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ego: um fundamento deixado impensado (2005:166)
PEOS
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A fenomenologia como tarefa infinita de recensão dos vividos.
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A revolução do olhar fenomenológico volta-se para os vividos da consciência, experienciando-os e determinando-os pura e simplesmente como tais.
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Esta conversão do olhar abre uma tarefa geral: explorar sistematicamente e compreender como um todo fechado e acabado em si a multiplicidade dos vividos, suas formas típicas, seus graus e suas conexões hierárquicas.
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A fenomenologia suspende a tese do mundo e reconduz o olhar para a subjetividade intencional como estrutura de fenomenalização do mundo.
A clausura sobre si da consciência e o paradoxo da exaustividade impossível.-
Com o mundo posto entre parênteses e o eu puro transcendental estabelecido como única realidade sem exterioridade, postula-se a unidade sistemática do fenômeno em geral.
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Isto torna possível, em direito, uma inteligência exaustiva da totalidade dos fenômenos, obrigando a fenomenologia a se colocar como um permanente inventário da infinita multiplicidade dos atos de consciência.
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Há uma simultaneidade: uma infinitude de fato das possibilidades de a consciência se relacionar com um objeto, e uma clausura de direito do setor de investigação, considerado ele mesmo como o todo.
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A fenomenologia oscila assim entre a preocupação de recensear as possibilidades da consciência e o cuidado de manter-se na redução para conservar em vista o eu puro.
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O eu puro abre o paradoxo da possibilidade de uma exaustividade impossível.
A fenomenologia como ciência descritiva da totalidade fechada dos vividos.-
A multiplicidade dos vividos que compõem o mundo imanente é um mundo fechado e acabado em si.
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Da postulação dessa totalidade, trata-se de fazer a exegese progressiva, até que seja erigido um sistema do idealismo transcendental ou intencional.
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A tarefa da investigação fenomenológica é perscrutar todos os domínios existentes quanto à sua estrutura comum: a dinâmica intencional da consciência intuitiva.
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O projeto fundamental é uma nova maneira de olhar e descrever cientificamente as coisas, distante de uma busca do fundo ontológico abissal da ipseidade.
A extensão total do problema transcendental e o desvio para o dado.-
Com base na clausura da subjetividade pura, a fenomenologia transcendental se atribui a tarefa de contar, com uma exaustividade obsessiva e impossível, a infinita multiplicidade das ocorrências intencionais.
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Ela também se propõe a descrever fenomenologicamente todas as outras ciências, mostrando como dependem da constituição do eu puro.
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Husserl insiste na imensa extensão das pesquisas agora possíveis e necessárias, identificando essa extensão com a própria fenomenologia.
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A fenomenologia acaba por dirigir seu olhar para o que ela abre, em vez de para o que abre; ela olha para o que abre apenas para melhor olhar para o que se abre.
O vertigem diante da infinitude e a perda de si nas análises concretas.-
Diante da descoberta da infinitude do campo de investigação, Husserl experimenta um vertigem diante da ampla dispersão possibilitada pela exploração total da posição do eu absoluto.
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Este vertigem é considerado pertencente à essência da fenomenologia, já que um tratamento sistemático deveria abraçar absolutamente todas as descrições da consciência.
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Para Heidegger, neste contexto, a exploração descritiva torna-se seu próprio fim e se perde a si mesma, ofuscada pela luxúria do dado que esconde a tarefa e a possibilidade de pensar a doação.
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A fenomenologia olha mais para baixo (suas possibilidades de dedução) do que para cima (a fonte que dá a dedução).
As Investigações Fenomenológicas para a Constituição e a redução do ser a um correlato constituído.-
As Ideen II representam o campo de aplicação das linhas fundamentais obtidas pela redução, visando construir a noção fenomenológica do que está aquém do eu puro e é por ele condicionado: o ser e seu sentido de ser.
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O ser é compreendido como um conjunto constituído, cujas diferentes camadas de significação devem ser exumadas.
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Isso manifesta tanto o poder analítico de Husserl quanto, para Heidegger, a perda de si da fenomenologia no campo das análises concretas.
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O eu está tão enredado no que abre que não pode, no contexto husserliano, acessar o estatuto de objeto de estudo à parte.
O estatuto aporético do eu transcendental: não-ente, mas que recai no ente.-
Husserl estabelece que o eu não é algo que possa ser considerado por si e tratado como um objeto próprio de estudo.
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Para Heidegger, o problema reside em como pensar simultaneamente uma simples noção de unidade cuja singularidade não é interrogada e conferir a essa unidade impensada o estatuto de não-ente.
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A crítica heideggeriana não afirma que o eu husserliano é uma coisa ou um ente, mas que ele acaba retornando a um ente após ter sido fluificado pelo esforço de Husserl.
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O eu transcendental não é um ente, mas acaba por sê-lo porque seu polo de sombra, o fato de ser polo de doação sendo ao mesmo tempo nada, não é considerado como devendo entrar no campo da descrição.
A recusa de questionar a zona de sombra do eu e a redução do nada a um objeto manuseável.-
A zona de não-ente que é o eu transcendental não é interrogada, embora seja apresentada como o mais originário encontrado pela fenomenologia.
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Só uma questão colocada no lugar desse não-ente pode manter o eu como um elemento diferente do ente, mostrando que há algo nesse nada aparente.
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Ao não considerar o mistério de sua vacuidade constituinte, o nada é rebaixado à categoria de um objeto manuseável, uma simples coisa do mundo.
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Para Heidegger, apenas a questão mantém o não-ente como tal, e Husserl recusa essa questão ao recusar-se a pensar o ser da doação.
A tensão entre o enredamento nos vividos e a afirmação da pureza do eu.-
Husserl afirma, contraditoriamente, que o eu, embora entrelaçado a todos os seus vividos, não é algo pensável por si.
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Ele não é pensável porque não é um vivido, o que faz do vivido a medida de todo o pensável; no entanto, o pensável só é possível pelo eu impensável.
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Esta aporia revela a violência na qual Husserl se instala para não deixar escapar o princípio do eu puro que quis instituir como fundamento firme.
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O importante para Husserl é que o eu esteja lá, e as dificuldades que daí decorrem parecem não entrar em linha de conta.
A fixação no ego como pressuposto e a cegueira para as contradições.-
O projeto de cientificidade de Husserl consiste em “pôr a mão” em um princípio sem pensá-lo em sua presença, mas apenas em sua consistência constituinte.
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O preconceito de certeza está tão arraigado na intenção primeira da fenomenologia transcendental que Husserl se torna cego para as contradições que ela gera.
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Seu objetivo é estabelecer uma crítica do conhecimento que conduza a um início, a um terreno firme de dados dos quais se pode dispor.
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Para Heidegger, porém, não se pode interrogar o ser desse dado, pois tão logo se questiona, encontra-se um abismo.
A preservação do eu como dado puro contra o questionamento ontológico.-
O essencial para Husserl é conservar o eu como esse dado puro e mantê-lo contra qualquer questionamento que queira torná-lo objeto de pesquisa.
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O pensamento de Husserl move-se na pressuposição de um ideal científico do qual o ego é a base, ideal assegurado pela posição do eu puro.
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Husserl não quer imaginar a problematicidade do eu puro para assentar nele a certeza dos vividos, mesmo que isso produza a aporia de um polo vazio que coesiona o fluxo.
A necessidade de questionar o não-ente constituinte e a falha husserliana.-
Se o ego deve ser princípio, é necessário fazê-lo com base no mistério de seu vazio doador, no qual também se deve entrar.
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O não-ente tem uma consistência de princípio que Husserl evidencia mas não interroga: este é o problema fundamental de sua abordagem.
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Para Husserl, a obtenção de um princípio basta; para Heidegger, é preciso perguntar por que há aqui, no eu puro, efetivamente princípio.
A escolha heideggeriana: a exploração “a montante” versus a recensão “a jusante”.-
A exploração descritiva pode tomar o caminho de uma infinita recensão do que está a jusante da doação originária (os vividos), ou o caminho inverso de um desbravamento que esclarece a possibilidade mesma do olhar, do constituinte.
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Heidegger escolhe este último caminho, um “retorno a montante” que remonta à fonte.
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Enquanto Husserl fecha a questão fundamental com a redução, limitando a exploração ao dado ou à modalidade de doação, Heidegger busca penetrar na doação como tal.
A inversão heideggeriana da redução: abertura simultânea do eu e do ser.-
Heidegger conduz a redução fenomenológica de modo a abrir simultaneamente o eu e o ser, revelando no vivido o que quebra sua clausura: a proximidade do ser com a qual o eu se funde.
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Enquanto Husserl chega ao eu puro, Heidegger chega ao eu e ao seu correlato intencional: o ser sem o qual o eu não pode ter o horizonte de sua intencionalidade.
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A diferença está em que Heidegger leva a sério a proximidade desse ser à consciência, vendo-o como elemento capital do desdobramento do eu.
A dependência constitutiva do eu em relação ao ser.-
O eu só é absoluto e constituinte porque é intencional, e sua intencionalidade só se desdobra se uma intuição categorial, uma pré-apreensão do ser, acompanhar toda sua atividade.
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Não pode haver visada sem horizonte de visada, nem posição sem horizonte de posição.
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A comunidade do eu puro e do ser é afirmada por Husserl apenas para fazer do ser a ferramenta do desdobramento da intencionalidade do eu.
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Para Heidegger, é logicamente impensável que o ser dependa da atividade do eu, já que essa atividade não teria lugar sem a proximidade do ser.
O acesso ao ser no coração do vivido e a superação da imanência.-
Penetrar no coração do vivido é encontrar a singularidade de seu correlato, o ser, abrindo a clausura do vivido sobre si mesmo.
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É reencontrar no coração do eu o mundo transcendental, mas em sua transcendência própria, e não reduzido à imanência.
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Isto não representa uma regressão, pois o si heideggeriano, por sua proximidade ao ser, já está “fora”, já está junto de seu objeto.
A tarefa de determinar o modo de ser específico do Dasein.-
A questão imediata passa a ser descobrir qual é o modo de ser do estado no qual o “mundo” se constitui.
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Não é porque o eu puro é um ego que ele é constituinte, mas porque nele reside um caráter de ser pelo qual ele pode ser o que é.
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O conceito de ego não contém analiticamente em si o de constituição.
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É preciso mostrar que o modo de ser do Dasein humano é totalmente diferente do de todos os outros entes, e que é precisamente por causa desse modo de ser que ele abriga em si a possibilidade da constituição transcendental.
A ex-sistência como modo de ser que anula a distinção imanência/transcendência.-
O modo de ser específico é o fato de poder dizer “ser” ou de se relacionar com o ser de qualquer coisa, sobretudo com seu próprio ser.
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Este fenômeno implica a possibilidade nativa para o si de estar em si mesmo fora de si, o que anula a distinção entre imanência e transcendência.
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O si é ele mesmo transcendente, sempre já junto daquilo que abre. O homem é, nesse sentido, ex-sistente.
A “maravilha” da constituição e a questão proibida do ser da subjetividade.-
A verdadeira maravilha reside no fato de que a constituição existencial do Dasein torna possível a constituição transcendental de tudo o que é positivo.
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O elemento constituinte não é nada, mas é algo, algo de ente, embora não no sentido do positivo.
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A tarefa de Heidegger é descobrir a espacialidade do ser no coração do vivido, destacando o valor doador do “enquanto” (als) acessível ao eu.
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Heidegger é assim levado a colocar a “questão proibida”: a do ser da subjetividade transcendental.
Os três graus: o dado, a doação, o ser da doação.-
Pode-se determinar três graus: o dado, a doação, e o ser dessa doação.
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Este terceiro grau foi arrancado ao encapsulamento da subjetividade husserliana pela ênfase no valor de abertura do “enquanto” presente no coração da intuição categorial.
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Heidegger escolhe a ontologia fundamental, que visa a penetração no mistério da doação como tal através da penetração no que a subjetividade tem de mais radical: a pré-compreensão do ser.
A fenomenologia não funda sua própria possibilidade.-
A fenomenologia quer tornar evidentes as múltiplas estruturas do psíquico puro, objetivando as modalidades do comportamento da alma.
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No entanto, a possibilidade mesma dessa objetivação não é pensada; a fenomenologia não fundamenta seu método no caráter de ser desse eu puro que é querido como fundamento de tudo.
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Ela não pensa sua própria possibilidade, nem a possibilidade da redução no eu-resíduo da redução.
O fundamento absoluto como indescritível e a decisão metodológica arbitrária.-
O fundamento absoluto, o ego transcendental, é o que não pode ser descrito de modo algum. Ele só aparece enredado em seus vividos.
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Esta situação deveria fazê-lo depender do dado que desdobra e negar-lhe a pureza, não fosse a posição de sua absolutidade por motivos de eficácia científica.
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Doador emaranhado no que dá, fundamento não fundamentado, polo invisível de um fluxo, o ego husserliano está lá apenas para dar impulso a uma nova ciência cujos fundamentos só interessam pelos resultados.
A crítica ao fundamento não questionado e o tropo da regressão ao infinito.-
Heidegger pergunta de onde o fundamento tira seu ser-fundamento, opondo à fenomenologia husserliana o tropo cético da regressão ao infinito.
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Este tropo não é usado para negar todo saber, mas para mostrar que um fundamento nunca é último, pois antes de ser fundamento, ele simplesmente é, depende do ser pelo qual é.
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A questão de seu ser-fundamento torna-se, assim, a questão do ser.
A indeterminação do ego e o acesso secreto ao questionamento.-
A afirmação husserliana da indeterminação do ego é pertinente, pois aponta para um modo de ser excluído de toda determinação objetal.
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No entanto, para chegar a esse saber, é necessário ter entrado, ainda que minimamente, num questionamento sobre a tenência da indeterminação.
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Os textos sobre a impossibilidade de estudar a zona de indeterminação revelam, para Heidegger, uma secreta vontade de não prosseguir um questionamento já iniciado.
A vontade de não descrever a origem e os limites do projeto husserliano.-
A vontade de não descrever aquilo de onde todo fenômeno provém, de proibir-se todo questionamento essencial, manifesta os limites do projeto husserliano.
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Ao fazer tudo repousar na intencionalidade obtida por redução, Husserl não coloca a questão da possibilidade dessa intencionalidade, nem do espaço no qual o ser-intencional da consciência pode se desdobrar.
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A fenomenologia interessa-se pela gênese dos vividos, mas não pela possibilidade de que haja vivido, que supõe uma proximidade primeira ao ser.
A situação de dilaceração da fenomenologia.-
A fenomenologia se vê dilacerada entre, de um lado, a manutenção de um princípio indizível que, no entanto, deveria poder ser dito para ser princípio, e de outro, o uso desse princípio para desdobrar uma intencionalidade que não está fundamentada.
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A efetivação da redução torna visível toda a tenência intencional de um vivido, mas a redução mesma não é compreendida no ser da doação.
A necessidade de uma refundação do problema do ego na base do ser.-
As diversas camadas de sentido das quais o eu é vetor não são bases estáveis, pois são impregnadas de um vazio doador de sentido.
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Em vez de certezas fixas, elas são enigmas de presença que agitam continuamente o eu.
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A superação das dificuldades do husserlianismo depende, para Heidegger, de uma refundação completa do problema do ego, com base na presença do ser à consciência conquistada pela compreensão da intuição categorial.
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Trata-se de aprender a ver fenomenologicamente. Quando a compreensão das coisas mesmas é alcançada, a fenomenologia pode desaparecer.
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