Atitude
BOLLNOW, Otto Friedrich. Le tonalità emotive. Tradução: Daniele Bruzzone. Milano: Vita e Pensiero, 2009.
1. Manifestações pervasivas da tonalidade emotiva
1. Os dúvidas levantados contra a alta consideração filosófica das tonalidades emotivas parecem encontrar apoio em outro aspecto, pois, embora as tonalidades tenham sido consideradas o fundamento sempre presente de toda a vida psíquica, existem fenômenos particulares nos quais elas assumem um caráter inquietante, ameaçando subjugar e arrastar o homem, impondo-se como uma potência angustiante e por vezes sedutora que limita a livre autodeterminação, contra a qual ele deve se precaver.
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No linguagem corrente, fala-se de tonalidade emotiva em casos onde uma exaltação extraordinária do sentimento vital se aproxima da embriaguez, como na tonalidade vespertina ou matutina, preferindo um certo estado crepuscular onde os contornos se desvanecem e as coisas se dissolvem numa impressão de conjunto indeterminada, ocultando a dureza da realidade e supondo uma condição em que toda vontade determinada se relaxa.
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Feste e solenidades são impregnadas por uma tonalidade emotiva própria, em contraste com o cinza da cotidianidade, e o homem percebe como “cheio de tonalidade emotiva” o momento em que é atravessado por sentimentos indeterminados mas elevados, onde a separação entre Eu e mundo retrocede, e ele se abandona a essa sensação passiva, agindo a tonalidade, em suas formas mais pronunciadas, como um veneno sutil que penetra e paralisa, como nos casos de “tonalidade avançada”, onde a liberação de uma festa quebra o habitual freio.
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Fala-se de “propaganda psicológica” [Stimmungsmache] quando se quer dispor as pessoas a apoiar um projeto apelando aos sentimentos sem propriamente convencê-las, pois a tonalidade tende a embotar o sentido crítico, levando-as a se deixar arrastar pela irresponsabilidade da massa.
2. O conceito de tonalidade emotiva segundo Lipps
2. Sob esse aspecto, especialmente Lipps, em sua obra “Die menschliche Natur”, identificou a essência das tonalidades emotivas como uma potência que se apodera do homem de fora e ameaça sufocar seu ser próprio, levando-o a se retirar das certezas da realidade para se entregar ao indizível da tonalidade, e a embriaguez é vista não em suas possibilidades positivas, mas como potência destruidora que o rejeita a um nível mais primitivo, no “Indiferenciado”, colocando a tonalidade no limite dos fenômenos patológicos.
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Os fenômenos observados por Lipps não contradizem a avaliação positiva das tonalidades, pois ambas as posições partem de conceitos absolutamente diferentes: Lipps entende por tonalidades os fenômenos onde seu caráter particular predomina, enquanto a abordagem aqui adotada entende por tonalidade o fundo frequentemente inobservado de toda a vida psíquica, um estrato fundamental sempre presente e essencialmente pertencente à alma.
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Embora a linguagem corrente fale de tonalidades principalmente quando elas se impõem de modo particular, não se pode esquecer a importância decisiva do outro fenômeno, o da tonalidade como fundo sempre presente, que, mesmo permanecendo inobservado porque o homem saudável não presta atenção aos seus estados afetivos, está sempre lá, e a diferente avaliação repousa sobre manifestações da realidade muito diversas, mas que estão diretamente ligadas, mostrando uma forma degenerada do que, em sentido mais amplo, se chamou de tonalidade.
3. A degeneração da tonalidade emotiva
3. A dupla acepção do conceito não se aplica da mesma maneira a todas as tonalidades, pois apenas algumas podem degenerar numa potência destrutiva, e estas são designadas no linguagem corrente como Stimmungen, comportando não só um certo grau de força invasiva, mas também um especial caráter de doçura que as torna prazerosas e incita a buscá-las, como a doce tristeza ou a leve nostalgia.
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O fato de as tonalidades se manifestarem com mais força em certos momentos não é, por si só, inquietante, pois na vida humana as situações em que o estado emotivo permanece inobservado se alternam com outras em que ele vem ao primeiro plano, ligado ao ritmo de tensão e distensão, onde na tensão o homem se exterioriza e se concentra no que faz, e na distensão ele se recolhe e se torna mais sensível à influência das tonalidades.
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No entanto, no eventualidade de períodos mais permeáveis às tonalidades, esconde-se o perigo de uma subversão nefasta quando elas são procuradas e cultivadas por causa de sua agradabilidade, pois com esse deslocamento da atenção para a própria afetividade, toda a vida psíquica é devastada, sendo esta a raiz da subversão que, no âmbito artístico, é designada como Kitsch, representando uma das piores formas aberrantes da vida humana.
4. O Kitsch
4. O fenômeno do Kitsch, extraordinariamente instrutivo do ponto de vista antropológico, pode ser tratado aqui na medida em que contribui para esclarecer a degeneração das tonalidades, e a distinção entre Kitsch e a verdadeira arte não é um problema puramente estético, mas geral da antropologia filosófica, que não se resolve com base nas características da obra, mas apenas considerando a mentalidade do homem que a deseja.
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Enquanto a “paccottiglia” [Schund] se coloca no plano da vida exterior, com uma ação externa animada para fazer esquecer o vazio interior, o Kitsch repete isso no mundo interior dos sentimentos, sendo um substituto que satisfaz de modo ilusório a tendência a viver experiências sem sair de seu cercadinho, gozando de um grande e nobre sentimento sem o esforço que o faria nascer.
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O Kitsch é definido por sua falta de substância, por ser piegas e interiormente vazio, com pretensões mais altas do que pode manter, e sua lei intrínseca reside na previsibilidade que se harmoniza com a paccottiglia, mas com pretensões ideais mais altas, numa forma externa simples que não apresenta dificuldade, com uma nudez desavergonhada das emoções e uma “idealidade” que corresponde às expectativas médias, não exigindo esforço e permitindo embriagar-se sem limites.
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O prazer do Kitsch distingue-se da hipersensibilidade e do sentimentalismo por uma exaltação excessiva do sentimento ligada a um certo prazer funcional do sentimento persistente, mas, enquanto o sentimento sentimental permanece autêntico e dirigido à coisa, ele se torna fatal quando a experiência da doçura do sentimento leva o homem a se distrair do objeto imediato e a se concentrar totalmente em seu próprio estado afetivo interior, perdendo o contato real com o mundo e a autenticidade de sua vida.
5. A noção de atitude
5. Se as tonalidades emotivas se impõem em diferentes medidas e escondem o perigo de fazer afundar o comportamento autônomo num estado de autocomplacência passiva, pergunta-se se o homem pode opor resistência a essas aberrações e preservar os efeitos positivos da tonalidade, e encontra-se tal esforço de reação no que é definido como “atitude” [ Haltung ], com a qual o homem se dá uma forma pessoal desde dentro, opondo-se à tonalidade em que ele é jogado, radicando-se a tonalidade no plano da existência natural indivisa e a atitude no da liberdade, onde o homem assume responsavelmente sua existência.
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Entende-se por atitude, primeiramente, o “portamento” físico, que indica o modo como o homem tem controle do corpo e domina seu comportamento desde dentro, em oposição ao estado de relaxamento e de “deixar-se ir”, mas o termo também é empregado para a atitude espiritual e de caráter, onde “contegno” indica firmeza interior, a maneira como uma pessoa se relaciona com seu próprio ser, sua fidelidade a si mesma, e, num sentido mais amplo, fala-se da atitude de uma pessoa diante do mundo, designando sua tomada de posição constante, que equivale aproximadamente à concepção do mundo [Weltanschauung], mas que, do ponto de vista da atitude, destaca mais claramente o papel ativo e a avaliação explícita.
6. A cooperação entre tonalidade emotiva e atitude
6. Cada atitude, como modo de ser total e dominante, dirige o comportamento individual, fixando desde o início o espaço em que pode ocorrer o encontro com os outros, e determinando cada experiência desde o início, de modo que a atitude desempenha o mesmo papel que, antes, foi indicado para as tonalidades emotivas, pois ambas regulam preventivamente qualquer experiência vivida.
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A tonalidade emotiva, especialmente em sentido lato como tonalidade fundamental da vida, mostra a mesma parentela com a Weltanschauung que a atitude fundamental, e ambas compreendem implicitamente uma certa visão do mundo, sendo que a distinção reside no fato de a tonalidade remontar à unidade ainda indivisa entre homem e mundo, enquanto a atitude remete à relação do homem consigo mesmo e, portanto, à sua liberdade de confrontar seu próprio estado natural.
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A oposição entre a esfera da “vida” [ Leben ] e da “existência” [ Existenz ] reflete-se na relação entre tonalidade e atitude, que não estão justapostas sem conexão, mas jogam juntas um papel bem preciso, sendo que a condição fundamental que se oferece naturalmente na tonalidade é, na atitude, formada pelo livre comportamento em relação a si mesmo, e a atitude, como um “interruptor” dos estados afetivos, pode facilitar ou impedir o nascimento dos estados afetivos, sendo o meio pelo qual o homem retoma o domínio de si.
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Com a atitude, o homem modela, desde seu interior, o fundamento vital dado pela tonalidade, e ambos, tonalidade e atitude, determinam juntos a constituição global do homem que está na base de toda atividade psíquica particular, sendo a tonalidade o fundamento natural e a atitude a ação formativa a partir da liberdade, num equilíbrio que muda nos diferentes momentos, onde as formas que degeneram em sentimentalismo são interpretadas como uma prevaricação da tonalidade sobre a atitude.
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A tonalidade permite o pleno contato com o mundo e condiciona a disponibilidade da alma para se abrir aos influxos mutáveis, mas comporta o perigo de se render ao mundo sem freio, enquanto a atitude confere ao Eu sua estabilidade, mas supõe uma matéria a ser formada, e o papel da atitude já estava implicitamente pressuposto quando a tonalidade oscilante deveria se consolidar numa visão de mundo explícita, pois essa solidez não se adquire naturalmente com o tempo, mas apenas na livre tomada de posição, em que o homem se reconhece nos resultados da interpretação do mundo e da vida que as tonalidades lhe oferecem.
