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Tonalidades e conhecimento

CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 25-33.

25. O caráter revelador e ontológico das tonalidades afectivas felizes constitui o tema central da exposição, sendo elas as únicas capazes de desvelar aspectos constitutivos da realidade, cada tonalidade comportando sua própria forma específica de possibilidade de conhecer.

26. Critica-se a unilateralidade da perspectiva heideggeriana segundo a qual o conhecer é modo deficiente do ser-no-mundo, este último caracterizado pela preocupação prática com o “Zuhandene” (o à-mão), sendo o termo do conhecer teórico, o “Vorhandene” (o simplesmente dado), um resíduo derivado dessa dimensão prática; a esta concepção Bollnow opõe a possibilidade de uma outra atitude, libertada em sentido criador da redução à pura utilidade, capaz de ver as coisas integralmente em si mesmas.

27. A redução do ser conhecido à forma do conhecimento humano resulta de uma acentuação da distância entre sujeito e objecto, tornando impossível o ancoramento numa realidade que se estenda para além do aspecto meramente objetivo proposto ao olhar do sujeito.

28. Somente as tonalidades felizes, ao desvelar o aspecto socorredor da realidade, elevam o homem acima da estreiteza de sua vida centrada em si mesma e, ao dilatar o seu ser, fundam um conhecimento que não é modo derivado e extenuado da preocupação prática, possuindo antes valor positivo próprio.

29. Considerar o conhecimento como modo derivado e não originário da existência equivale a supor que ela não constitui uma relação verdadeira ao outro: reduzida à sua forma teórica, torna-se objetivação radical do real, apresentando-se então como abertura fictícia da existência, na medida em que a fechadura desta sobre o círculo do homem entrava a possibilidade mesma de conhecimento.

30. A autenticidade da existência em seus modos existenciários pressupõe, contudo, que a existência é experiência — segundo a expressão de “Vom Wesen des Grundes”, o homem está acordado ao “tom do existente” —, ainda que o projeto pelo qual o homem funda o horizonte do mundo permaneça, por seu carácter de esboço, indeterminado quanto ao conteúdo efectivo da existência.

31. A crítica desta desvalorização do conhecimento implica a crítica do “formalismo” heideggeriano, citando Bollnow que, se se estuda uma única tonalidade afectiva bem escolhida — a angústia, tomada por Heidegger como exemplo —, determina-se por aí mesmo a estrutura geral e essencial de toda tonalidade afectiva, tornando-se supérfluo estudar outras, pressuposto que assenta em estruturas formais fixas e invariáveis, independentes de toda diferença de conteúdo objetivo.

32. Esta metodologia redutora desconhece a diversidade das tonalidades afectivas, acrescentando-se que a ignorância da originalidade das tonalidades felizes torna cega a relação ao real e leva também a desconhecer a essência completa da tonalidade afectiva no seu carácter propriamente afectivo.

33. A relação ao real é de ordem pré-teórica, tendo por conteúdo o próprio real: a prova de tal conteúdo, em seu carácter envolvente e antecedente, faz obrigatoriamente desta experiência uma forma de “conhecimento”.

34. Interroga-se sobre uma forma de conhecimento não teórica, capaz de ser, segundo o próprio Heidegger, um modo da existência, o que dá sentido pleno à afirmação de Bollnow segundo a qual a tonalidade afectiva feliz, ou ao menos apaziguada, é a única via que permite desvelar a plenitude interior e a natureza autónoma das coisas e do homem, não bastando para tal uma atitude teórica determinada de modo puramente negativo pela ausência de preocupação.

35. A formalização heideggeriana da experiência apoia-se numa generalização que extrai de um único exemplo — a angústia — a estrutura geral das tonalidades afectivas, sem atender ao seu conteúdo específico.

36. Todo o edifício filosófico de Heidegger repousa, segundo a citação de Bollnow, sobre a estreita base de uma única tonalidade afectiva, a angústia, sendo os demais fenómenos afectivos vistos como suas reduções truncadas — as tonalidades felizes aliviando o fardo da existência mas, nisso mesmo, ainda o revelando, negando-se assim o seu carácter específico.

37. Bollnow reconhece à descrição heideggeriana da angústia o mérito de ter introduzido a Stimmung na sua função reveladora, apesar do carácter abstracto da análise: a angústia não é doença nem crise passageira externa, mas concerne ao ser do homem, ao próprio núcleo do seu ser-no-mundo, revelando a ausência de intencionalidade que caracteriza mais marcadamente as tonalidades afectivas, na medida em que faz experimentar essa indeterminação como nada (Nichts).

38. Coloca-se a questão de saber em que sentido o nada é constitutivo da experiência do ser-no-mundo, Bollnow revelando o elo implícito mais essencial: o nada liga-se ao sentimento de estranheza resultante da perda do apoio, destruindo as amarras do homem e fazendo o mundo perder a sua familiaridade num “abandono opressivo e inquietante”, em que todo existente resvala e deixa de fornecer apoio.

39. Heidegger sugere que a experiência do nada é a condição do desvelamento do ser próprio do existente, devendo prosseguir-se por essa via sob pena de mal se compreender como a angústia surge diante do ser-no-mundo.

40. O aspecto positivo da angústia consiste em alcançar a verdadeira acuidade da existência, arrancando o homem à inautenticidade ao colocá-lo diante do seu poder-ser mais próprio; contudo, o próprio Heidegger não constitui a partir da angústia uma verdadeira ontologia do existente, contentando-se em nela ver a condição de certa revelação do ser, essencialmente ligada ao ser do homem — a ontologia refluindo, assim, na antropologia.

41. Ao rejeitar o homem sobre si mesmo, a angústia dificulta a abertura e o acolhimento de uma alteridade independente, constituindo-se inteiramente em exterioridade produzida pelo abandono diante de um mundo tornado estranho; para Heidegger, a angústia é constituída pela transcendência, e por analogia as tonalidades afectivas em geral são concebidas como modos do ser-no-mundo, tendendo a experiência a dissolver-se na abstração de sua estrutura e a relação da angústia com o ser-no-mundo a deslizar de uma posição ontológica para uma posição antropológica em que se perde a plena dimensão da experiência.

42. A partir do momento em que se deixa de atender ao conteúdo afectivo das diferentes experiências, todas elas podem ser postas no mesmo plano e receber uma definição comum, identificando-se a afetação com a finitude da situação em geral; Bollnow insiste no carácter redutor deste “forcing” metodológico, visando restituir os direitos de uma antropologia “da diversidade”.

43. O privilégio heideggeriano da angústia não é apenas desconhecimento de tonalidades afectivas relativas a outro aspecto do real, mas também ignorância de tonalidades ligadas mais estreitamente ao próprio facto da realidade, sendo o verdadeiro sentido da introdução das tonalidades felizes na filosofia justificar a consideração da realidade como tema digno de pensamento.

44. Isto torna-se mais claro no estudo dos casos-limite das tonalidades felizes, polo oposto da angústia: assim como esta constitui o modelo típico das tonalidades deprimidas, a felicidade tem o seu arquétipo na embriaguez, citando Bollnow a passagem de Lersch segundo a qual o êxtase é, do ponto de vista antropológico, a experiência mais originária da vitalidade e, por isso, o polo mais extremo oposto à angústia.

45. A veemência do êxtase apaga as nuances da experiência e realça os seus traços essenciais, distinguindo-se a embriaguez pela maior profundidade vital do ser participado, profundidade que se reencontra nas suas formas múltiplas (religiosas, heroicas, eróticas), sendo o êxtase, contudo, estado excepcional e passageiro.

46. Interroga-se a natureza dessa deportação em que o homem é “arrebatado para fora de si mesmo”: trata-se de saber se o “si” de que o homem é descentrado é o sujeito do conhecimento e se o exterior em que é assim projetado é apenas um exterior relativo, isto é, uma exterioridade meramente objetiva.

47. A descrição do êxtase revela a modificação do sentido da realidade, que deixa de dar-se como obstáculo e limite sem por isso desaparecer — o que se perde de vista é apenas o carácter de resistência, cuja atenuação acarreta o desaparecimento da posição frontal do sujeito e da própria tensão do conhecimento, tudo isto ligado ao facto de a realidade se revelar como portadora.

48. Este carácter fundamental da tonalidade feliz detalha-se em traços particulares esclarecidos pela obra de Nietzsche, remetendo Bollnow para passagens de “A Origem da Tragédia” e de “A Vontade de Potência”: na primeira, a embriaguez dionisíaca é o arrancamento do homem ao seu isolamento individual e a sua pertença à comunidade, fundada numa familiaridade nova com a natureza, numa fusão no Ser-Uno primordial, e caracterizada por um libertar-se das barreiras da individuação, com carácter revelador e não meramente perturbador.

49. N'“A Vontade de Potência”, obra tardia em que Nietzsche revela suas qualidades de analista, caracterizam-se com mais nitidez os elementos do êxtase: estados corporais de aumento de consciência, de força e de soberania muscular traduzem-se psiquicamente por disponibilidade à aventura e ao perigo, indiferença à vida e à morte, ligando-se a função reveladora do êxtase ao facto de despertar, transformar e afinar a sensorialidade, exaltando a receptividade e produzindo um alargamento simultâneo do espaço percebido e da aproximação do longínquo.

50. Modificações análogas afetam a experiência do tempo, que se suspende, deixando de sentir-se o passado como fardo e o futuro como ameaça, num presente indefinido.

51. A embriaguez apresenta-se, segundo Nietzsche, como estado visionário, não no sentido de predição de um evento futuro particular, mas como faculdade de penetrar a essência geral das coisas na atualidade, decifrando o secreto por trás do visível; citando Bollnow, Nietzsche fala de uma “intelligente Sinnlichkeit” para exprimir que, nesta forma intuitiva do entendimento, os actos de “compreender” já estão originária e indissociavelmente contidos na apreensão sensível.

52. A citação das “Considerações Extemporâneas” — quem não sabe repousar no limiar do instante, esquecendo todo o passado, nunca saberá o que é a felicidade — atesta que Nietzsche pressentiu a importância dos estados de felicidade.

53. A descrição nietzschiana do êxtase revela a insuficiência de um exclusivismo da angústia, possuindo os estados felizes autenticidade própria, cujo desconhecimento levaria a remeter tudo o que difere da solidão do sujeito lançado sobre si ao domínio da banalidade e do “man”, desvalorizando injustamente a vida das comunidades estáveis e empobrecendo o domínio da cultura.

54. O traço mais marcante da embriaguez é atestar a importância do factor anímico, tornando-se o homem plenamente si mesmo, o que Carus, citado por Bollnow, relevou ao apresentar a beatitude como o cumprimento da alma, sua transparência em que se ilumina o “divino inato”.

55. A experiência da embriaguez mostra o alcance revelador da interioridade e faz descobrir nela a unidade do pensar e do sentir, sugerindo a existência de um fundo comum anterior à dissociação kantiana entre pensamento e sensibilidade que a filosofia alemã sempre tentou reunir.

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