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6 Conclusão
BLATTNER, William D. Heidegger’s temporal idealism. New York: Cambridge University Press, 1999.
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O trabalho de Ser e Tempo pode ser dividido em três grandes conjuntos: um conjunto inovador de categorias ontológicas, com destaque para uma ontologia do humano emergente na tradição existencialista; uma tentativa de vincular decisivamente a ontologia com a filosofia do tempo; e uma concepção nova de uma filosofia do ser, sendo que o primeiro conjunto é indiscutivelmente o mais bem-sucedido, enquanto a filosofia do tempo que ocupa o quarto final da obra fica entre as investigações ontológicas e a filosofia do ser planejada, nunca concluída, e sua localização reflete sua posição na arquitetura filosófica de Ser e Tempo.
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A filosofia do tempo em Ser e Tempo é absolutamente central para as conclusões filosóficas do tratado, tanto para sua interpretação final da ontologia do Dasein quanto para sua filosofia do ser pretendida, e não é um apêndice externo ou mera decoração em um sistema de outra forma integral, mas está em seu núcleo, e agora somos forçados a encarar as consequências do fracasso da filosofia do tempo de Heidegger, e se a filosofia do tempo é um fracasso, então todo o esforço de Ser e Tempo é questionado, e deve-se perguntar o que de Ser e Tempo pode sobreviver ao fim de sua filosofia do tempo.
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A ontologia do Dasein pode escapar do colapso de sua filosofia do tempo razoavelmente intacta, e deve-se simplesmente abandonar o aprofundamento que os §§65 em diante deveriam fornecer, e a única peça substancial da ontologia que se deve abandonar é a teoria da historicidade, e a integridade da ontologia do Dasein contrasta marcadamente com o fracasso quase completo da filosofia do ser planejada, e sem o suporte do idealismo temporal, o idealismo ontológico não tem base para se sustentar, e essa situação embaraçosa pode ajudar a entender alguns aspectos do desenvolvimento do pensamento de Heidegger após Ser e Tempo e em sua fase posterior.
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A temporalidade originária consiste em um múltiplo de aspectos não sequenciais da atividade, que Heidegger afirma serem subjacentes ao tempo como o experimentamos ordinariamente, e a direcionalidade teleológica, a determinidade afetiva e a presença em pessoa não são simplesmente aspectos do tempo, e a afirmação de Heidegger de que eles são - de que constituem um múltiplo temporal originário - baseia-se na tese de que eles podem explicar o tempo, e se esse raciocínio tiver sucesso, então Heidegger conquistou a premissa para seu argumento encapsulado no slogan “a potiori fit denominatio”, porque a temporalidade originária é o núcleo explicativo do tempo, ela é uma forma de tempo, e a própria afirmação de que a temporalidade originária é uma forma de tempo depende do idealismo temporal.
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Como o argumento para o idealismo temporal falha, não há razão para aceitar a tese de que a temporalidade originária é uma forma de tempo, e embora se possa conceder a Tese da Inatingibilidade, já que Heidegger a toma como tendo implicações temporais, não há mais razão para concordar com a afirmação de que o por-mor-de-que é futuro em algum outro sentido, e pode-se ainda concordar que o lançar-se adiante do Dasein em um por-mor-de-que explica por que ele visa os objetivos que tenta realizar, mas esse lançar-se adiante não é mais pensado como uma atividade essencialmente temporal, e a análise da atividade humana é profundamente guiada pelo que Heidegger chama de “lançar-se adiante em por-mores-de-que”, e esse lançar-se adiante não visa um objetivo realizável, e a Tese da Inatingibilidade é controversa e ontologicamente interessante, mesmo que no final não possa impulsionar uma nova análise temporal radical do ser do Dasein.
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A Tese da Inatingibilidade é logicamente conectada com duas das concepções mais controversas de Ser e Tempo: o dualismo existencialista de Heidegger e seu conceito de morte, e a Tese da Inatingibilidade é uma consequência do dualismo de Heidegger, e este último emergiu na defesa da Tese da Existencialidade, e a Tese da Inatingibilidade, por sua vez, fundamenta o conceito de morte, pois é uma condição para a possibilidade da morte existencial como Heidegger a concebe, e a conceituação de Heidegger da morte é central para seu desenvolvimento e argumento para o “ideal fáctico” da autenticidade, e a ontologia do Dasein que ele gera ao longo do caminho é intrigante e capaz de sobreviver ao fim dessa interpretação temporal.
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A teoria da historicidade não pode sobreviver, pois a concepção de Heidegger de historicidade na divisão 2, capítulo 5, de Ser e Tempo requer a explicação da temporalidade originária, e o que torna a abordagem de Heidegger à historicidade única também prova sua ruína: é uma concepção de uma historicidade não sequencial, assim como a temporalidade originária é uma temporalidade não sequencial, e a historicidade é o resultado ontológico de colocar uma entidade originalmente temporal no tempo sequencial, e a historicidade é, portanto, certamente dependente da temporalidade originária para sua legitimidade.
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Negar a historicidade do Dasein no sentido de Heidegger não é necessariamente negar que o Dasein é histórico em algum sentido mais convencional, mas se perde a justificativa para endossar a concepção específica de Heidegger de historicidade, e o próprio conceito de historicidade é vitimado pelo colapso da temporalidade originária, pois a historicidade é conceitualmente, e não apenas argumentativamente, dependente do arcabouço não sequencial, e a historicidade é o resultado de colocar um múltiplo temporal originário não sequencial no tempo sequencial, e não há concepção prévia de “história” que seja modificada pela aplicação subsequente do arcabouço conceitual da temporalidade originária.
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Embora a concepção de Heidegger de historicidade possa fornecer muito interesse na construção de uma explicação relacionada, ela não pode ser aceita inteiramente se se rejeita a teoria da temporalidade originária, e não há razão para conceber o passado simplesmente como uma herança, em vez de como uma série de eventos ou estágios de desenvolvimento, se já não se excluiu esses tipos de item da concepção originária do Dasein, e é a noção radicalmente não sequencial da temporalidade originária que faz esse trabalho de exclusão, e a explicação específica da historicidade, pelo menos na medida em que se pode deduzi-la da divisão 2, capítulo 5, portanto, depende da teoria da temporalidade originária e deve cair com ela.
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É somente depois que Heidegger abandona a ideia de que há alguma forma não sequencial de tempo que estrutura a atividade do Dasein e explicita seu ser que ele pode abraçar uma das teses cardeais de seu pensamento posterior: que o ser é presença, e essa tese é inconsistente com a análise da temporalidade originária do início, pois o Dasein não é presente primariamente de acordo com o Heidegger inicial, e a crítica de Ser e Tempo opera em dois níveis: Heidegger rejeita, e nunca reabraça, a identificação do ser com a presença para a cognição humana, e ele ataca a identificação do ser com uma forma temporal dominada pelo Presente em qualquer sentido, e a primeira rejeição repousa sobre a fenomenologia anticognitivista de Heidegger e a interpretação da existência humana, e não há evidência de que ele a abandone, mas a segunda crítica repousa sobre sua explicação da temporalidade originária.
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Com o fim da análise temporal “violenta” do quarto final de Ser e Tempo, o caminho está aberto para a tese posterior de Heidegger de que ao longo da história ocidental o ser significa presença, mesmo hoje e para Heidegger, e o colapso da análise temporal inicial da existência também coloca em questão seu objetivo final em Ser e Tempo, sua filosofia do ser, e a filosofia do tempo recebeu pouca atenção sistemática, e quanto à filosofia do ser, pode-se dizer que, embora Ser e Tempo nunca chegue exatamente ao seu tópico, o Heidegger posterior o faz, embora admitidamente em uma voz um tanto diferente, e depois de trabalhar através da argumentação da filosofia do tempo de Heidegger, e após reconhecer a conexão entre sua filosofia do tempo, especificamente seu idealismo temporal, e sua filosofia do ser, temos alguma base para especulação informada sobre por que Heidegger abandona o projeto inicial e nunca escreveu a divisão 3.
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A sugestão básica é que a filosofia inicial do ser de Heidegger é focada em seu idealismo ontológico, a tese de que o ser depende do Dasein, e esse idealismo ontológico é fundamentado em seu idealismo temporal, e se Heidegger chegou a acreditar que seu idealismo temporal era infundado, então ele também teria razão para abandonar seu idealismo ontológico, e isso caracteriza precisamente a transição do Heidegger inicial para o Heidegger posterior da filosofia do ser, e ele rejeita seu idealismo ontológico inicial e adota uma postura quase mística em relação à obtenção do ser, uma postura que não é nem idealista nem realista em nenhum sentido reconhecível.
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Na passagem de “Niilismo Europeu”, Heidegger afirma que Ser e Tempo é subjetivista porque representa o ser como dependente do Dasein, e ele argumenta que a razão pela qual Ser e Tempo se interrompe onde o faz é que ele reconheceu o caráter subjetivista de Ser e Tempo, e ele também deixa claro que não se vê retornando a nenhum tipo de “realismo” ou “objetivismo” sobre o ser depois de Ser e Tempo, e ele argumenta que um realismo ou objetivismo sobre o ser seria apenas outra forma de subjetivismo, e sua explicação disso é que o realismo ou objetivismo sobre o ser o coloca como estando dentro da relação sujeito-objeto, e por implicação, o subjetivismo também o faz.
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O subjetivismo em um sentido mais amplo é entendido como a afirmação de que a verdade do ser é algo compreendido, e Heidegger argumenta que o idealismo ontológico é subjetivista no sentido mais amplo porque representa a verdade do ser como estando dentro da relação sujeito-objeto, no caso, dentro da relação entre compreendedor e compreendido, e dizer que o ser depende do Dasein é afirmar compreender a verdade do ser, e o idealismo ontológico afirma especificar algumas das condições sob as quais “há” ser, e, portanto, afirma especificar algumas das condições da possibilidade da verdade do ser, e na medida em que a relação sujeito-objeto se tornou a relação entre compreendedor e compreendido, o idealismo ontológico atrai a verdade do ser para a relação sujeito-objeto.
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A interpretação verificacionista de Okrent sobre a verdade do ser também incorre no “antissubjetivismo” posterior de Heidegger, pois oferece uma explicação filosófica da verdade do ser, afirmando que o ser se obtém se e somente se é compreendido, e Heidegger posterior ainda acredita que o ser se obtém se e somente se o Dasein existe, mas ele não é mais um idealista ontológico, pois sua crítica da metafísica implica que não se pode ver o Dasein como uma explicação metafísica do ser, e em Contribuições à Filosofia, Heidegger altera sua formulação para contornar a implicação do idealismo ontológico, e “Da-sein” não designa mais um ente, mas sim um modo de ser que podemos alcançar quando pensamos a verdade do ser, e o Da-sein fundamenta a verdade do ser não como uma explicação metafísica, mas como um “sondar” ou “desbravar” a verdade do ser.
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O fracasso do argumento inicial de Heidegger para o idealismo ontológico não implica necessariamente a posição quase mística que lhe foi atribuída, e a alternativa seria retornar a um realismo temperado sobre o ser, mas tal realismo sobre o ser permanece subjetivista em um sentido mais amplo, de uma maneira objetável a Heidegger no final da década de 1930, e tal realismo ontológico, assim como o idealismo ontológico fracassado de Ser e Tempo, exige que se afirme compreender a obtenção do ser, e as objeções de Heidegger a tal afirmação pertencem à “dimensão mística” de seu pensamento posterior, e o foco de interesse nesses textos posteriores é mostrar que Heidegger toma o subjetivismo de Ser e Tempo como a falha principal de sua filosofia inicial do ser, e esse subjetivismo pode ser entendido em primeira instância como idealismo ontológico e, em última análise, como uma crença na inteligibilidade ou explicabilidade da verdade do ser.
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