Bollnow e as tonalidades afetivas
CHAMBON, C. Logique de la finitude: essai sur l’expérience de la réalité. Strasbourg: Presses universitaires de Strasbourg, 1990, p. 13-15.
A análise minuciosa dos temas da obra de O. F. Bollnow revela-se necessária para esclarecer o sentido de nossas questões e identificar os pontos problemáticos.
A obra começa por delimitar o campo das tonalidades afetivas, sua função e sua importância. A questão do homem tornou-se incerta porque a certeza tradicional de que o homem é um “animal racional” desmoronou. A crise da cultura contemporânea caracteriza-se pelo fato de que a razão não é mais o princípio constitutivo da natureza humana. Nesse sentido, a descoberta do papel fundamental das tonalidades afetivas expressa essa crise. Ela faz com que uma definição específica do homem se desvaneça. O surgimento das tonalidades afetivas, dos sentimentos enraizados na vida, significa que as atividades superiores da mente não são mais autônomas. Elas mergulham no âmago da vida, onde têm sua origem. Passa a se colocar, a partir de agora, a questão da relação entre o pensamento e a vida, até então negligenciada. Mas essa questão obriga, precisamente, a revelar “o conjunto estrutural íntimo da vida humana”.
O.F. Bollnow não explica filosoficamente a noção de vida; ele a esclarece indiretamente por meio da análise descritiva dos sentimentos a ela ligados, que, assim, tomam dela seu caráter básico na experiência humana. Os “sentimentos vitais” são os fundamentos da vida psíquica. Eles constituem o verdadeiro fundo da consciência, a forma primitiva na qual a vida toma consciência de si mesma. Uma especificidade caracteriza essa forma, que nunca é indiferente, e que contém uma tomada de posição em relação ao real. Quanto à questão de saber se essa tomada de posição já é uma atitude ou um julgamento, ou se é apenas o início e a origem deles, isso depende da possível inerência da intencionalidade à tonalidade afetiva.
É essencial que a tomada de posição “natural” possa preceder a intencionalidade e se apresente como sua origem. A “verdade”, a relação do homem com o mundo, se institui antes das iniciativas do sujeito pensante e fornece seu próprio conteúdo aos julgamentos que se constroem posteriormente com base nela.
O.F. Bollnow introduz, entre outras coisas, uma distinção fundamental entre as tonalidades afetivas e os sentimentos. Enquanto os sentimentos são particularizados e especificados em função do objeto ao qual se dirigem, as tonalidades afetivas constituem um terreno mais geral e mais passivo, um estado fundamental que permeia uniformemente o homem em sua totalidade, conferindo ao conjunto de suas atitudes e pensamentos uma coloração definida e insuperável. Pode-se falar a respeito delas, como Heidegger, de uma “Grundbefindlichkeit”, de um sentimento da situação básica. O mundo se apresenta ali antes que o homem se dê conta de explicitar essa experiência em julgamentos e palavras.
Percebe-se, por exemplo, a diferença entre alegria e bom humor (Freude – Fröhlichkeit). A primeira está dinamicamente orientada para um objeto específico e, assim, pertence às atividades caracterizadas pela intencionalidade. A segunda é um alicerce vital que impregna toda a vida mental e sustenta a primeira. O homem tem consciência de si mesmo de forma imediata e antes de qualquer relação com algo externo. Um exemplo dessa distinção é dado pela diferença destacada por Heidegger entre o medo e a angústia. Esta última é indeterminada quanto ao seu objeto, ao contrário do medo. O mérito da filosofia existencial é ter combatido uma confusão entre a indeterminação própria da tonalidade afetiva e o domínio mais circunscritível dos sentimentos determinados. Ela insistiu nessa indeterminação como uma característica específica. Mas essa diferença não se aplica apenas à angústia; ela distingue, em geral, todas as tonalidades afetivas dos sentimentos. A alegria possui a mesma indeterminação objetiva que a angústia.
Existe, no entanto, uma transição imperceptível da tonalidade para o sentimento. Ela revela, justamente, que o conjunto da vida psíquica nunca se desliga do fluxo das tonalidades afetivas em que está imerso. Como as tonalidades geram orientações dinâmicas específicas, objetivamente determinadas? A transição é assegurada por sentimentos que, embora se relacionem com algo determinado, o ultrapassam para conferir à alma uma coloração geral. Assim, a aflição, ligada a um motivo específico, é indeterminada e geral. Esses estados afetivos contêm um elemento de finalidade sem serem, em todos os aspectos, disposições intencionais. A intencionalidade surge, assim, a partir de algo cuja natureza é radicalmente diferente. O.F. Bollnow destaca, de forma descritiva, a relação que une as atividades superiores ao seu fundamento. Mas como a intencionalidade é possibilitada por um fundamento não intencional?
A descrição mostra que a ausência de intencionalidade não é um critério totalmente suficiente, embora correto, para distinguir as tonalidades afetivas. “É, portanto, o fato de se referir não a um objeto (intencional), mas a uma causa, que pode ser verdadeiramente consciente”. É quando a intencionalidade se transforma em reflexão e compreensão de uma causa que a consciência se torna verdadeiramente ela mesma e assume a forma do conhecimento. Quando a relação com o objeto tem seu centro de gravidade no objeto externo, no terminus ad quem em vez de no terminus a quo, quando a experiência parece se explicar pelo objeto, a consciência se tornou conhecimento. Isso revela a relação que une a consciência cognitiva e a exterioridade. Os fundamentos da consciência ainda ignoram essa relação com a causa. Assim, na experiência, a relação do sujeito consigo mesmo não é mediada pelo objeto da experiência. Os fundamentos têm um caráter de coincidência imediata consigo mesmo. Os fundamentos ainda não são totalmente conscientes, embora sejam a forma primitiva da consciência de si e do real. A consciência mergulha neles em um fundo de si mesma, uma essência própria, mas, no entanto, meio estranha. A coincidência da alma consigo mesma não tem, portanto, nada a ver com uma primazia do sujeito do conhecimento. Ela não se situa no plano da relação cognitiva.
