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Existência
BLATTNER, William D. Heidegger’s “Being and Time”: A Reader’s Guide. 2nd ed ed. London: Bloomsbury Academic, 2023.
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A ontologia da vida humana abre-se com a identificação de quatro traços ontológicos do ser-aí (Dasein): seu ser é sempre meu, ele se comporta em relação a seu próprio ser, está entregue a seu próprio ser, e o ser é uma questão para ele
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O primeiro traço, o ser sempre meu, equivale a dizer que o ser-aí é uma pessoa, ainda que Heidegger evite a linguagem de sujeito e subjetividade por carregarem herança histórica problemática, discutida de modo mais extenso em Problemas Fundamentais da Fenomenologia, onde se examina a concepção kantiana de subjetividade e personalidade
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A reflexão filosófica moderna sobre a subjetividade inicia-se com a tese cartesiana de que as experiências inerem no eu como propriedades inerem numa substância, a alma ou res cogitans, cuja persistência através das mudanças de experiência explica a identidade ao longo do tempo
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Kant transforma a concepção cartesiana do sujeito ao retirar-lhe os dentes metafísicos, pois a experiência não pode fundamentar empiricamente a unidade e identidade do eu como funda a dos objetos materiais, observação cética de David Hume endossada por Kant, que, entretanto, não abandona a unidade e identidade do sujeito, afirmando-a como proposição analítica implicada nos próprios conceitos
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a proposição de que, em toda a multiplicidade da qual sou consciente, sou idêntico a mim mesmo está implicada nos próprios conceitos e é, portanto, uma proposição analítica
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o sujeito é termo lógico que designa aquilo de que se predica algo, como a maçã em a maçã é doce
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o eu penso deve poder acompanhar todas as minhas representações
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a subjetividade, na filosofia alemã pós-kantiana, é a unidade autoconsciente da experiência, concepção kantiana da personalidade transcendental
Ao recusar a linguagem de subjetividade e personalidade, Heidegger rejeita esse modo de conceber a experiência, pois há uma experiência de si mais básica do que a consciência de que todas as experiências são minhas, nomeada pelo segundo traço, o comportar-se em relação a seu próprio ser, formulação derivada de Kierkegaard, para quem, em O Desespero Humano, o eu é a relação que se relaciona consigo mesma-
o ser humano é espírito, e o espírito é o eu, e o eu é a relação que se relaciona consigo mesma na relação, não sendo ele próprio a relação, mas o relacionar-se da relação consigo mesma
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verhält sich, comportar-se, traduzido a partir de Kierkegaard, pode também significar relacionar-se
A formulação de que o si-mesmo é uma relação de si consigo mesmo pode parecer circular, circularidade assumida por Heidegger ao afirmar que a essência do ser-aí reside em seu ter-de-ser (Zu-sein)-
a essência desse ente reside em seu ter-de-ser, e seu que-ser deve ser concebido a partir de seu ser, de modo que a essência do ser-aí está em sua existência
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Zu-sein é gerundivo que expressa obrigação ou chamado, como em tenho recados a fazer ou dívidas a pagar, de modo que a essência é uma vida à qual se é chamado a viver
O chamado a viver a própria vida assemelha-se à filosofia moral, que trata de quem somos enquanto praticamente engajados com o mundo, o que leva Heidegger, após discutir a unidade transcendental da apercepção em Problemas Fundamentais, a tratar da personalidade moral kantiana, unidade lógica do agente constituída pela consciência de sua responsabilidade moral-
a consciência de experimentar a caneca de café pertence a mim porque posso ser consciente de mim mesmo experimentando-a
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a consciência da ação de beber o café pertence a mim porque posso imputá-la a mim mesmo, assumindo responsabilidade por ela
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assim como há consciência cognitiva transcendental da própria existência como pensante, há consciência prática transcendental da própria existência como agente, capturada no sentimento de respeito pela lei moral
Heidegger busca identificar forma de autoconsciência mais básica que a apercepção cognitiva e a autoconsciência moral, propondo que a forma mais básica de autoconsciência é a consciência de quem se é para ser, ideia próxima da de José Ortega y Gasset, segundo quem o ser humano é impossível sem imaginação, sem a capacidade de inventar para si uma concepção de vida, de idear o caráter que há de ser-
ser pessoa é projetar uma pessoa a ser, de modo que o próprio ser está em questão para si mesmo, o quarto traço ontológico: o ser é uma questão para o ser-aí
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em I.6 Heidegger denomina cuidado (Sorge) o ser do ser-aí, não aludindo a preocupação ou devoção emocional específicas, mas a condição existencial constitutiva tanto de quem é despreocupado quanto de quem se dedica a servir aos outros
O contraste com as coisas não humanas evidencia essa característica: a essas entidades, seu ser é indiferente, ou, mais precisamente, são de tal modo que seu ser não pode ser nem indiferente nem o contrário, contraste próximo do comentário de John Haugeland sobre inteligência artificial, segundo o qual o problema da inteligência artificial é que computadores não se importam-
o problema da inteligência artificial seria antes que computadores nem se importam nem deixam de se importar
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a vida importa a cada um, mesmo quando importa por ser negligenciável ou irrelevante, ao passo que coisas não humanas não têm relação alguma com nada
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viver uma vida é responder à pergunta pela identidade, o que pode ser descrito, nos termos de Christine Korsgaard, como identidade prática
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a peculiaridade do ser do ser-aí, o que ele é, permanece velada quanto a seu de-onde e para-onde, mas se revela nele mesmo de modo ainda mais desvelado, o que se chama de jogado-ser (Geworfenheit) desse ente em seu aí
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o si-mesmo, que como tal tem de lançar o próprio fundamento, jamais pode ter esse fundamento sob seu poder
Ao determinar-se como ente, o ser-aí sempre o faz à luz de uma possibilidade que ele mesmo é e que, em seu próprio ser, de algum modo compreende, sentido formal da constituição existencial do ser-aí, retomado em §12, onde se afirma que o ser-aí é ente que, em seu ser, se comporta compreensivamente em relação a esse ser, conceito formal de existênciaA autoconsciência básica do ser-aí não é forma de consciência no sentido usual nem de subjetividade tradicional, razão pela qual Heidegger prefere o termo abertura (Erschlossenheit) a autoconsciência ou subjetividade, estando o ser-aí aberto a si mesmo, sobretudo, ao importar-se com quem é-
a pergunta pela identidade está em jogo mesmo quando não se tem consciência dela, o terceiro traço ontológico: o ser-aí está entregue a seu ser
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essa formulação inspirou o lema sartriano estamos condenados a ser livres
O sentido heideggeriano-existencialista de si-mesmo ultrapassa as preocupações éticas com a responsabilidade pelos próprios atos, envolvendo também como se sente, age, se dispõe, fala e com quem se relaciona, como no exemplo de estar numa festa entre amigos quando um deles faz comentário sutilmente racista ou sexista, sem que se seja responsável, mas ainda assim sentindo-se implicado, pois quem se é é mais fundamental do que aquilo pelo qual se é responsávelO cuidado consigo estende-se ao cuidado com quem os outros são, nomeado em I.4 solicitude (Fürsorge), de modo que a pergunta pela própria identidade envolve também a pergunta pela identidade alheia, não sendo possível desvincular quem se é de quem são aqueles ao redor, fenômeno chamado de imersão do si-mesmo no mundo social-
ao ser estudante, sustenta-se a autointerpretação desta pessoa como estudante e daquela como instrutor
A imersão do si-mesmo no mundo social não é tese psicológica sobre interdependência causal nem tese metafísica sobre interdependência de substâncias, mas tese fenomenológica sobre o modo como se está aberto a si mesmo, sendo a mediania (Durchschnittlichkeit) o caráter indiferenciado que o ser-aí tem de modo próximo e na maioria das vezes-
experimentar-se como isolado dos demais, não apenas alienado, mas como sendo quem se é independentemente dos outros, é altamente atípico e dificilmente sustentável, encontrando-se sobretudo como rejeição dos modos de vida alheios, isolacionismo que ainda envolve cuidado pelo ser dos outros
A imersão no mundo social envolve certa abdicação da posse de si mesmo, dispersão no mundo social contraposta à propriedade de si ou autenticidade (Eigentlichkeit), diante da qual, simplesmente por ser humano, coloca-se a escolha entre apropriar-se de si e dispersar-se-
porque o ser-aí é, em cada caso, essencialmente sua própria possibilidade, ele pode, em seu próprio ser, escolher-se e ganhar-se a si mesmo, ou pode perder-se e nunca se ganhar, ou apenas parecer fazê-lo, só podendo ter-se perdido e ainda não ganhado na medida em que é essencialmente algo capaz de ser próprio
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a propriedade de si consuma-se na constância de si mesmo, descrita como firmeza estável, conquista obtida por luta, não dada como condição lógica da experiência
A introdução da autenticidade aponta para outra dimensão: não apenas quem se é como indivíduo particular está em questão no comportamento cotidiano, mas também a própria compreensão do que é ser humano, ser-aí, distinguindo-se o existenciário (existenziell), relativo aos entes, do existencial (existenzial), relativo ao serA resposta heideggeriana à tradição kantiana da unidade da autoconsciência é que a abertura a si mesmo é mais fundamental do que a autoconsciência cognitiva ou a responsabilidade moral, sendo o próprio ser uma questão constantemente enfrentada ao viver adiante numa vida que importa, mesmo na condição excepcional de perda de interesse pela vida, de alienação radical discutida sob a rubrica da angústia, permanecendo inescapável a pergunta pela identidade, revelando-se o si-mesmo não como indivíduo isolado e persistente, mas imerso num mundo social que também o concerneCom essa concepção do ser do ser-aí em foco, traça-se distinção fundamental entre o ser-aí, cuja essência reside em seu ter-de-ser, e todo o restante, reservando-se existência (Existenz) para o ser do ser-aí e ser-simplesmente-dado (Vorhandenheit) para o ser dos entes diversos dele, noção cujo sentido preciso é objeto de disputa, notando Denis McManus haver usos distintos e incompatíveis do termo em Heidegger, podendo em geral pensar-se os entes simplesmente dados como sendo o que são independentemente do mundo social humano-
o à-mão (Zuhandenheit) contrasta com o simplesmente dado em I.3, sendo o que é em virtude de ter atribuição constitutiva a algum papel no mundo humano
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o desmundanizar dos entes é passo crítico na gênese ontológica das ciências naturais
À luz dessa distinção entre ser-aí e simplesmente dado, reserva-se categoria para os traços ontológicos do simplesmente dado e existencial (existenziale, plural existenzialia) para os traços ontológicos do ser-aí, sugerindo-se que a análise categorial tradicional, como as Categorias de Aristóteles e a Tábua de Categorias kantiana, funda-se numa concepção do ser como ser-simplesmente-dadoestudos/blattner/sz/existencia.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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