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estudos:borges-duarte:dasein

Introdução GA5

Irene Borges-Duarte, Resumo de sua Introdução da tradução de GA5 que coordenou.

PRÓLOGO À EDIÇÃO PORTUGUESA

1. O Prólogo à edição portuguesa expõe os desafios filosófico, linguístico e cultural de traduzir Heidegger para o português, explicitando os critérios hermenêuticos e de tradução adoptados pela equipa de investigação “Heidegger em Português” para a edição coordenada das obras, começando com a tradução dos Holzwege como Caminhos de floresta.

2. A tradução de Heidegger responde a um desafio filosófico porque acede ao pensamento de um autor que marcou a Filosofia do século XX ao interpretar a própria tradição filosófica ocidental na sua estrutural historicidade, entrando em diálogo com as vozes que as suas palavras deixam falar numa linguagem híbrida onde a terminologia filosófica se transfigura em uso literário e se confronta com expressões idiomáticas correntes, convertendo a abordagem filosófica num constante desafio metalinguístico que o próprio autor tematizou filosoficamente; o desafio linguístico e cultural surge porque Portugal acedeu ao pensamento heideggeriano maioritariamente pela via cultural francófona, o que marcou profundamente a maneira de o traduzir e compreender, tratando-se de evitar os lugares-comuns que deslocam o sentido e encontrar de novo a palavra propícia capaz de dizer em português o que Heidegger disse no seu peculiaríssimo idiolecto, fazendo uso da máxima amplitude semântica de cada termo, expressão, raiz etimológica e remissão de sentido.

3. O critério de tradução seguido é, em primeiro lugar, filosófico, surgido de uma visão global da obra de Heidegger que recolhe os diferentes matizes e terminologia no contexto de uma trajectória pensante compreendida como um todo, dentro da qual cada obra e tematização encontram o seu lugar estrutural e a sua fenomenologia; aplicou-se um critério hermenêutico que, sem deixar de considerar os distintos períodos do pensar heideggeriano, estabelece para cada tradução uma relação de referência com o conjunto, procurando em cada texto o que dele se projecta e prolonga nos demais, para responder à necessidade de pensar o sentido de cada palavra dentro deste horizonte de conjunto.

4. Evitou-se, na medida do possível, a “invenção” de neologismos chocantes, introduzindo expressões compostas que não são habituais em português e que detêm a fluidez da leitura, mas esta metodologia empregou-se comedidamente e apenas quando a força do dito em cada termo se perderia numa sua tradução anódina; as opções de tradução dos tradutores de cada texto respeitam-se em última análise, e constam nas notas de pé de página e no glossário anexo, dando-se razão daquelas que, sendo especialmente vinculativas por derivarem do princípio estruturador, foram assumidas por todos os tradutores.

5. A escolha dos Holzwege como obra inicial não foi casual, nem o foi a sua tradução como Caminhos de floresta, pois esta colectânea de estudos manifesta nos seus diferentes textos a “história do ser” (Geschichte des Seins) e a estranha unidade da obra aparece cunhada no título; o termo Holzweg evoca a ideia de “meter-se por atalhos”, enganar-se, perder-se, e a tradução literal Caminhos de floresta procura acentuar o vínculo com o caminhar internando-se na floresta como metáfora do que os seis textos procuram dizer, embora se oculte o matiz de que auf dem Holzweg sein significa enganar-se, e a floresta não é um mero arvoredo plantado pelo homem, mas selva e mato, natureza em estado puro, selvagem, cujos caminhos estreitos e sinuosos levam quem os tenta atravessar a descobri-la como tal, embrenhando-se no seu interior sem saída, de modo que “perder-se” por esses caminhos é encontrar a floresta, encontrar-se nela.

6. A estrutura concertante da “coisa mesma” – imagem da própria errância heideggeriana e da importância relativa desta obra – esteve na base da decisão e da metodologia de tradução deste volume como primeiro de uma série, partindo-se da edição de referência, a Gesamtausgabe (volume 5 da I Secção), e reproduzindo-se as notas de pé de página com entrada de letra (anotações de Heidegger) diferenciadas das notas de tradução (N.T.), bem como a paginação da edição da obra como volume independente à margem, para facilitar o cotejo com o original, opção que não é válida para as anotações “de última mão” nem para o “Aditamento” ao texto sobre “A origem da obra de arte”.

7. As questões de tradução começam com o próprio título e incrementam-se no enfrentamento com as várias vozes dos textos – Hegel, Nietzsche, Hölderlin, Rilke, Anaximandro – de que Heidegger se apropria interpretativamente no seu confronto com a história da metafísica enquanto “primeiro início” da história do ser, e as duas noções básicas, pronunciadas mediante duas famílias de palavras, são as que derivam dos cernes wesen e bergen, constituindo o fio de uma narração que atravessa e une todos os textos, pois trata-se de uma “história” ou fenomenologia do ser no mundo humano: do ser no seu “estar-a-ser” ou “essenciar-se” (wesen), pelo qual o ser vem a estar-em-presença (anwesen) no não-estar-encoberto (Un-verborgenheit) da sua verdade.

8. A verdade alberga (birgt) dimensões encobertas (verborgen), nem presentes nem ausentes, tacitamente vigentes na clareira cujo brilho, ofuscando, só deixa perceber aspectos de uma verdade mais misteriosa e obscura, de um ser que se guarda e põe-a-coberto (bergen) ao aparecer dissimulado nas suas máscaras ou pareceres; o que, nesta história, se propicia e acontece (ereignet) é aquilo que Heidegger designou como uma dedicação (Zueignen) e apropriação (Aneignen) recíprocas: a do ser que usa (braucht) ou se serve do homem, apropriando-se dele para “aí” aparecer, e a do homem, que nesse serviço prestado ao ser exerce a sua essência própria como “aí-ser” (Dasein), sendo o “aí do ser”.

9. A esse singularíssimo “acontecimento de apropriação”, pelo qual se institui o Dasein como tal, chamou Heidegger, a partir de 1936, Ereignis, forçando um parentesco etimológico com eignen que os dicionários desmentem; estas quatro palavras-chave (Wesen, Unverborgenheit, Dasein, Ereignis) e respectivas famílias etimológicas constituíram os principais desafios terminológicos da presente edição, para os quais se procurou uma tradução coerente e consensual, capaz de ser mantida em todos os contextos.

10. O primeiro destes reptos foi o uso do termo Dasein por Heidegger, que é cada vez mais habitual contornar deixando-o por traduzir, com base em razões negativas (evitar conotações desviadas, principalmente a versão “ser-aí”) e positivas (a constatação do novum de sentido instituído, que não se reduz às acepções tradicionais, filosóficas ou comuns, e exclui a “existência” no sentido do “estar-aí-presente” das coisas, a que Heidegger chama Vorhandenheit); Heidegger procurou, embora tardiamente, evitar ser lido à maneira “existencialista” ligada a traduções de Dasein como “existência” (ou vida humana) ou como “ser-aí”, mas é importante a relação vinculante entre o “ser” e o seu “aí” compreensivo-sentinte-linguisticamente-articulado, âmbito da sua mostração fenomenológico-aletheiológica.

11. Decidiu-se adoptar uma tradução em que esse vínculo apareça explícito, como em alemão, evitando quer a versão mais habitual “ser-aí”, quer a que o próprio Heidegger sugere como “ser-o-aí” (être-le-là), na medida em que ambas reduzem e orientam, em direcções distintas, o sentido pleno e original do termo, em que essas conotações se conjugam como num nó ôntico-ontológico, juntamente com as de existência e vida ou ser do ente humano na sua facticidade; para traduzir esse todo de sentido, por analogia com a formação da própria palavra alemã, escolheu-se a fórmula aí-ser, aqui adoptada em todas as traduções, embora o próprio Heidegger introduza, às vezes, uma ênfase especial ao separar com hífen os dois elementos da palavra – em Da-sein, em das Da-sein – chamando a atenção para cada um dos elementos de sentido, acentuando singularmente um dos sentidos vigentes no termo (ser aí ou ser-o-aí), decisão que se deixou ao critério de cada tradutor; nos Caminhos de floresta é esta forma hifenizada a que aparece mais amiúde, e nas citações de outros autores houve de traduzir Dasein no seu sentido habitual de “existência”, “existir” ou mesmo “estar aí”, explicitando-se esse uso não heideggeriano no corpo do texto mediante a introdução do termo entre parênteses rectos.

12. No que respeita aos restantes termos-chave, estão ligados a todo um grupo semântico que se procurou respeitar analogamente na tradução: o núcleo de sentido de bergen verteu-se por “pôr a coberto”, que significa “pôr a salvo”, “dar cobertura”, abrigar, e portanto, indirecta e secundariamente, ocultar, esconder, enquanto a forma verbal derivada verbergen traduziu-se por “encobrir”, cujas conotações são notáveis sobretudo no uso do particípio, designando o que dissimula a sua presença mediante disfarce, o que, não estando ausente, guarda oculta, enevoada, a verdade do seu ser, salvaguardando a sua identidade; a verdade ontológica enquanto Unverborgenheit – termo com que Heidegger traduz a aletheia grega – designa o “não-estar-encoberto” do ser, o seu aparecer à luz enquanto “desencobrimento” (Entbergung) do que está-a-coberto no ente: o ser no seu estar-a-ser essenciante.

13. A segunda família etimológica, centrada em wesen, não se deixa traduzir por uma raiz única, pois Wesen constitui, na tradição metafísica, a versão germânica do latim essentia, sentido que perdura inevitavelmente em português como “essência”, mas Heidegger retoma um sentido verbal primitivo, já caído em desuso, de wesen – sinónimo de sein, “ser”, no sentido de sich aufhalten, geschehen, e até mesmo verweilen, estar, acontecer, demorar-se – para se libertar da interpretação tradicional da essência como quidditas; a dificuldade de tradução foi resolvida de duas maneiras: alguns tradutores optaram por designar como “essenciar-se” esse exercer-se essencial ou em essência do ser, sublinhando com o neologismo o vínculo etimológico marcante, enquanto outros preferiram, nos contextos em que o significado verbal é claramente predominante, acentuar o sentido de “estar a ser”, sendo ambas as versões aceites como válidas, além da tradução por “essência” em contextos incontornáveis; o uso heideggeriano do termo reúne sempre em si ambas as acepções: a “essência” é o que “está a ser” e “o que está a ser” é o ser na sua “essência”, no seu “essenciar-se”.

14. O substantivo Unwesen suscitou problemas de tradução porque o uso do prefixo un- não indica aí uma mera negação (a “não essência” ou o “não ser”), mas um estado ou acção negadora ou antagonista do estar a ser, um abuso da essência, daí a decisão de traduzir Unwesen, em geral, por “anti-essência”, com excepção do trecho sobre Hegel onde se verte como “in-essência”.

15. Um quarto complexo semântico tem no seu centro eigen e eignen, “próprio” e “ser próprio de / ter ou tomar em propriedade”, que se liga com o sentido do que em Ser e Tempo era Eigentlichkeit (ser em propriedade ou em sentido próprio), e que, a partir de 1936, Heidegger investe muito especialmente mediante a conexão com o termo Ereignis, o qual, apesar de diferente procedência etimológica (ereignen < eräugen, mostrar ou colocar à vista, mas também mostrar-se, dar-se a ver), vem a ser compreendido como uma das palavras reitoras do seu pensamento mediante um enriquecimento ou ampliação de sentido: à acepção vulgar de “acontecimento” junta-se a de “próprio” e “apropriado”, numa relação de “apropriação” originária, porque origem do próprio ser no seu mostrar-se; Ereignis é o repentino dar-se ou propiciar-se do próprio e da apropriação recíproca do ser e do seu aí, no instante propício e próprio, na ocasião apropriada e singular desse acontecer em que o aí-ser acontece como tal.

16. Traduziu-se Ereignis por “acontecimento de apropriação” e Er-eignis, pela relação etimológica do prefixo er- com ur-, por “acontecimento originário de apropriação”; o verbo ereignen verteu-se por “acontecer da apropriação” ou “apropriante”, segundo os contextos, mas também, esporadicamente, por “propiciar-se”.

17. O glossário anexo, elaborado por um demorado trabalho de equipa, regista os termos-chave heideggerianos e a sua presente versão portuguesa, quer na sua acepção capital, quer nas suas principais variantes contextuais, não pretendendo ser exaustivo nem normativo, mas apenas indicativo, tanto das dificuldades quanto das soluções encontradas para as superar; o glossário dá a medida da tentativa de diversos leitores-tradutores de se ajustarem ao idiolecto heideggeriano, procurando-se na língua portuguesa raízes e famílias etimológicas capazes de expressar a amplitude de matizes que o idioma original permite ou sugere, recorrendo-se, com parcimónia, a neologismos quando não se achava palavra adequada a um matiz contextualmente importante.

18. Renunciou-se à inclusão de um glossário português-alemão, pois a polissemia de muitos termos obrigaria a um excessivo alargamento do espaço paratextual que, por vontade do Autor, se consente aos responsáveis da edição, e renunciou-se também a que figurassem no glossário vocábulos com incidência limitada a um dos ensaios, considerando-se suficiente, nesses casos, a breve referência in situ aos respectivos nexos de sentido, quer intratextualmente mediante o recurso a parênteses rectos, quer em nota de rodapé; omitiram-se, finalmente, as acepções não heideggerianas da terminologia de que Heidegger se apropria, deixando, contudo, nos textos, marca dessa apropriação.

19. O Prólogo expressa a gratidão pelo acolhimento institucional e pessoal que tornou possível levar a cabo este projecto de investigação e tradução filosófica: ao Prof. J. Cerqueira Gonçalves, que o aceitou no Centro de Filosofia da Universidade de Lisboa e lhe deu o incentivo inicial, e ao Prof. M. J. do Carmo Ferreira, que continuou a prestar-lhe o apoio institucional, além de sugestões interpretativas e de tradução; à Prof.ª Luísa Portocarrero da Silva e ao Prof. João Paisana, pela cooperação como consultores; e à Doutora Helga Hoock Quadrado, cuja presença neste projecto e nas traduções foi intensa e preciosa; à Fundação para a Ciência e a Tecnologia, que ao apoiar este projecto com financiamento permitiu a realização com continuidade de algumas acções, extensivo esse agradecimento à bolseira Filipa Pedroso e ao bolseiro Pedro Sobral Pignatelli, cujo trabalho assegurou, entre outras coisas, a edição final do glossário.

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