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Divisão II
BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.
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A introdução à Divisão II motiva a necessidade de um novo olhar sobre o ser do ser-aí (Dasein), exigindo-se assegurar que a interpretação oferecida seja primordial, o que requer demonstrar ter capturado a totalidade do ser-aí em sua unidade estrutural, confirmando-se primeiro se essa totalidade está de fato em vista, ponto a partir do qual se converge para o fenômeno da morte, dado que a analítica do ser-aí ainda não incorporou reflexão sobre a finitude temporal da vida humana
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Supondo que a morte seja um traço essencial da existência, sendo-se essencialmente mortal, surgiria o problema de não se poder experienciar a própria morte, restando saber como descrever fenomenologicamente algo inexperienciável
Como algo do caráter do ser-aí, a morte só é num ser existenciário para a morte, isto é, numa concepção existencial dela, devendo a morte ser reconcebida, no arcabouço da ontologia fenomenológica, como algo que faz parte da vida apenas na medida em que se a enfrenta, cabendo então à fenomenologia descrever a experiência de enfrentar a morte-
Não fica claro, contudo, que se deva necessariamente enfrentar a morte, podendo alguém morrer, como de fato ocorre, antes de ter tido tempo de pensar sobre ela ou confrontá-la, sendo a morte talvez traço essencial da existência sem que o ser-para-a-morte o seja
Pode-se ler a posição como sustentando que o ser-aí sempre e necessariamente possui ao menos algum senso incipiente da morte iminente, envolvendo a existencialidade (Existentialität), o compreender-se do ser-aí ao projetar-se sobre possibilidades de seu ser, um ainda-não intrínseco-
Compreender um fenômeno é ter domínio sobre uma gama de modos possíveis pelos quais ele pode ser o que é, e compreender-se a si mesmo é ter apreensão dos modos possíveis de conduzir a própria vida, os vários modos de ser existencialmente falando, podendo-se ser pai, professor, vizinho, cidadão, entusiasta de uísque, sendo esses modos de ser modos de viver, isto é, capacidades de navegar o mundo
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Interpretar-se a si mesmo como pai é avançar (pressing forward) na capacidade, exercê-la, agir a partir dela, o que aponta para o futuro, para o que se fará, havendo sempre mais por vir, um ainda-não na vida, sendo as vidas voltadas para frente, projetadas no futuro, questionando-se por que isso exigiria algum senso incipiente de finitude temporal
Charles Guignon defendeu um modo de responder a essa questão, a chamada interpretação narrativista, segundo a qual avançar para algum modo de compreender-se a si mesmo é projetar uma narrativa mais ou menos definida da própria vida, de como se antecipa que ela se desenvolverá-
Tal narrativa antecipatória deve incorporar alguma postura sobre ou interpretação da morte, não se podendo evitar a questão de quando a narrativa terminará, sendo necessário ter uma visão sobre a própria morte, alcançando-se assim a totalidade exigida ao se desenvolver uma narrativa da vida inteira
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A estratégia de Guignon tem a virtude de ligar a Wilhelm Dilthey, sabendo-se, tanto por II.5 quanto por Uma Recordação, que Dilthey desempenhou papel importante na formação inicial do pensamento em questão, mas apesar dessas virtudes há um grande problema, o de não se falar de narrativa, não sendo difícil ver por quê, uma vez que a narrativa é um fenômeno reflexivo, alcançando-se uma apreensão narrativa da própria vida ao recuar do fluxo imediato e refletir sobre o que faz tudo se unir, não operando a narrativa no nível de análise adequado para desempenhar papel central nesse pensamento
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Há ainda duas preocupações adicionais quanto à narrativa, primeiro por haver respeitos importantes em que se está em má posição para contar a própria história, sujeitos que se está ao autoengano, entre outras distorções, e segundo por não ficar claro por que reunir a própria vida numa totalidade narrativa deveria ser valioso, podendo-se valorizar esse exercício individualmente sem que se possa dizer que ele seja ontologicamente privilegiado a ponto de desempenhar o papel de constituir o ser-aí em sua totalidade, não sendo claro o que haveria de ontologicamente problemático em levar uma vida caótica ou mesmo em simplesmente recusar-se a pensar narrativamente sobre a própria vida
Sugere-se que está em jogo aqui o método pedagógico de desorientação, sendo a linha de pensamento anterior tão natural por refletir uma compreensão tradicional do que é ser um ser humano-
Os seres humanos nascem e são criados num ambiente social, desenvolvendo em algum ponto aspirações, e suas vidas frequentemente se organizam como histórias de tentativa de alcançar tais aspirações, morrendo-se em algum ponto
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Sabe-se que se morrerá algum dia porque se é animal, animal especial, talvez animal contador de histórias, mas animal ainda assim, sendo todos os animais mortais, havendo um ciclo de vida e morte, o que constitui indício de que algo está errado, sendo compreender o ser-aí como espécie especial de animal uma das interpretações tradicionais da existência humana rejeitadas logo no início de Ser e Tempo
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O foco na morte parece um caso em que teorias e opiniões tradicionais sobre o ser se infiltraram na compreensão vaga de ser que compõe o senso comum
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As mesmas questões levantadas sobre a narratividade podem ser levantadas sobre a mortalidade, perguntando-se por que a morte seria existencialmente importante, e o que ocorreria se não importasse realmente o próprio fim iminente, podendo-se ser um sensualista que planeja apenas continuar buscando prazeres até o fim, sendo a morte um traço biológico dos espécimes de Homo sapiens, podendo-se pensar quase qualquer traço biológico da existência como irrelevante, talvez a altura seja irrelevante, apenas algo a contornar, talvez a cor da pele seja irrelevante, talvez a morte seja irrelevante
Uma última observação sobre o texto da introdução à Divisão II diz respeito ao uso de aspas de estranhamento nas palavras começo, fim e entre ao iniciar-se a virada para a morte-
Quando e como a análise existencial recebeu alguma garantia de que, ao partir da cotidianidade, forçou a totalidade do ser-aí, esse ente desde seu começo até seu fim, para dentro da visão fenomenológica que fornece o tema, sendo a cotidianidade precisamente o ser que está entre o nascimento e a morte
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Se o ciclo biológico de vida e morte fosse central para a ontologia existencial do ser-aí, o uso de aspas de estranhamento seria inexplicável, dando-se assim razão para suspeitar de que, seja o que for que se entenda por morte, não se trata do término de uma vida humana, o conceito ordinário de morte
Se não se pode oferecer um argumento ontológico de que se deva tomar a morte como o término de uma vida humana como traço central da compreensão do ser-aí, resta perguntar por que a morte é aqui enfatizada-
A Divisão I toma como certa a capacidade do ser-aí de compreender-se a si mesmo ao avançar para uma autointerpretação em termos de um ou mais para-o-bem-dos-quais (Worumwillen), confirmando-se essa análise através da fenomenologia da angústia, na qual a estrutura da vida cotidiana se torna nítida ao entrar em avaria
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Não se perguntou, contudo, a questão inevitável de saber se existir é compreender-se a si mesmo em termos de para-o-bem-dos-quais fáticos, mas na angústia isso não é possível, em que sentido então se existe na angústia, sendo claro que se pode existir enquanto, angustiado, incapaz de se compreender a si mesmo, devendo o ser do ser-aí envolver mais do que a analítica da cotidianidade captou, não se tendo ainda a totalidade do ser-aí em vista
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A palavra morte é apropriada para nomear a condição em que não se pode compreender a si mesmo, sendo necessário aprofundar a analítica do ser-aí para compreender a própria possibilidade da morte nesse sentido existencial
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