Birault
BIRAULT, Henri. Heidegger et l'expérience de la pensée. Paris: Gallimard, 1978.
Por mais volumosa que seja, a obra aqui apresentada revela-se estranhamente incompleta. Nada sobre a morte, tão essencial ao ser dos homens que estes, abandonando seu antigo nome de “homens”, poderiam um dia ser chamados de “mortais”. Nada sobre a relação inabalável que os mortais, enquanto mortais, enquanto habitam nesta terra, não deixam de manter com os divinos ou os celestiais. Nada sobre o que Heidegger chama, de maneira bastante desconcertante, de “o perigo bom e, por isso mesmo, salutar”: a proximidade do pensamento com o canto dos poetas. Longe de qualquer extravagância poética e no reconhecimento de uma primeira partilha, o pensamento se aproxima ao máximo de sua essência quando descobre, inacessível e próxima, a margem paralela que a corrente do dizer a si mesmo, desde o início, construiu para si. Por fim, por ocasião do diálogo reflexivo do pensamento com os poetas, nada sobre a experiência marcante de uma nova palavra ou, melhor dizendo, de uma nova relação com a palavra. Pensar significa agora deixar-se dizer o que é digno de ser pensado. Pensar significa, portanto, ouvir. Ouvir já é falar. A escuta é a forma mais simples e mais elevada da palavra. Que palavra é essa que não é a palavra de um homem ou de um deus? É o murmúrio do silêncio, é o dizer de uma palavra sem origem e sem espessura que sempre, em cada coisa, se manifesta. Ela não expressa nada, não representa nada, não comunica nada. Ela apenas fala e tudo se transforma: as coisas nos olham, as coisas nos dizem algo, um mundo surge.
A palavra dos homens nunca é a primeira; é uma réplica, é uma resposta. Na ordem da correspondência sempre desajustada, ela permanece análoga ao logos originário, àquela essência da palavra que é a palavra da essência ou do ser. Assim, os mortais só são o que são porque se mantêm na escuta e na obediência a uma palavra que lhes é sempre dirigida e por eles quase sempre negligenciada. Eles só falam porque ouvem, só existem porque falam… Por um instante, uma relação de essência rasga o céu do pensamento: a relação ainda não pensada entre a palavra e a morte. Poder mágico de sua irrealidade comum, virtude imperceptível de um mesmo nada. O homem é o ser que fala mesmo quando não fala. O homem é o ser que morre enquanto não morre. A palavra não tem mais nada atrás de si e tudo está à sua frente: a terra e o céu, os homens e os deuses. Tudo aguarda essa nomeação inconsistente e soberana. Pensadores e poetas recolhem a palavra inexpressiva e significativa que sempre chama, designa ou convoca. Eles dão voz à palavra, fazem-na falar, deixam-na falar. Algo se diz: a palavra fala.
A exposição dessas lacunas mostra bem a extensão da dívida que gostaríamos de saldar algum dia. O mais próximo é o mais oculto, o essencial ainda nunca foi dito. O dizer não se deixa dizer, o indizível não é como o inefável — exterior ou estranho ao dizer, ele está no próprio dizer, ele é o querer dizer…
Paródia da conclusão de um prefácio de Heidegger: aqueles que pensam se instruem mais obstinadamente, mesmo diante do que falta, mesmo diante do que foi deixado de lado.
