estudos:blattner:sz:historicidade
Historicidade
BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.
A Estrutura Ontológica do Acontecer e a Historicidade Universal
-
A historicidade (Geschichtlichkeit) constitui a estrutura ontológica universal segundo a qual o ser-aí (Dasein) acontece, desenrolando-se de modo próprio ou impróprio a partir do reservatório de possibilidades herdadas.
-
No modo impróprio da historicidade (uneigentliche Geschichtlichkeit), o agente assume a interpretação herdada da vida como um dogma imperativo e vinculante ou, ao contrário, como um objeto de rejeição puramente reativa.
-
No modo próprio da historicidade (eigentliche Geschichtlichkeit), o agente especifica a possibilidade herdada de acordo com as exigências de sua situação fática e singular presente.
-
Heidegger adota o verbo alemão acontecer (geschehen) para designar o modo eminentemente histórico de existir do ser-aí (Dasein), derivando dele o termo história (Geschichte), que se reserva estritamente à existência humana.
-
Os entes intramundanos possuem uma historicidade derivada denominada histórico-mundial (weltgeschichtlich), enquanto o estudo sistemático e científico do passado é designado como historiografia (Historie).
O Si-Mesmo como Distensão e o Movimento da Existência
-
O acontecer (geschehen) do ser-aí (Dasein) estruturalmente não se reduz à permanência estática de um ente simplesmente dado ou presente (Vorhandenheit), mas define-se como um distender-se a si mesmo (sich erstrecken).
-
O ser-aí (Dasein) não preenche um caminho ou trecho de vida previamente dado no tempo com fases isoladas de suas atualidades instantâneas, mas distende-se de tal forma que seu próprio ser é constituído antecipadamente como uma distensão (Erstreckung): “O ser-aí não preenche um caminho ou trecho 'de vida' — que estivesse de algum modo presente — com as fases de suas atualidades instantâneas. Ele se distende de tal modo que seu próprio ser é constituído antecipadamente como uma distensão”.
-
A distensão (Erstreckung) opera de forma universal tanto na propriedade quanto na impropriedade; um agente que fraqueja diante das pressões conformistas do impessoal (das Man) ainda realiza a distensão, transmitindo a si mesmo possibilidades do patrimônio (Erbe) de forma irresoluta.
-
A impropriedade da distensão não reside na falta de continuidade temporal, mas na infidelidade ou deslealdade para com aquilo que o ser-aí (Dasein) já se encontra sendo no momento de clareza.
-
A recepção de uma possibilidade do patrimônio (Erbe) por meio da transmissão (überkommen) constitui um ato interpretativo ativo e dinâmico da própria vida, o que justifica a denominação de distensão distendida (erstreckte Erstreckung).
-
O movimento próprio da existência humana difere da locomoção física das coisas dadas, definindo-se a partir da própria distensão do ser-aí (Dasein): “A mobilidade da existência não é o movimento de algo presente. Ela se define a partir da distensão do ser-aí. Chamamos o acontecer à mobilidade específica da distensão distendida”.
A Co-Solicitude e as Relações com os Outros
-
O ser-com (Mitsein) constitui uma dimensão ontológica originária do ser-aí (Dasein) na qual a preocupação voltada aos outros assume a forma de solicitude (Fürsorge).
-
A solicitude (Fürsorge) apresenta duas possibilidades extremas de realização existencial: a solicitude substitutiva ou que substitui (einspringende Fürsorge) e a solicitude antecipadora ou que antecipa (vorausspringende Fürsorge).
-
A solicitude que substitui (einspringende Fürsorge) consiste em assumir a responsabilidade pelas tarefas e objetivos do outro, correndo o risco de torná-lo dependente, dominado ou tutelado, como exemplificado pela superproteção parental.
-
A solicitude que antecipa (vorausspringende Fürsorge) não visa desonerar o outro de seu cuidado (Sorge), mas sim devolvê-lo propriamente à sua própria existência, promovendo a autotransparência e a liberdade: “antecipa o outro, não para retirar-lhe a sua 'cura', mas propriamente para devolvê-la a ele como tal. Esse tipo de solicitude pertence essencialmente à cura própria — isto é, à existência do outro, não a um Quê com o qual ele se ocupa; ajuda o outro a tornar-se transparente para si mesmo em sua cura e a tornar-se livre para ela”.
O Co-Acontecer e o Destino Comum das Comunidades
-
Sendo essencialmente um ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) em relação de ser-com (Mitsein), o acontecer (geschehen) do ser-aí (Dasein) desdobra-se como um co-acontecer (Mitgeschehen), constituindo o destino comum (Geschick) de uma comunidade ou de um povo: “Mas se o ser-aí fadado, como ser-no-mundo, existe essencialmente no ser-com com os outros, seu acontecer é um co-acontecer e é determinante para ele como destino comum. É assim que designamos o acontecer da comunidade, de um povo”.
-
O destino comum (Geschick) de uma comunidade não resulta da mera soma aritmética ou amontoado de destinos individuais (Schicksal) isolados, pois o destino de cada indivíduo já se encontra previamente orientado pelo co-acontecer (Mitgeschehen) do grupo.
-
O co-acontecer próprio (eigentliches Mitgeschehen) configura-se como um embate dialógico e comunicativo sobre a identidade coletiva em face de uma tradição comum, desdobrando-se desde debates privados até discussões públicas de grande escala.
-
O surgimento do conceito de assédio sexual no movimento de libertação das mulheres nos Estados Unidos ilustra essa especificação coletiva, na qual as integrantes se apropriaram de possibilidades culturais e as redefiniram para responder às injustiças concretas de suas vidas.
-
O co-acontecer impróprio (uneigentliches Mitgeschehen) esquiva-se da responsabilidade de discutir, debater e especificar as interpretações coletivas herdadas, tratando os rumos comunitários como dogmas imutáveis e já decididos.
O processo de construção de uma identidade nacional alemã republicana e não chauvinista no início do século XXI exemplifica a estrutura do co-acontecer comunitário.-
A consolidação desse consenso político resultou de intensos debates acadêmicos, jornalísticos e domésticos entre conservadores e reformistas acerca da responsabilidade histórica do povo alemão frente aos crimes do regime nazista.
-
Essa disputa interpretativa permitiu que os cidadãos alemães transmitissem a si mesmos uma nova possibilidade de autocompreensão institucional e cívica, caracterizando uma resposta coletiva e ativa ao seu próprio patrimônio (Erbe) histórico.
Embora Heidegger afirme que o co-acontecer comunitário representa o acontecer plenamente próprio do ser-aí (Dasein), a autenticidade ou propriedade (Eigentlichkeit) individual não depende obrigatoriamente da existência de uma comunidade autêntica.-
A trajetória de Franz Jägerstätter atesta que a resolução (Entschlossenheit) pode ser mantida de forma solitária e fiel a uma tradição interpretativa mesmo sob a oposição ativa de sua paróquia e de sua comunidade local.
-
A tese de que a autenticidade exige um vínculo indissolúvel com a comunidade assemelha-se à posterior instrumentalização política de Heidegger junto ao Nacional-Socialismo, que submetia a existência individual à determinação absoluta do povo (Volk).
-
O co-acontecer próprio (eigentliches Mitgeschehen) pode ser compreendido como um enriquecimento ou desdobramento da historicidade própria (eigentliche Geschichtlichkeit), sem que a realização desta última dependa necessariamente daquela.
O Ser “No Tempo” e o Estatuto do Ter-Sido
-
O ser-aí (Dasein) existe no tempo, porém essa temporalidade (Zeitlichkeit) não se reduz à concepção comum do tempo como uma sucessão linear de instantes ou “agoras” (jetzt).
-
Embora a temporalidade originária não se confunda com o tempo cronológico, o ser-aí (Dasein) deve ser designado como temporal no sentido de situar-se e ser no tempo: “Não obstante, o ser-aí também deve ser chamado de 'temporal' no sentido de ser 'no tempo'”.
-
Para demarcar a diferença ontológica entre o passado das coisas e a dimensão histórica da existência, Heidegger diferencia o ser-aí que já foi-aí (dagewesenes Dasein) das definições tradicionais de história.
-
A história, em sua acepção comum, costuma designar o que já transcorreu e cessou, o que perdeu a relevância atual, o que perdura exercendo influência causal ou, ainda, a totalidade das civilizações passadas e os monumentos herdados.
-
O ser-aí que não mais existe não se define ontologicamente como passado, mas sim como tendo-sido-aí (dagewesen): “O ser-aí que não mais existe, contudo, não é passado no sentido ontológico estrito; antes, ele foi-aí”.
-
A caracterização do ter-sido (Gewesen) repousa na primazia do aspecto perfeito e na estrutura de já-prioridade da temporalidade, distinguindo-se do mero tempo decorrido ou do “não-mais-agora”.
-
Afirmar que indivíduos de épocas anteriores viveram significa reconhecer que eles realizaram a distensão (Erstreckung) de suas existências, projetando possibilidades a partir de sua facticidade e, com isso, desvelando o presente de sua situação e descobrindo os entes no mundo.
A Historicidade Derivada das Coisas: O Histórico-Mundial
-
Os entes intramundanos que se encontravam inseridos no horizonte de atuação do ser-aí que já foi-aí (dagewesenes Dasein) herdam uma historicidade secundária denominada histórico-mundial (weltgeschichtlich).
-
O ser-aí (Dasein) constitui o ente primariamente histórico, de modo que os objetos e relíquias só adquirem caráter histórico por sua vinculação ao mundo de um ser-aí que já foi-aí: “Sustentamos que o primariamente histórico é o ser-aí”.
-
Um monumento arqueológico, como as ruínas de Éfeso, não se torna histórico por sua antiguidade mensurável em séculos, mas sim porque pertenceu ativamente ao horizonte de ocupação do ser-aí romano ou bizantino que ali existiu.
-
A historicidade dos entes não se eleva ou se aprofunda à medida que sua origem cronológica se distancia no passado físico: “Os entes não se tornam 'mais históricos' por serem deslocados para um passado cada vez mais distante, de modo que o mais antigo deles seria o mais propriamente histórico”.
-
A determinação histórica não comporta graus de intensidade, pois se define pela articulação constitutiva dos êxtases da temporalidade e não pela escala temporal sucessiva.
A Fundação Existencial da Historiografia
-
Heidegger busca desenvolver as pesquisas do filósofo Wilhelm Dilthey acerca das ciências humanas, apontando que a fundamentação existencial da historiografia (Historie) reside na historicidade (Geschictlichkeit) do próprio ser-aí (Dasein).
-
O tema primordial da ciência historiográfica deve ser delimitado em conformidade com o caráter da historicidade própria e com a abertura do ser-aí que já foi-aí, o que se processa por meio da repetição ou retomada (Wiederholung): “A delimitação do tema originário da historiografia terá de ser realizada em conformidade com o caráter da historicidade própria e sua abertura do que foi-aí — isto é, em conformidade com a repetição como essa abertura”.
-
A historiografia própria (eigentliche Historie) manifesta a dimensão universal em um acontecimento singular e irrepetível ao desvelar o ser-aí que já foi-aí em suas possibilidades existenciais: “Se a historiografia, que ela mesma surge da historicidade própria, revela pela repetição o ser-aí que foi-aí e o revela em sua possibilidade, então a historiografia já tornou manifesto o 'universal' no único”.
-
A compreensão historiográfica autêntica exige que o historiador não apenas catalogue fatos pretéritos, mas realize a repetição (Wiederholung) das possibilidades de ser pelas quais os agentes históricos se compreendiam, assumindo-as como suas próprias possibilidades.
Limites e Críticas ao Modelo Heideggeriano de Historiografia
-
A exigência de que a historiografia repita e assuma as possibilidades existenciais do passado gera dificuldades metodológicas severas diante de contextos culturais radicalmente distintos daqueles do intérprete.
-
A análise de artefatos históricos, como as armaduras do imperador Maximiliano I, revela uma mistura de traços utilitários e estéticos cujo papel prático e existencial original não pode ser plenamente assimilado pelo olhar contemporâneo, restando apenas analogias imperfeitas.
-
Modelos hermenêuticos alternativos, como o de Wilhelm Dilthey (focado na empatia e na transposição para reviver a experiência alheia) ou o de R. G. Collingwood (baseado na reconstituição imaginativa do pensamento dos agentes), mostram-se menos impositivos por não exigirem que o historiador paute suas próprias escolhas existenciais pelas possibilidades do investigado.
-
A metodologia historiográfica de Heidegger assemelha-se à sua prática de interpretação de textos filosóficos, na qual o intérprete busca compreender o autor melhor do que este a si mesmo, apropriando-se do pensamento original a ponto de fundi-lo com suas próprias teses.
-
Essa postura tende a classificar o rigor filológico e historiográfico tradicional — que preserva a distância crítica entre o analista e o objeto — como uma atitude imprópria que reduz as obras do pensamento a meras relíquias de museu.
-
A ausência de uma caracterização sistemática sobre o fazer historiográfico geral e sobre sua derivação da historicidade comum indica que as teses contidas no parágrafo 76 de Ser e Tempo carecem de consistência e de desenvolvimento teórico satisfatório.
-
estudos/blattner/sz/historicidade.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
-
-
-
-
-
