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BUZZI, Arcângelo. A Identidade Humana. Petrópolis: Vozes, 2002.
A IDENTIDADE NO DESEJO DE CONHECER
1. Todos os homens têm por natureza o desejo de conhecer, do que é prova o prazer proporcionado pelas sensações, sobretudo as visuais, preferidas mesmo quando nenhuma ação se propõe, porque possibilitam melhor conhecimento das coisas.
2. Na invenção e no uso de instrumentos, sinais e símbolos, satisfaz-se o desejo de conhecer mediante a aproximação do desconhecido a partir do já conhecido, como ocorre no uso dos meios de comunicação e transporte em relação ao espaço, no uso dos calendários em relação ao tempo, e nas usanças de convivência familiar e social, no trabalho, no comércio, na política, na medicina, na dança, nas artes, no esporte, na amizade, no amor, na luta, nas virtudes e no culto religioso.
3. Os usos e costumes de vida contêm conhecimentos que disciplinam e educam a identidade humana a pertencer aos diferentes acontecimentos de seu cotidiano.
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Usa-se a palavra para associar-se ao vigor da vida, a xícara para associar-se ao vigor da bebida, a enxada para associar-se ao vigor da terra.
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Entra-se no templo, compõem-se louvores e dirigem-se preces aos divinos para associar a frágil mortalidade ao esplendor de sua imortalidade.
4. Para conhecer um povo, estudam-se sobretudo seus usos e costumes de vida, pois é na cultura desses usos que o povo se solidariza, tornando-se um só sangue e aglutinando-se fortemente à mesma terra, revelando o quanto pratica o desejo de conhecer e de associar-se às realidades de seu dia a dia.
5. Ultrapassando a fórmula sofística de que o homem é a medida de todas as coisas, Sócrates (469-399 a.C.) inspirou-se no templo de Apolo para defender que a identidade humana busca não só o saber útil às suas necessidades, mas também o saber essencial da realidade, sendo a inscrição délfica conhece-te a ti mesmo traduzível livremente como reconhece que és capaz de conhecer e entra no essencial da realidade pelo portal do conhecimento.
6. Todos os objetos de uso proclamam a mesma recomendação do templo de Apolo, pois são fabricados e usados não só para satisfazer necessidades, mas também para realizar o desejo de conhecer e associar a identidade ao reino da beleza, como no uso de ícones se dá a associação aos divinos.
7. No uso do templo, das palavras e dos utensílios cotidianos, os antigos gregos satisfaziam não apenas necessidades, mas também o desejo de conhecer, comportando-se como argonautas do conhecimento capazes de associar-se ao essencial da realidade a ponto de se considerarem eixo de conjunção do universo, dando a si mesmos o nome de microcosmo.
8. O homem não é microcosmo no sentido de miniatura do mundo, mas no sentido de conjuntura da identidade, isto é, de conjuntura em que se juntam as diferenças no ser (Sein) de tudo que é.
9. O microcosmo sinaliza a contração do infinito no finito da identidade humana, ponto em que o infinito goteja a dinâmica de seu vir-a-ser, buscado desde sempre nos usos e costumes.
10. Inspirando-se no templo de Apolo, Sócrates prestigiou o conhecimento como método de associar a identidade humana à dinâmica da realidade, identificando esse templo com a sensação produzida pela vitalidade dos órgãos do corpo, morada de Apolo, o deus da luz e razão que se une fortemente à dinâmica da realidade.
11. A razão, esse Apolo da identidade humana, auscultando as sensações da sensibilidade, é capaz de unir-se ao princípio da realidade e entrelaçar-se a ele num co-mum-pertencer, como mostraram em discurso simples os filósofos pré-socráticos.
12. Auscultando a sensação da água, Tales de Mileto (séc. VII a.C.) reconhecia nela um princípio que, ao doar-se de si, regozijava todas as coisas, assim como Anaxímenes (séc. VI a.C.), auscultando a sensação do ar, reconhecia nele um princípio que, ao se doar, energizava todas as coisas, no que os pré-socráticos, tocados pelo desejo de conhecer, mostraram que a identidade humana pode associar-se ao vigor do infinito e ancorar no gozo de sua pertença.
13. O vigor do infinito engloba e governa tudo, e a terra, o sol, a lua, o éter, a via-láctea, o Olimpo e o calor dos astros contêm o princípio de tornar-se, não sendo possível conhecer condignamente o vigor do homem sem o vigor do todo.
14. Ainda que viva no terreno movediço das sensações, a identidade humana, morando no templo de Apolo, na luz da razão, percebe a provocação do princípio da realidade e sofre por querer adequar-se a ele fora de seu alcance, tribulação testemunhada por Santo Agostinho (354-430) no empenho de ancorar em seu principiar-se.
15. Nada há de mais próximo do eu do que o próprio eu, e é nele mesmo, transformado em terra de dificuldades e suor copioso, que se realiza esse trabalho.
16. Na atividade de conhecer, a identidade humana se une ao essencial da realidade e pressente, além do uso que faz dela, a presença de uma beleza a chamá-la fortemente, como o flautista que só se aprimora ao internar-se cada vez mais na cognição da beleza da música ouvida nos sons de seu instrumento, e como os sons das palavras, mais ainda que os da flauta, arrebatam e transportam a identidade humana para além de si, conforme o elogio de Alcibíades a Sócrates.
17. O elogio de Alcibíades compara Sócrates a Mársyas, afirmando que, sem instrumento algum, ele produz pelas palavras o mesmo efeito hipnotizante da flauta, arrebatando os ouvintes a ponto de fazer o coração bater mais forte e os olhos encherem-se de lágrimas.
18. Na oratória das palavras, a identidade humana conhece melhor o enigma de sua situação para além das sensações da sensibilidade, enlaçando-se com a realidade nos diversos níveis de suas necessidades e desejos, de modo que, ao efetuar o conhecimento das palavras, ela já comemora o vigor que vige universalmente em cada coisa e se faz existência solidária.
19. A incompletude atormenta a identidade humana e a compele a escavar fundo no campo das sensações, em busca do essencial, do verdadeiro, do justo, do bom e do belo que latejam no visível, no audível e no palpável, construindo, nessa escavação, três degraus de conhecimento ou três modos de inserir-se no essencial do ser (Sein).
20. O primeiro conhecimento, fonte dos demais, é a sensação, construída pelo vigor dos sentidos.
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A identidade humana no seu todo é uma sensação, uma vida lançada no corpo que se realiza no vigor de seus órgãos.
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O sabor da sensação, quando agradável, é tão envolvente que a identidade tende a permanecer o mais possível em sua órbita, o que, longe de isolá-la, quando efetuado no vigor casto dos órgãos, constitui um saber útil que entrelaça o corpo à realidade numa feliz ancoragem.
21. Na órbita da sensação, primeiro degrau do conhecimento sensível, a identidade humana percebe cada coisa sob medida, peso e movimento, e é para compreender o vigor de surgimento de cada coisa em sua presença singular que a inteligência elabora a ciência das ideias ou o conhecimento por conceitos, degrau em que mais admira cada coisa e a comemora como inefável presença, sem contudo abandonar o saber administrado pela sensação, antes o atravessando.
22. O saber da sensação e o saber do conhecimento conceptual são apenas degraus que aproximam a identidade humana da escura noite de onde surge cada coisa na aurora de sua inefável singularidade, de modo que, quanto mais se conhece a realidade na travessia das sensações e no espelho dos conceitos, tanto mais estranha ela surge, obscurecendo todo saber e levando a proclamar que se sabe que nada se sabe.
23. É bom ancorar no sabor das sensações, melhor ancorar no saber dos conceitos, mas ótimo é atravessar sensações e conceitos e morar na noite escura da realidade à espera de sua própria aurora, ótimo a que se referia Sócrates ao concluir, após longas disputas, que sei que nada sei.
24. Os corpos que se movem, as árvores que crescem e os animais que se reproduzem nada sabem de si nem da obra que realizam, aparecendo e desaparecendo na ignorância absoluta de si próprios, e essa facticidade (Faktizität) leva a pensar que estão sob a governança de uma sabedoria superior a eles desconhecida.
25. Desde sempre a identidade humana, na compulsão própria de cada época, esteve no interesse de inventar um saber próprio de governança da realidade, tendo dado os passos iniciais o saber da mitologia, depois a filosofia e a teologia, por um método sobretudo comemorativo.
26. O que há de mais antigo nas coisas antigas acompanha o pensamento, que se apega à vinda do que era e por isso é comemoração.
27. A Modernidade privilegia o saber das ciências positivas, teias de aranha da razão que visam não comemorar, mas apropriar-se da realidade.
28. A ciência é uma possibilidade historicamente concretizada do homem, primeiramente do homem ocidental, possibilidade que, realizada no Ocidente, hoje se alonga e cobre o mundo inteiro, informando com sua forma todos os povos, num processo que não poderia ter sido sustado, configurando um destino histórico.
29. Rompendo com a tradição de uma sabedoria que no cotidiano lembrava à identidade humana como pertencer ao começo essencial da realidade, Descartes (1590-1650) foi o fautor de uma ciência instrumental que indaga como entregar a realidade nas mãos da identidade humana.
30. As noções gerais relativas à física permitem chegar a conhecimentos úteis à vida e, conhecendo as forças e ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e dos demais corpos tão distintamente quanto se conhecem os misteres dos artífices, tornar-se como que senhores e possuidores da natureza.
31. Apesar de se viver numa época de ciência positiva, sem escuta pelo advento da realidade, ainda é possível compreender textos de pensamento comemorativo, como o de Chuang-Tzu intitulado A penumbra e a sombra.
32. Interrogada pela penumbra sobre por que antes andava e agora está parada, a sombra responde que depende de outro para seus movimentos, e este de outro também depende, não podendo saber por que faz uma coisa ou deixa de fazer outra.
33. O diálogo entre a penumbra e a sombra lembra que a identidade humana ancora num médium desconhecido, nas mãos de uma sabedoria que a conduz para cá e para lá, comemoração que também se pode ouvir num texto dacota.
34. Cada coisa, ao se mover, marca em algum momento um tempo de parada, e assim também Deus parou, sendo o sol, a lua, as estrelas, os ventos, as árvores e os animais lugares onde Ele esteve, para os quais o índio dirige suas preces a fim de atingir o lugar em que Deus parou e obter ajuda e bênção.
