algo para o qual nos determinamos, mas também a contemplação que revela o ser em sua verdade.
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