Prefácio
BUZZI, Arcângelo. A Identidade Humana. Petrópolis: Vozes, 2002.
1. A identidade humana revela em sua condição mais estranha a existência como impulso ou liberdade de arrancar-se de si e projetar-se, à semelhança de um voo de águia, buscando efetuar-se junto à dinâmica da realidade numa prática de engajamento solidário, sendo a sensibilidade, o pensamento e o desejo os que dispõem essa identidade a uma ancoragem além de si, municiando-se de conhecimentos práticos que constroem o mundo de sua existência, mundo esse que sinaliza o escondimento de outra realidade.
2. Por sinalizar o escondimento de outra realidade, o mundo não se reduz a um sistema de apropriação da natureza, a uma ordem inventada ou a uma agenda de trabalho onde os habitantes da terra se apresentam como num palco, nem se limita à legislação de um campo de relações em que os humanos convivem e transformam a natureza em cultura, sendo também e sobretudo sinal de referência a um x, morada passageira, caminho sem volta, espaço de pura espera e ponte para a última margem.
3. Estamos sempre a caminho, nunca no destino, e todo movimento alonga um erro quando o intento do destino não decide, conforme Santo Agostinho e Guimarães Rosa.
4. Deve-se ser como os que, todo tempo, vigiam e permanecem na espera, segundo Lucas 12,36.
5. Os vivos e filhos do tempo não sentem a existência tremer, não escutam a música guerreira que chama, não percebem a precipitação do instante que faz com que nem mesmo o ponteiro das horas mais o possa seguir, conforme Kierkegaard.
6. Sendo cada qual, em sua diferença, aprendiz de um mesmo comum-ser, ajeitado no berço da sensibilidade, do pensamento e do desejo, a existência-no-mundo (In-der-Welt-sein) é vivida o mais das vezes numa grande perda, de costas para a realidade, absorvida nos negócios do mundo sem atender ao essencial de sua precipitação, perdendo-se o olhar atento ao estupendo instante de todas as coisas.
7. O olhar nítido como um girassol percebe a cada momento aquilo que nunca antes fora visto, guardando o pasmo essencial da criança que reparasse ter nascido deveras, sentindo-se nascido a cada instante para a eterna novidade do Mundo, nos versos de Fernando Pessoa.
8. Os modos de realização sugeridos, breves e não tão diferentes entre si quanto seria ideal, pretendem induzir a identidade humana a ancorar a existência além de si, no vigor infinito do ser que se dá nos existentes finitos, o que requer diligente aprendizagem, pois as falas dos existentes finitos disputam o coração dos humanos mais que o murmúrio da fonte infinita do ser.
9. Os humanos, reis da finitude apaixonados, podem ainda assim erguer-se e direcionar sua existência para um ponto de contato mínimo com o vigor infinito do ser, pois, se esta fumaça faltasse sobre a chaminé, tristes seriam então a casa, as árvores e o lago, conforme Brecht.
10. A árvore, flagelada e vergada pelo vento que não se vê, corresponde ao homem, do mesmo modo flagelado e vergado por mãos invisíveis, conforme Nietzsche em Zaratustra.
