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Tonalidades Emotivas

BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.

1. A tonalidade emotiva como substrato da vida psíquica

1. O colapso da confiança na razão como núcleo essencial do homem significou que o pensamento e as outras atividades superiores do espírito não podiam mais ser compreendidos como âmbitos autônomos, mas remetiam a um substrato mais profundo da vida, do qual nasceram e no qual permanecem enraizados, e a atenção dos filósofos orientou-se necessariamente para esses substratos até então negligenciados, a fim de esclarecer, a partir deles, a estrutura interna global da vida humana.

  • Na base de toda a vida psíquica, como seus graus inferiores, encontram-se os “sentimentos vitais” [ Lebensgefühle ] ou “tonalidades emotivas” [ Stimmungen ], que representam a forma mais simples e originária em que a vida humana se torna consciente de si mesma, já sempre com uma determinada coloração, apreciação e tomada de posição.
  • As tonalidades emotivas em sentido próprio distinguem-se dos sentimentos puramente corporais (como fome, sede, cansaço) por representarem um estado fundamental que atravessa uniformemente todo o homem, desde os estratos inferiores até os mais elevados, conferindo a todas as suas emoções uma certa coloração característica.
  • O linguagem corrente ilustra as tonalidades emotivas através da metáfora da altura e do peso, falando de estados em que a pessoa se sente “para cima” ou “para baixo”, “deprimida”, ou de sentimentos “superficiais” ou “profundos”, associando a ideia de um peso que, nas tonalidades aflitas, curva o homem para baixo, e do qual ele se sente liberto nas tonalidades felizes.
  • Linguisticamente, as tonalidades emotivas são indicadas por palavras compostas com “Sinn” e “Mut” (como “melancolia”, “alegria”, “leveza”, “tristeza”, “sombrio”, “indiferença”, “mau humor”), as quais designam modos do humano “encontrar-se em certo humor” [ Zu-Mute-sein ], e o “estado de espírito” [ Gemüt ] parece ser a sede própria da tonalidade emotiva.

2. A distinção entre tonalidades emotivas e sentimentos

2. A compreensão do sentido estrito da tonalidade emotiva como estado fundamental da existência humana se esclarece ao diferenciá-la dos sentimentos em sentido próprio, os quais sempre se referem “intencionalmente” (Brentano) a um objeto determinado, sendo “sentimentos objetivos” (Klages), “diretos” (Lersch), enquanto as tonalidades emotivas, ao contrário, não têm um objeto determinado, sendo modos de ser, colorações da existência humana em seu conjunto, nas quais o eu se torna imediatamente consciente de si de uma maneira particular, sem indicar nada externo a elas.

  • A exemplo, a pavor [ Furcht ] é um sentimento determinado, pois o homem tem sempre medo de algo de que se sente ameaçado, enquanto a angústia [ Angst ] distingue-se da pavor por ser absolutamente indeterminada quanto ao objeto, e a filosofia da existência (Kierkegaard, Jaspers, Heidegger) parte precisamente desse 'nada', dessa indeterminação, para a qual não há nada de determinado no mundo que cause angústia, mas é a estranheza da existência que se desvela nela.
  • A mesma diferença vale em geral entre sentimento e tonalidade emotiva: a alegria por uma visita distingue-se da tonalidade emotiva da alegria porque esta se apodera do homem como um estado que o perpassa uniformemente, sem se dirigir a algo determinado, dando a todas as suas atividades um estilo particular e uma coloração “rosada”, tendo a mesma indeterminação objetual da angústia.
  • Embora haja relações estreitas entre sentimento e tonalidade emotiva, marca-se a sua diferença fundamental devido à sua natureza diversa, na qual as duas modalidades não se justapõem como formas equivalentes, mas estão em uma relação de derivação bem determinada e exclusiva: somente as tonalidades emotivas pertencem ao substrato que suporta a vida, enquanto os sentimentos pertencem às atividades “superiores” que se desenvolvem e estruturam a partir das tonalidades emotivas.
  • Os sentimentos se desenvolvem sobre a base de um substrato geral da tonalidade emotiva que os precede e são condicionados por ela em seu caráter específico, de modo que os atos intencionais, com sua direcionalidade e entonação, jorram desse substrato, embora os vividos singulares, uma vez surgidos, também tenham um efeito retroativo sobre ele, depositando-se na forma de um estado emotivo não mais intencional.
  • Apesar da distinção fundamental, os passos de uma para a outra podem ser rápidos, e emoções como a aflição [ Gram ], o desgosto [ Kummer ], a felicidade [ Glück ] e a contenteza [ Zufriedenheit ], embora não sejam objetivamente indeterminadas, são consideradas tonalidades emotivas porque se tornam uma coloração geral que atravessa todo o ânimo, e o objeto não é um motivo intencional, mas uma causa que pode ser consciente sem estar no centro da atenção.
  • O homem também pode sentir angústia diante de algo determinado, como um aranha, o que não contradiz a distinção, pois o objeto particular não é o verdadeiro motivo, mas apenas a ocasião da angústia, sendo um sentido muito mais profundo de desnorteamento que se condensa ao redor de um núcleo acidental.

3. A unidade envolvente de vida e mundo

3. Ao caráter geral e fundamental corresponde o sentido corrente do termo tonalidade emotiva, que originariamente, na linguagem musical, se refere à relação entre vários sons, significando o “estar em um tom” ou o “ser afinado” [ In-Stimmung-sein ] de um instrumento ou voz, e o homem, como portador da tonalidade emotiva, é o “instrumento afinado” que “soa” num certo tom, ressoando com o mundo.

  • Contudo, essa é mais do que uma imagem poética, pois a tonalidade emotiva exprime a unidade originária entre o homem e o mundo, na qual ambos são envolvidos e perpassados por uma certa tonalidade comum, estando o homem e o mundo numa ressonância [ Übereinstimmung ] que é a base para que a tonalidade se estenda, em sentido próprio, também ao mundo exterior.
  • Nesse sentido, a tonalidade emotiva não deve ser compreendida como um estado interior que depois “tinge” o mundo, mas, ao contrário, homem e mundo são abarcados por uma tonalidade comum, de modo que não se trata de uma transposição metafórica atribuir a uma paisagem ou a uma habitação uma determinada tonalidade emotiva, pois o homem está imerso na totalidade da paisagem, a qual, por sua vez, está de modo particular referida ao homem.
  • A relação entre as tonalidades emotivas da alma e as condições atmosféricas é particularmente significativa para essa unidade originária, e não por acaso se buscam definições meteorológicas para descrever os estados de espírito (como “serena”, “solar”, “tétra”, “nublada”), assim como a alegria aparece clara e a dor escura.
  • Heidegger insistiu muito sobre essa unidade de tonalidade entre o mundo interior e o exterior, afirmando que o estar numa tonalidade emotiva não comporta uma referência primária à psique, mas surge no ser-no-mundo mesmo como uma sua modalidade, e o alto significado filosófico da tonalidade emotiva está justamente no fato de que ela provém de um nível de unidade originária entre sujeito e objeto, para além da separação considerada óbvia pela consciência teórica.
  • Strasser também ressaltou que nas verdadeiras tonalidades emotivas não aparecem nem o eu, nem o objeto, nem qualquer fronteira entre eles, mas eu e mundo são incorporados numa experiência total e indivisa, e Binswanger, do ponto de vista médico, chamou essa modalidade do mundo circundante, que não está diante do homem como objeto, de “espaço afetivo” [gestimmter Raum], perpassado a cada instante por uma coloração emotiva particular.
  • Binswanger ilustra essa unidade com os versos de Goethe, mostrando que não há uma relação causal entre o fremito do coração e o estreitamento do mundo e do céu, mas que o que se chama sufocamento do coração consiste precisamente num estreitamento do mundo e do céu no sufocamento do nosso coração, sendo que as relações ônticas e genéticas só são possíveis com base nas relações fenomenológicas essenciais do espaço afetivo.

4. A unidade originária de alma e corpo

4. Igualmente essencial para a tonalidade emotiva é também a unidade entre alma [Seele] e corpo [Leib], pois a importância do estado corporal para a tonalidade emotiva é extraordinária, de modo que os distúrbios do bem-estar físico e sua eliminação influem imediatamente também na tonalidade emotiva psicológica, embora esta não possa ser simplesmente reduzida àquela, influindo, por sua vez, sobre o estado do corpo.

  • A psicologia romântica, como a de Carus, chamou a atenção para essa interdependência recíproca, na qual as excitações corporais dispõem a consciência à alegria e são também estimuladas por ideias alegres, considerando essas excitações como a alegria inconsciente do organismo.
  • Carus, em seu livro “Psyche”, tentou explicar de maneira aprofundada o surgimento das tonalidades emotivas no homem como uma primeira tomada de consciência do que até então era inconsciente, definindo o “sentimento” (no sentido da tonalidade emotiva) como a repercussão, a maravilhosa comunicação do inconsciente e da consciência.
  • Baader também constatou a influência das condições atmosféricas sobre as tonalidades emotivas, afirmando que a atmosfera tem uma poderosa influência sobre nossos atos espirituais, e que tudo em nós depende tanto do exterior, ou melhor, tudo o que é externo e tudo o que é interno estão ligados, são uma única coisa, sendo através do tempo atmosférico que o homem vive em unidade imediata com a vida da natureza que o cerca.

5. As tonalidades emotivas alegres

5. Um sistema das tonalidades emotivas que ordene sua variedade crescente é impossível, pois cada uma, a uma análise suficientemente acurada, conduz diretamente à natureza do ser humano de um modo novo e sempre ainda por construir, não se adaptando a um esquema lógico de “gênero” e “espécie”, e uma certa subdivisão, com caráter meramente orientativo e provisório, pode ser feita distinguindo-se inicialmente os dois grandes agrupamentos das tonalidades emotivas alegres (elevadas) e das tonalidades emotivas tristes (depressivas), entre as quais oscila a tonalidade emotiva do homem.

  • No lado das tonalidades emotivas elevadas, encontram-se, primeiramente, as formas mais exteriores da tolice [ Albernheit ] e da exuberância [ Ausgelassenheit ], que apagam o homem apenas superficialmente, deixando um retrogosto insípido, sendo percebidas como falta de “seriedade” e predominando na juventude, enquanto entre os adultos aparecem como formas forçadas e constrangedoras que frequentemente encobrem uma angústia secreta.
  • Pertencem também ao grupo do deleite, da alegria e da serenidade, que podem colher o homem por um instante ou fazer parte de sua disposição natural permanente, sendo-lhe doadas como um presente da existência natural, como sinais de seu bem-estar vital, e cuja expressão é o riso espontâneo, com suas formas variadas e múltiplas.
  • Além disso, há diversas formas da felicidade [Glück], que se distingue da alegria e do deleite por não se difundir a partir da realidade meramente vital, mas por escorrer do confronto com as circunstâncias da vida, sendo essencialmente percebida e dependente da satisfação das circunstâncias exteriores.
  • Na felicidade, distinguem-se formas de profundidade muito diversa: a pequena felicidade que se contenta com pouco, a felicidade do prazer satisfeito, a felicidade calma e tranquila de uma existência plena, a grande felicidade mais violenta que vem da tensão e do risco, a felicidade “frágil como vidro” da existência estética, e, no topo, a beatitude [ Seligkeit ], uma forma de satisfação que atinge o homem em suas mais extremas profundezas e que nenhum destino externo pode mais abalar.

6. As tonalidades emotivas tristes

6. À série das tonalidades emotivas elevadas corresponde uma série de tonalidades emotivas depressivas, que inclui, no âmbito vital, o desânimo [ Niedergeschlagenheit ], o desalento [ Mutlosigkeit ] e o abatimento [ Verzagtheit ], que consistem geralmente num enfraquecimento do sentimento vital, assim como a tristeza [Traurigkeit], que pode se estender sobre o homem como um sopro leve, muitas vezes sem que ele saiba dar conta dos motivos.

  • A tristeza, como tonalidade enraizada na esfera vital, é uma modalidade de vida predominantemente juvenil, enquanto na idade adulta ela se tinge cada vez mais pelo resultado de um acomodamento espiritual à vida, dando origem às formas da resignação [ Resignation ] e da submissão [ Ergebenheit ] ao destino, e também a tonalidade emotiva do mau humor [ Verdrossenheit ] ranzinza e os estados de irritabilidade [ Verärgerung ] e nervosismo [ Gereiztheit ], nos quais se acumula uma tensão hostil em direção ao mundo exterior.
  • Em correspondência com as formas da felicidade, contam-se entre as tonalidades depressas as formas da infelicidade [ Unglück ], como o estado interior da pessoa infeliz para quem tudo está escurecido, e que, como a felicidade, pode ter um grau de profundidade muito diverso, desde o descontentamento mesquinho até a dor profunda [ Leid ] que enobrece, o luto [ Trauer ] contido e muitas vezes orgulhoso, a aflição [ Gram ] que corrói a alma, e uma dor [ Schmerz ] infinita que eleva o homem e traz o caráter imponente de um grande destino.
  • A seriedade [ Ernst ] pode ser classificada entre as tonalidades depressas, pois se contrapõe ao gracejo [ Scherz ] e à jovialidade, compartilhando com a tristeza a escuridão e a pesadez, mas ela não é toda expressão de tristeza, pois também é expressão de uma consciência da responsabilidade, e seu antagonista é o ridículo [das Lächerliche ], que pode destruir o pathos da seriedade, evidenciando que a seriedade não é uma simples tonalidade emotiva, mas também uma atitude pela qual o homem dá à sua existência uma forma querida.

7. Angústia e desespero

7. Ao lado dessas formas de tristeza, em sentido amplo, encontram-se outras tonalidades emotivas como o tédio [ Langeweile ], que invade o homem como uma indiferença dolorosa e paralisa todo interesse, e, mais profundamente, a angústia [ Angst ] e o desespero [ Verzweiflung ], que arrancam o homem da segurança habitual de suas condições de vida, de tal maneira que todas as considerações racionais são postas em xeque.

  • Essas tonalidades são, por um lado, próximas às tonalidades depressivas, sendo formas acentuadas de depressão, mas, por outro, distinguem-se delas de modo tão nítido que uma abordagem comum deformaria o essencial, pois, enquanto alegria e tristeza representam os dois polos da oscilação regular da vida, a angústia e o desespero se situam fora de tal polaridade, não tendo um contrário, e se assinalam como perturbações do estado de equilíbrio que, de outro modo, constitui a natureza íntima da tonalidade emotiva.
  • Nessas tonalidades, a oscilação regular da tonalidade emotiva é perturbada, como se a própria tonalidade em geral estivesse quebrada, e embora se possa pensar em subtraí-las ao círculo das outras tonalidades como “distonias emotivas” [ Verstimmungen ], isso é evitado, pois a distonia interrompe uma determinada tonalidade latente, enquanto na angústia e no desespero o sentimento vital está completamente desorganizado.
  • Elas se distinguem ainda das outras tonalidades depressivas pela sua duração relativamente breve, juntamente com a sua intensidade exacerbada, mas, apesar da sua mais breve duração, constituem o substrato formativo exatamente da mesma maneira, sendo mais conveniente, portanto, ater-se à terminologia de Heidegger e contá-las entre as tonalidades emotivas propriamente ditas.
  • Entre os dois grupos, existe ainda uma condição “intermediária” da tonalidade emotiva, em que as alterações de ambos os lados se acalmaram, como a calma equilibrada, a segurança na situação de vida atual, ou a imperturbabilidade que deixa as coisas seguirem seu curso.

8. Recolhimento, solenidade e festividade

8. Além desses grandes grupos, há um grande número de tonalidades emotivas que não se deixam catalogar facilmente num esquema geral de oscilações, mas estão individualmente de modo muito mais determinado pelo conteúdo, como a tonalidade emotiva do recolhimento [ Andacht ], que não é uma simples tonalidade emotiva elevada, mas uma disposição toda particular, um estar-em-acordo [ Gestimmtsein ] com a aceitação de verdades religiosas ou geralmente sentidas como “superiores”, sendo o acordo com um conteúdo particular decisivo para distingui-la das outras formas, e o exemplo musical com a afinação de um instrumento é aqui particularmente pertinente.

  • O recolhimento é uma tonalidade emotiva em sentido próprio, influindo no homem inteiro, até mesmo em sua postura e gestos, com os olhos voltados para o interior, como se o ruído do mundo lhe chegasse apenas de longe, não conseguindo mais distraí-lo, e ele é então receptividade [ Aufgeschlossenheit ] para esses conteúdos particulares e, consequentemente, não-receptividade [ Abgeschlossenheit ] em relação à vida ordinária, o que confere sua sacralidade particular.
  • A solenidade [ Feierlichkeit ] e a festividade [ Festlichkeit ] também são formas do sentimento vital elevado, mas se distinguem por serem formas que não nascem imediatamente do substrato natural da vida, mas escorrem de um comportamento humano particular, pelo qual são dominadas e moldadas todas as expressões da vida, constituindo a solenidade uma forma particular de elevação que extrai sua consagração da consciência do significado especial do evento.
  • O solene se expressa na lentidão e na compostura de todos os movimentos, proibindo tudo o que é apressado e transformando o simples caminhar num andar medido, sendo distinguido pelo cuidado marcado da forma exterior, de “representação”, que se adequa à sua dignidade, e corre constantemente o risco de escorregar do sublime ao ridículo.
  • A festividade, por sua vez, é uma modalidade exaltada da solenidade, na qual a gravidade plena de significado se dissolve em certa luminosidade e alegria, e é típico dela e da solenidade estarem situadas em um contexto mais amplo, sendo possíveis apenas sobre a base da comunidade, que nelas experimenta os pontos culminantes de sua vida, enquanto a solenidade pode ser construída conscientemente, mas a tonalidade da festa se produz apenas com o favor do momento, podendo apenas ser preparada, jamais “organizada”.
  • A variedade das tonalidades emotivas brevemente esboçada não pode ser desenvolvida no presente trabalho, que, como introdução metodológica a uma filosofia completa das tonalidades emotivas, estudará a sua influência sobre toda a vida psíquica do homem em dois grupos opostos, tomados isoladamente para simplificar, a fim de avaliar melhor sua influência a partir da distância entre esses dois casos-limite, limitando-se ao esquema simplificado da contraposição entre tonalidades emotivas elevadas e depressivas, sem aprofundar suas mais finas distinções.
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