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Hemenêutica da Facticidade

Martin Heidegger. Ontology – The Henneneutics of Facticity. Tr. John van Buren. Bloomington: Indiana University Press, 1999.

Resumo do “Epílogo do Tradutor”

1. O curso de licões de 1923, “Ontologia – A Hermenêutica da Facticidade” (Ontologie – Hermeneutik der Faktizität), antecipa tanto a análise fenomenológico-hermenêutica do Dasein fático de Ser e Tempo (Sein und Zeit) quanto o pensamento poético dos escritos tardios, investigando o ser (Sein) da facticidade, o ser-aí (Dasein) da existência humana fática e seu mundo na temporalidade peculiar do momento (Jeweiligkeit), ao mesmo tempo em que explicita hermeneuticamente as categorias ou existenciais — como temporalidade, ser-em-um-mundo, ocupações, falatório, o impessoal (das Man) e cura — pelos quais a vida fática existe e se interpreta, sobretudo por meio da análise prolongada do “demorar-se por um tempo” (Verweilen) junto “à mesa” no ambiente doméstico, empreendida não como mero tomar conhecimento, mas como um saber existencial voltado a uma vigília radical.

2. A obra tardia A Caminho da Linguagem retoma o vocabulário do curso de 1923, empregando novamente o verbo poético weilen (“demorar-se”), a noção de permanência (Aufenthalt) e o conceito de hermenêutica ligado ao Íon de Platão (534e) e ao deus Hermes (Ερμής) como mensageiro, em uma passagem em que o curso de 1923 é designado como “as primeiras notas para Ser e Tempo”, ainda que o tema poético da temporalidade peculiar do momento tenha depois desaparecido de Ser e Tempo, substituído pelo termo Jemeinigkeit (“ser-sempre-meu”), e o exemplo marcante do demorar-se em casa tenha sido substituído pelo do martelo, sobrevivendo apenas como menção passageira a uma mesa com material de escrita e costura.

3. O curso percorre a história da hermenêutica de Platão a Dilthey e retoma dessa história a noção de que a tradução é ela mesma uma forma de interpretação (ἑρμηνεία), ilustrada pelo relato de Aristeas sobre a tradução do Pentateuco para o grego, caracterizando o tradutor como um ἑρμηνεύς — traduzido como Sprecher (“arauto”) e Künder (“mensageiro”) — em ligação com Hermes como mensageiro dos deuses, de modo que a tradução é entendida não como mera transposição oral ou literal, mas como transformação interpretativa do texto traduzido, convicção que persistiu como tema de toda uma vida, reafirmada no prefácio de 1937 à tradução francesa de “O que é Metafísica?” e depois reformulada no princípio de que toda tradução é inevitavelmente interpretação.

4. A ideia de liberdade em relação a pontos de vista é descartada como ilusória já neste curso, pois a compreensão é sempre guiada por uma posição histórico-fática de olhar constituída como um ter-prévio (Vorhabe) interpretativo do objeto, que, quando devidamente apropriado à situação contemporânea, permite que o objeto seja anunciado e dado a conhecer sob uma luz nova e mais adequada, desde que esse ter-prévio não seja arbitrário, mas correspondente (entsprechend) ou adequado (angemessen) tanto às possibilidades próprias do objeto quanto à situação histórica mutável da interpretação.

5. Disso decorre o primeiro critério hermenêutico para a tradução, a saber, que uma tradução deve ser adequada às realidades e exigências da própria língua e situação histórica do tradutor, exibindo aquela característica da temporalidade peculiar do momento própria de toda tradução ser inevitavelmente “de seu tempo”, qualidade mais visível em retrospecto, como ocorre com as traduções de Platão do século XIX ou com traduções anteriores de Heidegger que hoje se tornaram anacrônicas.

6. Um segundo critério hermenêutico exige que a tradução seja também adequada à realidade e às possibilidades da língua, da conceitualidade e da matéria do texto original, exigindo que o ter-prévio do tradutor seja criticamente depurado e apropriado, de modo que tanto o texto original quanto a língua e o pensamento do tradutor sofram transformação mútua, como exemplifica a necessidade de reproduzir os neologismos de Heidegger — como Jeweiligkeit, vertido como “temporalidade peculiar do momento” ou “awhileness” — já que tais neologismos não nascem de um afã de inovação, mas do próprio conteúdo do texto traduzido.

7. Ambos os critérios hermenêuticos se manifestam nas próprias traduções heideggerianas de textos gregos e latinos, como quando insiste que λόγος em Aristóteles não deve ser vertido como “razão”, mas como discurso ou conversação, e quando afirma que uma posição, traduzida de modo adequado a uma situação histórica mutável, torna-se algo diferente e, ainda assim, permanece a mesma, de modo que suas traduções inovadoras de Aristóteles e Platão constituem uma tentativa à maneira de Hermes de fazer os textos antigos falarem de novo na situação histórica de 1923.

8. A presente tradução de “Ontologia – A Hermenêutica da Facticidade”, empreendida no final dos anos 1990, procura igualmente ser “algo diferente e, contudo, o mesmo”, com notas explicativas fornecidas para esclarecer os pontos de vista linguísticos, textuais e filosóficos que orientaram as decisões sobre os termos e passagens mais problemáticos, de modo a satisfazer os dois critérios hermenêuticos de adequação ao original e à situação contemporânea de língua inglesa.

9. As notas do tradutor distinguem-se das notas de rodapé reproduzidas da edição alemã por numerais sobrescritos entre colchetes, reservando-se os colchetes para inserções próprias do tradutor e as chaves para citações atribuídas a Heidegger, embora possivelmente originárias da editora, enquanto a paginação da edição alemã aparece entre colchetes nos cabeçalhos correntes.

10. Nos casos em que Heidegger fornece sua própria tradução de passagens gregas e latinas, ou não oferece tradução alguma, traduções inglesas publicadas foram inseridas por conveniência, modificadas quando necessário para acomodar a interpretação heideggeriana, seguindo sua própria prática heurística de partir de traduções tradicionais e distorcivas como área de preparação para uma destruição (Destruktion) ou desmontagem dessas mesmas traduções, voltada a recuperar as experiências fundadoras dos textos estrangeiros por meio de traduções literais, neologismos e paráfrases; os dados bibliográficos incompletos da edição alemã não foram complementados, pois tais lacunas filológicas pertencem à forma literária autêntica das notas de curso.

11. A hermenêutica caracteriza-se por uma questionabilidade fundamental (Fraglichkeit), pois a possibilidade de errar pertence a seu próprio ser mais próprio e a evidência de suas explicitações permanece fundamentalmente instável, condição da qual a presente tradução não escapa e que é agravada por diversas dimensões particularmente difíceis do texto alemão.

12. A forma literária do texto, um conjunto incompleto de notas de curso ainda ásperas e não um livro acabado, inclui comentários marginais e inserções e suplementos no Apêndice, razão pela qual foi publicado não entre as obras que Heidegger publicou em vida, mas entre os cursos de licões da Edição Completa, posição diante da qual o próprio Heidegger nutria reservas, sendo as notas confiadas a editores para decifração e publicação somente após sua morte, por decisão de seu filho e executor literário, Hermann Heidegger.

13. A pontuação, ao longo do corpo do texto e sobretudo no Apêndice, segue um sistema cifrado e por vezes paratático de travessões, vírgulas, ponto e vírgulas, dois-pontos e sinais de igualdade, por vezes infringindo regras convencionais por meio de pontos finais ausentes, parênteses não fechados, pontos deslocados ou início de frases sem maiúscula, casos em sua maioria reproduzidos na tradução por pertencerem à forma autêntica das notas não polidas.

14. A estrutura das frases é frequentemente incompleta, elíptica e ambígua, consequência de Heidegger ter redigido apressadamente notas de curso, e não um manuscrito acabado.

15. As quebras de linha, os recuos, as listas numeradas e os grafismos seguem um sistema pouco convencional e por vezes de difícil decifração, particularmente nas notas mais ásperas do Apêndice, compostas por listas de termos e frases fragmentárias, incluindo uma enigmática linha desenhada à mão, presumivelmente indicando a inserção de texto.

16. A terminologia representa dificuldade considerável, contendo o texto mais de cinquenta neologismos — como Jeweiligkeit (“temporalidade peculiar do momento”), Je-Verweilen (“demorar-se em cada caso”), das Da (“o aí”), das Um (“o em-torno”) e das Man (“o impessoal”) —, além de expressões enigmáticas, definições inovadoras de termos correntes como Fraglichkeit (“questionabilidade”) e Destruktion (“destruição”), usos poéticos de palavras como Dasein e jeweilig, grandes famílias de termos derivadas de raízes como weilen e Sein, e marcadores de lista cifrados no Apêndice.

17. Tais dificuldades, partilhadas com outros cursos e ensaios do primeiro período de Friburgo, decorrem de uma busca tateante por um novo início na filosofia e de uma experimentação com um novo estilo de pensar e de linguagem, estilo que o próprio Heidegger reconheceu como estranho e que contribuiu para a recusa de uma cátedra em Göttingen e para a rejeição de um artigo para publicação, persistindo, como ele mesmo admitiu depois, até mesmo no manuscrito mais polido do curso de 1925 e em Ser e Tempo.

18. A editora da edição alemã explica ter sido parcimoniosa no polimento gramatical do texto, a fim de preservar algo do estilo de falar inconfundível de Heidegger ao converter as notas de curso em livro.

19. Seguindo o exemplo da editora de satisfazer os dois critérios hermenêuticos de adequação ao texto original e à situação histórica presente, a presente tradução buscou igualmente preservar o caráter não polido do original — sua pontuação, estrutura de frases, quebras de linha, recuos, listas numeradas, grafismos e terminologia — ao mesmo tempo em que o acomodou às convenções do inglês, com o propósito não de suavizar as notas de Heidegger para tornar sua leitura mais fácil, mas de deixar suas dimensões inquiridoras, não polidas e por vezes enigmáticas provocarem de novo os leitores no mundo de língua inglesa.

20. Reconhecimento é feito a Theodore Kisiel, Thomas Sheehan e Daniel Dahlstrom pela leitura do manuscrito da tradução, aos editores pelo trabalho cuidadoso durante as revisões de última hora, e à esposa do tradutor, Eileen, por ajudar a equilibrar a dimensão poética do texto de Heidegger com sua terrenalidade fática, oferecendo-se esta primeira tradução inglesa de um curso do primeiro período de Friburgo na esperança de demonstrar que tais cursos podem ser vertidos em forma legível e proveitosa.

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