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estudos:caron:desvelamento-peos-1229

Caron (2005:1229) – desvelamento do ente

PEOS

  • O desvelamento do ente, a abertura do si-mesmo e a emergência do ser não são fases sucessivas, mas um único ato de doação, que Heidegger chama de Ereignis (acontecimento apropriador). Este ato implica uma mútua pertença do si-mesmo e do ente no seio de uma mesma essência-desdobrante (Wesung).
    • O ser quer ser pensado, por isso um si-mesmo é necessário. Mas o ser não é um sujeito, nem um si-mesmo. O ser produz um si-mesmo para ser pensado no mistério de seu retiro. O si-mesmo é Da-sein, abertura do ente, mas recebe esta abertura do ser no qual está lançado.
    • O ser é Ereignis (ou Eignis), propriação, envio de cada um a si mesmo. O movimento do qual emerge a ipseidade não é ele mesmo uma ipseidade, pois o si-mesmo está envolvido num processo que não escolheu e que o ultrapassa. O ser é o fundo abissal de onde todo si-mesmo provém.
  • Viu-se como o Logos nomeia a abertura do comportamento, integrando-a ao processo de desdobramento da physis. O legein é o “por” que deixa estendido diante. E ele é a essência mesma do pensamento, essência reinserida no movimento universal de eclosão.
    • Há um ato comum, iniciado pelo ser, entre o desvelamento próprio do ser e o desvelamento constitutivo da natureza do pensamento. Ao participar do retiro do ser, o pensamento é desvelamento e está inscrito na aletheia. O ser pronuncia um silêncio; a palavra humana responde a este silêncio pronunciando o ente.
  • A essência do pensamento, que é a estrutura do si-mesmo, é seguir o retiro do ser em seu movimento. O retiro do ser é um atrativo para o pensamento. O ser volta-se para o pensamento ao desviar-se, e o pensamento segue o retiro, prolongando-o e tornando-se assim auxiliar da doação.
    • O homem, neste movimento, é o “Mostrador” (der Weiser), aquele que indica o que se retira. O logos é proximidade com o que é longínquo (o retiro, o não-ente).
  • O pensamento, como logos, é memória (Gedächtnis) do ser, mesmo que de modo impensado. O si-mesmo, sendo memória do ser, deve engajar-se na guarda desta condição que carrega em si.
    • A memória é o recolhimento do pensamento fiel sobre aquilo que em todo lugar deseja ser guardado no pensamento. A pensamento não é um atributo do homem; antes, o homem é um atributo da pensamento, que é o Lá (Da) do Ser (Sein). O homem é a persona, a máscara do ser.
  • O homem pertence à pensamento. Ele vive na ipseidade, que vive no Dasein, que vive no pensamento, que vive no ser. Ele não domina o fundo de seu ser, que, no entanto, o sustenta e lhe concede o destino da liberdade.
    • O homem está incessantemente no Logos, mesmo quando foge no afã da vida cotidiana. O Logos permanece memória do ser; a cada aparecimento de um ente está associada a aparição de sua região, isto é, do ser.
    • O Dasein perdido no “se” (das Man) esquece de pensar, de se fazer próximo da doação, de agradecer (danken) o que dá a pensar. Pensar o ser é responder ao apelo da essência do ser, libertando-se para a sua linguagem.
  • A tarefa do pensamento é reconhecer que seu jorrar no seio do prepotente está marcado pelo agir primeiro de uma graça à qual deve ser dada graça pelo pensamento. “Toda pensamento está em graça do ser”. O ser não é um objeto do pensamento, mas aquilo através do qual o pensamento se desdobra.
    • Poucos são aqueles que, na resolução (Entschlossenheit), se abrem resolutamente à abertura que são. Todos estão no Logos, mas nem todos assumem a essência de sua ipseidade na abertura-resoluta, no que se chama noein.
  • O noein é a assunção, pela pensamento, do Logos em ação no pensamento; é a assunção da ipseidade pelo si-mesmo. Após estabelecer a estrutura do si-mesmo como logos inscrito no Logos do ser, é preciso determinar como o si-mesmo pode ser fiel à sua essência.
    • A maneira como o si-mesmo vive autenticamente sua estrutura dá-se através do pensamento meditante e da palavra poética. O noein toma em guarda o legein e permite, no seio da essência poemática, o cumprimento do homem Mostrador, que pode se tornar um homem Dizente, à escuta da Palavra do ser.
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