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Temporalidade
BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.
A Unidade Temporal da Existência Própria e a Estrutura do Cuidado
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A unidade do si-mesmo próprio ou autêntico (eigentliches Selbst) não se define pela persistência ou continuidade temporal, mas sim como uma unidade de caráter estritamente temporal baseada na fidelidade da existência ao seu próprio si-mesmo.
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A temporalidade (Zeitlichkeit) constitui o sentido ontológico do cuidado (Sorge), cuja estrutura se define como ser-adiante-de-si-já-sendo-em-(um-mundo) como ser-junto-a-(entes que vêm ao encontro dentro do mundo) (Sich-vorweg-schon-sein-in-(einer-Welt) als Sein-bei (innerweltlich begegnenden Seienden)).
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As determinações do cuidado contêm conotações temporais constitutivas que se organizam em três facetas denominadas êxtases (Ekstasen), correspondentes ao futuro, ao presente e ao passado.
O Êxtase do Passado: A Vigência do Ter-Sido
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O caráter de já-sendo-em do ser-aí (Dasein) não expressa um passado cronológico que simplesmente deixou de ser agora, mas sim a assunção da própria facticidade (Faktizität) e do ser-culpado (Schuldigsein).
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A resolução precursora (vorlaufende Entschlossenheit) significa assumir o ser-culpado (Schuldigsein) e existir como o ser-aí (Dasein) em cada caso já era, o que exige que o ser-aí (Dasein) possa ser o seu mais próprio ter-sido (Gewesen): “A resolução precursora […] significa que, existindo, assume-se o ser-culpado; ela significa ser o ser-aí propriamente como ele em cada caso já era. Assumir a decadência lançada, contudo, só é possível de tal modo que o ser-aí vindouro possa ser o seu mais próprio 'como-ele-em-cada-caso-já-era' — isto é, o seu 'ter-sido'. Somente na medida em que o ser-aí é enquanto eu tenho-sido, pode o ser-aí vir ao encontro de si mesmo de modo futural, de tal forma que ele retorne”.
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O idioma alemão utiliza o verbo auxiliar ser (sein) para compor os tempos perfeitos de verbos de movimento, permitindo a Heidegger enfatizar, na expressão “eu sou sido” (ich bin gewesen), que o passado ontológico diz respeito a quem se é no presente, e não a quem se deixou de ser.
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O particípio passado substantivado como ter-sido (Gewesen) e a propriedade do ter-sido (Gewesenheit) destacam o aspecto perfeito da temporalidade, cujo foco reside na relevância contínua e atual de uma situação ou determinação anterior sobre os projetos presentes do ser-aí (Dasein).
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A distinção linguística entre tempo verbal (localização de uma ação no passado, presente ou futuro) e aspecto verbal (foco na constituição temporal interna da situação) serve de analogia para compreender que o ter-sido (Gewesenheit) funciona como um aspecto de já-ter-sido ou “já-prioridade” no qual o agente age sempre a partir de quem ele já se encontra sendo.
O Êxtase do Futuro: O Vir-ao-Encontro de Si
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O futuro (Zukunft) na ontologia heideggeriana não consiste em um agora que ainda não se realizou, mas sim no movimento de vir no qual o ser-aí (Dasein) vem ao seu próprio encontro a partir de seu mais próprio poder-ser (Seinkönnen): “Futuro não significa aqui um Agora que ainda não se tornou 'real' e que algum dia será pela primeira vez, mas sim o vir no qual o ser-aí, em seu mais próprio poder-ser, vem ao encontro de si mesmo”.
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O termo alemão para futuro, Zukunft, decompõe-se etimologicamente em um vir (Kunft) direcionado para (zu), o que evidencia o caráter intencional, finalista e de projeção da existência humana em direção a si mesma.
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O ser-aí (Dasein) é suas possibilidades enquanto possibilidades no ato de projetar e compreender, de modo que os projetos de um agente não determinam mecanicamente quem ele será ou quem ele será convocado a ser no dia seguinte.
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A distinção linguística entre o tempo futuro e o aspecto télico (processo direcionado a um limite ou termo definido) ilustra que o futuro existencial não se confunde com o “ainda-não-agora”, mas aponta para a orientação e para o sentido intrínseco que rege a ação atual.
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Adota-se o termo finalidade para designar o aspecto do futuro existencial e a expressão já-prioridade para o aspecto do passado, delimitando as capacidades do ser-aí (Dasein) de compreender as dimensões temporais de sua existência.
O Êxtase do Presente: O Presentificar e o Instante
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O êxtase do presente estrutura-se de forma genérica como presentificar (Gegenwärtigen), assumindo a forma autêntica de instante (Augenblick) ou a forma inautêntica de mera presentificação: “Em contraposição ao instante como o presente próprio, chamamos o presente impróprio de presentificar. Compreendido formalmente, todo presente é um presente que presentifica, mas nem todo presente tem o caráter de um 'instante'”.
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A resolução precursora (vorlaufende Entschlossenheit) desvela a situação atual de modo que o agente aja sob a ocupação concernida com o que se encontra facticamente à mão no ambiente, o que demanda o presentificar (Gegenwärtigen) do ente para permitir seu encontro livre de distorções: “A resolução precursora desvela a situação atual do Aí de tal modo que a existência, ao agir, ocupa-se circunspectamente com o que está facticamente à mão no ambiente. O ser-resoluto-junto ao que está à mão na situação — isto é, agir de tal modo a deixar encontrar o que está presente no ambiente — só é possível pelo presentificar desse ente. Somente como o presente no sentido do presentificar, pode a resolução ser o que é: a saber, o deixar-encontrar não distorcido daquilo que ela apreende ao agir”.
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A análise etimológica de Gegenwart (presente) e Gegenwärtigen (presentificar) remete à ação de colocar algo face a face, contraposto ao agente como um objeto que vem ao seu encontro.
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O instante (Augenblick) atua como o presente próprio que possibilita que os entes que podem estar no tempo encontrem o ser-aí (Dasein) na cotidianidade: “mas, como um contra-posto próprio, o instante deixa o que pode estar 'em um tempo' como à mão ou presente encontrar em primeiro lugar”.
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A utilização cotidiana de utensílios na ocupação circunspecta (besorgende Umsicht) exige a articulação do esperar (Gewärtigen) — correspondente ao aspecto télico e ao futuro — com o reter (Behalten) — correspondente ao aspecto perfeito e ao passado —, integrando-os na unidade do presentificar (Gegenwärtigen) que lida com o tempo do mundo.
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Na resolução precursora (vorlaufende Entschlossenheit), o ser-aí (Dasein) retoma a si mesmo da decadência (Verfall) para situar-se no instante (Augenblick), tornando visível a distinção entre os aspectos existenciais (finalidade e já-prioridade) e os tempos cronológicos (passado, presente e futuro).
Os Esquemas Horizontais e a Finitude da Temporalidade
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Os êxtases temporais correspondem a capacidades de articulação que operam sob horizontes de determinação específicos denominados esquemas horizontais (horizontale Schemata).
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O esquema horizontal do futuro é o por-amor-de-si (Worum-willen), marcado pela característica de finalidade em que o ser-aí (Dasein) nunca se fixa em uma completude definitiva e permanece sempre exposto à interrupção pela morte.
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A analogia proposta por Hubert Dreyfus e outros entre o por-amor-de-si e o conceito aristotélico de energeia (atividade autocontida) falha por desconsiderar que a existência do ser-aí (Dasein) é ontologicamente finita e exposta à morte, distanciando-se do caráter eterno atribuído à atividade pura em Aristóteles.
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O esquema horizontal do ter-sido reside naquilo em direção ao qual o ser-aí (Dasein) foi lançado e abandonado, de modo que a facticidade do ter-sido (Gewesenheit) difere da mera cronologia de fatos históricos passados do indivíduo.
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O esquema horizontal do presente define-se pelo em-vista-de ou para-isso (Um-zu), o qual se vincula à expectativa prática que orienta o manuseio e a ocupação com as coisas no mundo cotidiano.
A temporalidade (Zeitlichkeit) não constitui um fenômeno exclusivamente próprio ou autêntico, mas representa a estrutura ontológica universal do cuidado (Sorge), manifestando-se tanto na propriedade quanto na impropriedade: “O ser em direção ao seu mais próprio e distintivo poder-ser […] só é possível na medida em que o ser-aí pode vir ao seu próprio encontro em sua mais própria possibilidade. […] Se o ser-para-a-morte (Sein zum Tode) próprio ou impróprio pertence ao ser do ser-aí, então tal ser-para-a-morte só é possível como algo futural, no sentido que agora indicamos e que ainda temos de definir mais de perto. […] A antecipação torna o ser-aí propriamente futural, e de tal modo que a própria antecipação só é possível na medida em que o ser-aí, como ser, está sempre vindo ao encontro de si mesmo — isto é, na medida em que ele é futural em seu ser”.A temporalidade é definida por Heidegger como primariamente futural e finita (endlich), sem que a finitude signifique a mera interrupção do tempo cronológico após a morte física do indivíduo.-
A constatação de que o tempo prossegue após o fim da existência individual não anula a finitude da temporalidade originária: “Mas 'o tempo não continua' apesar do meu não-mais-ser-aí? E não pode haver um número ilimitado de coisas que ainda jazem 'no futuro' e vêm a partir dele? Devemos responder a essas perguntas afirmativamente. Apesar disso, elas não contêm nenhuma objeção à finitude da temporalidade originária — porque esta última é algo que estas perguntas não mais alcançam”.
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A finitude da temporalidade expressa a limitação intrínseca do poder-ser (Seinkönnen) diante da morte existencial, o que marca o ser-aí (Dasein) como um intérprete de si mesmo que sempre se depara com a necessidade de revogar ou assumir seus próprios projetos.
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