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Discurso

BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.

  • O discurso (Rede) revela-se essencial à familiaridade com o mundo, estando a palavra alemã claramente ligada à linguagem, não sendo Heidegger o único filósofo do século vinte a situar a linguagem no centro do ser-no-mundo
    • John Dewey afirma que eventos psíquicos que ultrapassam meras reações de dor ou conforto difuso têm a linguagem como uma de suas condições
    • Wittgenstein, Davidson e Sellars sustentam posição semelhante, e Gadamer, discípulo de Heidegger, formula de modo mais heideggeriano que a linguagem não é apenas uma posse do homem no mundo, mas dela depende o fato de o homem ter um mundo
    • essas formulações compõem o que Charles Guignon chama de “constitutivismo linguístico”, a tese de que a existência humana só é possível dentro da linguagem, posição à qual Heidegger adere ao situar o discurso como equiprimordial à disposição e à compreensão
  • O constitutivismo linguístico heideggeriano é apenas aproximado, pois há passagens que o contrariam e Heidegger não restringe “discurso” à linguagem, entendendo por “discurso” algo mais amplo que a linguagem e por “linguagem” algo mais amplo que uma língua específica, começando sua análise pelo fenômeno da asserção

Asserção

  • A asserção tem sido o foco tradicional da atenção filosófica à linguagem por ser a forma de atividade linguística em que a estrutura das proposições mais aparece, servindo Heidegger dela como ponto de partida embora vise mostrar que a asserção é um modo “fundado” ou derivativo de dirigir-se ao mundo
  • A asserção é analisada como ato linguístico com três elementos — exibição, predicação e comunicação —, exemplificados pela asserção “meu gato Cheeto é laranja”, que exibe Cheeto, predica dele a cor laranja e comunica essa exibição e predicação
  • A exibição (Aufzeigung) adere ao sentido original de lógos como apófansis, deixar um ente ser visto a partir de si mesmo
    • uma asserção pode exibir um ente mesmo que este não seja visível ou não esteja sequer à mão, refutando a ideia de tornar algo presente aos sentidos
    • o exemplo célebre de Russell, “o atual rei da França é careca”, mostra que nem toda asserção se refere a objetos existentes, esclarecendo Heidegger em Problemas Fundamentais que ainda se está relacionado a entes mesmo ao afirmar algo sobre um ente inexistente
    • a exibição não nomeia uma relação palavra-mundo do tipo referência, mas observa fenomenologicamente que as asserções dirigem a atenção e o foco, tornando entes salientes de vários modos, sem que precisem estar à mão, ser visíveis ou sequer existir
    • o exemplo “se a pandemia durar mais dois anos, nossa civilização está condenada” ilustra uma asserção condicional que também torna saliente algo, sem se encaixar no molde sujeito-predicado
  • A asserção requer sempre uma posse prévia daquilo que já foi aberto, exibindo por meio de um caráter definido, não sendo um comportamento livre e autônomo capaz de abrir entes de modo primário, mas mantendo-se sempre com base no ser-no-mundo
  • A predicação restringe explicitamente a visão sobre aquilo exibido, de modo que o já manifesto se torne explicitamente manifesto em seu caráter definido
    • ao afirmar “minha gata Lulu é fofa”, a atenção não recai apenas sobre Lulu, mas sobre Lulu como fofa, restringindo-se o foco a um aspecto definido dela
    • a asserção, por fazer algo “explícito”, constitui uma forma de interpretação, apoiando-se, como toda interpretação, em posse prévia, visão prévia e concepção prévia
    • o predicado exprime a visão prévia, o respeito determinado em termos do qual os entes descobertos na asserção se tornam salientes, ao passo que a concepção prévia pertence a uma conceitualidade que já habita a linguagem, exemplificada pela diferença entre “este martelo é pesado demais” e “este martelo pesa novecentos gramas”
  • A comunicação, terceiro elemento da asserção, distancia-se dos modelos tradicionais, não sendo jamais algo como transportar experiências, opiniões ou desejos do interior de um sujeito para o interior de outro
    • o ser-aí-com já se manifesta essencialmente numa co-disposição e numa co-compreensão, compartilhando-se já um mundo e compreendendo-se já, na maior parte das vezes, uns aos outros
    • comunicar é deixar ver junto aquilo que se exibiu com caráter definido, partilhando-se com o outro o ente exibido em seu caráter definido, sendo o “partilhado” o próprio ser-para-o-que-foi-exibido, um ser em que se vê algo em comum
    • o exemplo de comentar sobre a gata Lulu numa sala de estar ilustra a constituição de uma orientação compartilhada, assim como dizer “vamos ser arrasados hoje à noite” ao assistir à apuração eleitoral não transmite informação nova, mas prepara o tom de uma noite longa e deprimente
  • A asserção revela-se, em suma, uma forma de interpretação expressa em linguagem, um exercício das capacidades que constituem a compreensão de fundo do mundo, não constituindo primariamente a relação com os entes e o mundo, mas dependendo do fenômeno mais básico da compreensão

Discurso

  • Heidegger introduz o discurso no segundo parágrafo do parágrafo 34, valendo-se de dois verbos alemães relacionados, “gliedern” e “artikulieren”, traduzíveis ambos por “articular”, sendo o primeiro mais próximo de articulação estrutural e o segundo de articulação expressiva, isto é, pôr em palavras
  • O discurso é existencialmente equiprimordial à disposição e à compreensão, não sendo derivado de nenhuma delas, suscitando-se cada faceta da abertura uma função distinta
    • a inteligibilidade de algo já está sempre estruturalmente articulada antes mesmo de qualquer interpretação apropriadora dela, sendo essa situação holística aberta pela compreensão, aquilo que se “tem de antemão” de toda interpretação
  • O discurso define-se como a articulação expressiva da inteligibilidade, sendo a capacidade de expressar a estrutura das coisas, fundamentando-se nela, por conseguinte, tanto a interpretação quanto a asserção
  • Aquilo que pode ser expressivamente articulado na interpretação, e mais primordialmente ainda no discurso, é o que se chamou de sentido
    • o dar sentido a canecas de café usando-as para beber café exemplifica um envolvimento entre outros entrelaçados numa matriz de possibilidades, que inclui também modos possíveis de ser ser-aí
    • os elementos dessa matriz “apontam para” ou “significam” uns aos outros, sendo a totalidade dessas indicações a significância
  • Aquilo que se articula estruturalmente como tal na articulação expressiva do discurso chama-se totalidade-das-significações, dissolúvel em significações, sendo as significações, como o que foi expressivamente articulado a partir do que pode ser articulado, sempre portadoras de sentido
  • A intelegibilidade do ser-no-mundo se exprime como discurso, sendo posta em palavras a totalidade de significações da inteligibilidade, acrescentando-se palavras às significações
  • O discursar é o modo pelo qual se articula “significantemente” a inteligibilidade do ser-no-mundo, corrigindo formulações anteriores no sentido de que no discurso não apenas se põe em palavras uma inteligibilidade prévia, mas também se a articula estruturalmente, o que constitui uma reafirmação do constitutivismo linguístico
  • A maneira como o discurso se exprime é a linguagem, um todo de palavras dotado de um ser “mundano” próprio, podendo essa totalidade ser encontrada como à-mão e decompor-se em coisas-palavras simplesmente dadas
    • essa sugestão inicial, de palavras como ferramentas afinal simplesmente dadas, é corrigida quando se pergunta que tipo de ser tem a linguagem, se pode haver algo como uma língua “morta”, implicando que as línguas têm o tipo de ser do ser-aí
    • em Problemas Fundamentais, afirma-se que a linguagem não é idêntica à soma total de palavras impressas num dicionário, mas, por ser como o ser-aí é, por existir, é histórica
  • Ouvir e calar são possibilidades pertencentes ao discurso falante, não sendo perturbações acústicas nem inscrições gráficas nem sequer palavras, tornando-se nesses fenômenos inteiramente clara pela primeira vez a função constitutiva do discurso para a existencialidade da existência
    • o ser-em e sua disposição se dão a conhecer no discurso e se indicam na linguagem pela entonação, modulação, ritmo da fala, “o modo de falar”
    • o discurso compreende não apenas palavras e gramática, mas também o modo de usar uma língua para comunicar, indo muito além da “semântica” em sentido estrito
    • há razão para estender o termo “linguagem” para além das línguas em sentido estrito, incluindo a linguagem corporal, a “linguagem da arte”, a dança, a jardinagem e muito mais, como modos de comunicação que expressam a compreensão das possibilidades em termos das quais as coisas fazem sentido e importam
  • A análise estrutural do discurso reflete a estrutura tripartite da asserção, sendo o discursar sempre discurso sobre algo, que não precisa necessariamente servir de tema a uma asserção, sendo aquilo de que se discursa sempre endereçado num respeito definido e dentro de certos limites
    • o comportamento expressivo e comunicativo — falar, escrever, mimar, dançar — é sempre sobre algo, exibindo entes de modo definido, dizendo algo sobre eles, exprimindo tanto uma compreensão das possibilidades em termos das quais os entes fazem sentido quanto uma sintonia com os modos como importam, sendo por meio dessas facetas que o ser-aí se exprime
  • Um dos aspectos do exprimir-se é o estabelecimento de um tom, exemplificado por anunciar de modo autoirônico “e agora, le pièce de résistance” ao trazer o prato principal de um jantar, ou pela diferença de tom entre vestir terno formal e vestir bermuda e camiseta, orientando em cada caso a experiência conjunta em direção ao mundo de modo diferente
  • Heidegger reorienta a abordagem da linguagem deslocando o paradigma da atividade linguística, deixando de ser a asserção o paradigma para dar lugar à poesia, à conversa fiada, ao gracejo e à canção, formas mais amplas e amorfas de comunicação
    • ao cantar Robert Johnson “hellhound on my trail” ou “blues falling down like hail”, não está fazendo uma asserção, mas exprimindo uma atmosfera compartilhada por quem escuta sua canção assombrada
    • a pesquisa filosófica terá de dispensar a “filosofia da linguagem” caso pretenda investigar “as coisas elas mesmas” e alcançar o estatuto de uma problemática conceitualmente esclarecida, o que exige ir além do estudo restrito da asserção
  • Qualquer uso concreto da linguagem, qualquer ato expressivo concreto, exibe as três facetas da abertura, tal como sintonias e interpretações, expressando entonação, modulação e ritmo da fala a disposição, e a conceitualidade que perpassa o uso da linguagem a articulação estrutural das possibilidades concretas do ser dos entes, não nomeando “discurso” uma ação concreta específica, mas uma faceta ou dimensão de tudo o que o ser-aí faz
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