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Cognição

BLATTNER, William D. Heidegger’s Being and time: a reader’s guide. London: Bloomsbury, 2006.

  • A ideia de que a cognição é um modo fundado do ser-em (In-Sein) é retomada a partir do §13 de Ser e Tempo, articulando-se com a análise da disclosedness (Erschlossenheit) já examinada e com a análise da investigação científica do §69b, ao mesmo tempo em que se introduz a questão de quando os entes passam a ser experienciados como objetos que se contrapõem a nós
    • A cognição, enquanto modo de ser-em, é descrita como absorção da preocupação (Besorgen) no mundo de que se ocupa
    • O peculiar do que está proximamente à mão (zuhanden) é retirar-se, no seu ser-à-mão, para poder ser autenticamente à mão, como no exemplo do martelo usado para pregar um prego ou do teclado usado para escrever um e-mail, que só se tornam focais quando algo dá errado
  • A observação (Beobachtung) é introduzida como tema específico do §13, questionando-se o que ela propriamente é
  • A possibilidade da cognição como determinação do ser do que está à mão exige uma deficiência prévia no lidar preocupado com o mundo, de modo que a preocupação se recolhe de todo produzir e manipular e assume o modo de mera demora (Verweilen) junto aos entes, deixando-os encontrar puramente pelo seu aspecto (εἶδος), abrindo assim a possibilidade de um olhar explícito
  • A passagem sobre o mero demorar-se junto aos entes constitui um exemplo de desorientação pedagógica, pois sugere que, ao recuar da ação engajada, os entes se mostrariam puramente pelo seu aspecto, como quando uma caneca de café passa a ser vista como um cilindro cinza de fundo fechado com uma alça, abstraída de seu papel na atividade cotidiana
  • A caracterização do simples olhar como retirada de todo engajamento não corresponde ao que a observação de fato é
  • O olhar dirigido a algo desse modo constitui, por vezes, um modo determinado de tomar direção para o que está presente à mão (vorhanden), assumindo de antemão um ponto de vista a partir do qual o ente encontrado é abordado, entrando assim no modo de morar autonomamente entre os entes intramundanos
  • Observar o mundo a partir de um ponto de vista pressupõe sempre uma compreensão prévia dos entes, antecipando a linguagem que Heidegger emprega mais tarde ao tratar da interpretação no §32
    • O olhar dirigido antecipadamente (vorsichtig) aos entes é descrito com a mesma linguagem da pré-visão (Vorsicht) que constitui parcialmente a interpretação, a qual seleciona uma abordagem específica a partir da compreensão das possibilidades de ser dos entes
    • A caneca de café pode ser olhada quanto ao que simplesmente parece, observada como caneca de café, ou contada por um supervisor de escritório entre as canecas disponíveis para os trabalhadores, sem que se beba dela, mas ainda assim compreendida como caneca, o que justifica a própria contagem
    • Observar um ente supõe sempre uma compreensão prévia (o ter-prévio, Vorhabe) do espaço de possibilidades em que ele se insere, e a partir daí a observação aborda o ente de um ângulo determinado, como caneca de café e não como teclado, de modo que fitar um objeto tentando não interpretá-lo em nada não constitui observação
  • A percepção envolvida na observação equivale sempre a uma forma de interpretação, exercendo uma capacidade que envolve conceitualidade e que se articula discursivamente, de modo que aquilo que é percebido e determinado pode ser expresso em sentenças e retido como o que foi assim asserido
  • Firma-se ao menos o compromisso com a tese hoje frequentemente formulada como todo ver é ver-como, segundo a qual até o mero ver pré-predicativo do que está à mão já é algo que compreende e interpreta, de modo que, para que um ente seja visto, ele deve primeiro estar disponível através da compreensão, que o projeta sobre um campo de possibilidades
  • Interpretar um ente e assim tomá-lo como algo determinado constitui um ato do entendimento, e, ao contrário das concepções tradicionais de Kant e de Husserl, que situam o ato nuclear da representação ou intencionalidade na predicação de um conceito a um sujeito, os conceitos predicados dos objetos observados exprimem uma apreensão prévia de todo um campo de possibilidades
    • Ver a caneca de café como caneca é, antes de mais nada, abordá-la exercendo a capacidade de beber café, forma de familiaridade e engajamento com o mundo e seus entes, ainda que às vezes ela seja apenas olhada, como na passagem em que se afirma que mesmo o mero saber, representar ou pensar sobre os entes não retira o estar em meio aos entes lá fora no mundo, tanto quanto quando são originalmente apreendidos
  • O simples pensar sobre os entes não deixa de ocorrer enquanto ser-aí (Dasein), enquanto ser-em-o-mundo, constituição básica do ser-aí, exercendo capacidades que projetam um campo de possibilidades em termos do qual os entes são interpretados como os entes que são
  • Para além do simples pensar e da observação prática, como a contagem de canecas num escritório, o desenvolvimento de uma interpretação sistemática do mundo ou de algum domínio de entes constitui a investigação intelectual sistemática, a ciência
    • O foco do §69b recai sobre o modo como a preocupação circunspectiva (Umsicht) se modifica em descobrimento teorético do que está presente à mão intramundanamente, voltando-se rapidamente para a gênese de um paradigma intelectual particular, a física matemática moderna
    • O contraste entre atividade prática engajada e investigação teorética é ilustrado pela sentença o martelo é pesado, que pode significar tanto a dificuldade de manejá-lo no contexto da oficina quanto a posse de massa sujeita à lei da gravitação no arcabouço conceitual da física moderna, sendo cada sentido tributário de uma conceitualidade distinta ligada a abilidades correspondentes
  • A noção de uma concepção existencial da ciência é introduzida em contraste com uma concepção lógica, que a compreende quanto a seus resultados como algo estabelecido sobre uma interconexão de sentenças verdadeiras, isto é, sentenças que valem como válidas
    • Assim como a práxis tem seu próprio modo específico de ver, a teoria, a investigação teorética não é desprovida de práxis própria
    • A investigação científica natural exige o exercício de toda sorte de habilidades, como ler medidores, preparar soluções para o microscópio e coletar amostras de modo limpo, habilidades que constituem uma compreensão dos entes expressa na conceitualidade específica da teoria científica sob cuja orientação os experimentos são conduzidos
    • Toda observação e todo experimento se conduzem no âmbito de abordagens científicas específicas que estruturam conceitualmente não apenas os resultados possíveis, mas também os instrumentos e contextos em que tais resultados são obtidos, abordagens incorporadas num conjunto de habilidades adquiridas pelos estudantes de ciência através da educação e do treinamento, sobretudo nas ciências naturais, o que explica a exigência de cursos de laboratório
    • A concepção de ciência é existencial não por remeter à culpa, à angústia ou à morte, mas por conceber a ciência como uma forma de comportamento, um modo de ser ser-aí, um modo de existir
  • Na investigação teorética, o ser-aí exerce um conjunto de habilidades que incorporam uma compreensão do domínio de investigação, compreensão que projeta um campo de possibilidades em termos do qual os objetos, métodos, resultados e instrumentos são interpretados como o que são
  • O que é filosoficamente primário não é nem uma teoria da formação de conceitos da ciência da história, nem a teoria do conhecimento histórico, nem a teoria da história como objeto da ciência da história, mas sim a interpretação dos entes autenticamente históricos quanto à sua historicidade
  • Toda disciplina ou área de investigação intelectual sistemática envolve uma conceitualidade específica, ou múltiplas conceitualidades concorrentes, que exprimem uma compreensão do espaço de possibilidades em termos do qual não só os objetos da disciplina, mas também seus métodos, instrumentos e resultados fazem sentido
  • Tais conclusões se aplicam igualmente ao estudo sistemático e intelectual da vida humana
  • Mesmo aquilo que está à mão pode se tornar tema de investigação e determinação científicas, como quando se estuda o entorno de alguém, seu meio (milieu), no contexto da biografia histórica
    • O contexto de equipamento à mão no cotidiano, seu surgimento histórico e sua utilização, e seu papel fático no ser-aí constituem objetos da ciência da economia, de modo que o que está à mão pode se tornar objeto de uma ciência sem perder seu caráter de equipamento, sem que isso exija necessariamente uma modificação da compreensão de ser em direção às coisas
  • Estudar teoreticamente o que está à mão não requer reinterpretá-lo como presente à mão
  • A física matemática moderna, foco central do §69b, reinterpreta os entes como presentes à mão
    • Na asserção física de que o martelo é pesado, ignora-se não apenas o caráter de ferramenta do ente encontrado, mas também algo que pertence a todo equipamento à mão, seu lugar, uma vez que os utensílios sempre pertencem a algum lugar, como ferramentas na caixa de ferramentas ou copos no armário
    • A física moderna rejeita a visão aristotélica de que os elementos têm um lugar próprio ou natural, como o ordenamento estratificado de terra, água, ar e fogo, de modo que o lugar de um ente se torna uma posição espaço-temporal, um ponto-de-mundo, de modo algum distinto de qualquer outro
    • O despojamento do caráter de envolvimento (Bewandtnis) do que está à mão é descrito como desmundanização (Entweltlichung), processo pelo qual a física matemática moderna desmundaniza os entes, afastando-se das características que fazem de um ente o utensílio específico que é, para atentar às feições matematicamente determináveis dentro do espaço de possibilidades projetado por sua compreensão de ser
    • A compreensão de ser que orientava o lidar preocupado com os entes intramundanos se transformou
  • A objeção de que a ciência natural procederia sempre de uma desmundanização dos utensílios do ambiente imediato, quando na verdade por vezes surge do assombro ou da curiosidade diante do mundo natural, é respondida lembrando que a natureza entra na experiência primeiramente como algo à mão, campo para plantar, força do vento, sol para o cultivo e para marcar o tempo, e por vezes como obstáculo, como uma tempestade da qual se abriga ou uma montanha que barra o caminho, de modo que mesmo o assombro e a curiosidade, ao conduzirem à investigação científica natural, envolvem uma desmundanização da natureza disponível no ambiente mundano imediato
  • Se a transformação da compreensão de ser não constitui a investigação teorética, o que a constitui é examinado a partir do exemplo do martelo, cuja substituição de uma conceitualidade por outra não vale para qualquer substituição, como tratar o martelo como obra de arte encontrada segundo a conceitualidade do minimalismo artístico, o que não conta como investigação teorética, distinguindo-se esta por deixar o modo de ser dos entes que estuda ser compreendido explicitamente
  • A articulação expressiva da compreensão de ser, a delimitação de uma área de assunto guiada por essa compreensão, e o esboço do modo de conceber apropriado a tais entes pertencem à totalidade desse projetar, totalidade que se denomina tematização
  • A investigação teorética tematiza, atenta ao arcabouço conceitual que emprega e circunscreve cuidadosamente os objetos de sua atenção para garantir um foco de estudo bem definido, sendo por isso disciplinada, ainda que isso não seja suficiente
  • A investigação teorética exibe ainda um tipo de pureza, cujo objetivo é libertar os entes que se encontram intramundanamente, de modo que possam lançar-se contra um descobrimento puro, isto é, que possam ser objetos, pois tematizar objetiva
  • O sentido dessa pureza do descobrimento teorético não corresponde a um descobrimento livre de compreensão interpretativa, algo inexistente no arcabouço heideggeriano, mas antes à possibilidade de a investigação científica ser por si mesma, não subordinada a nenhum fim prático ulterior
    • O foco temático da ciência na clareza de sua conceitualidade e no alcance de seu domínio de investigação reflete essa liberdade em relação a fins ulteriores, de modo que, dada a concepção existencial da ciência, o para-o-bem-do-qual (Worumwillen) de ser um pesquisador científico ou acadêmico não é intrinsecamente subserviente a nenhum outro para-o-bem-do-qual, podendo ser um modo pelo qual o ser-aí é em vista de si mesmo
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