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estudos:birault:pensar:technik-techne

Técnica

HBEP:367-370

(Parece claramente que a essência oculta da técnica determina hoje em dia não somente a própria essência da ciência mas ainda a relação do homem a tudo isto que é.)

A crise da metafísica ou da filosofia primeira não diz respeito a uma ciência específica que pudesse ser a rainha — hoje destronada, mas ainda intrigante — de todas as ciências. Ela diz respeito à própria essência do nosso mundo, ao alicerce histórico da nossa existência. De fato, a crise da filosofia é sempre, necessariamente, também a crise da ciência e da técnica europeias e ocidentais. Todas as ciências “saem” da filosofia. Elas saem dela em um duplo sentido: delas procedem e delas se afastam. As ciências são, ao mesmo tempo, incapazes de romper e incapazes de conceber a relação específica que mantêm, à sua maneira, com o pensamento. A essência da ciência moderna repousa hoje na essência da técnica. A técnica não deriva da ciência; pelo contrário, a essência da técnica rege a essência da ciência contemporânea. Citemos aqui apenas estas três proposições de Heidegger:

“1° A ciência moderna encontra seu fundamento na essência da técnica.

“2° A própria essência da técnica não é algo técnico.

“3° A essência da técnica não é uma potência exclusivamente humana que o domínio e a soberania humanos pudessem subjugar por meio de uma atitude moral adequada.”

Fica claro que a essência oculta da técnica determina hoje não apenas a própria essência da ciência, mas também a relação do homem com tudo o que existe. A essência da técnica escapa à própria técnica. Ela também escapa, de certa forma, às intenções ou disposições do homem. Os poderes da técnica não estão mais hoje em nosso domínio, porque nunca estiveram. Seria, portanto, inútil querer frear o desenvolvimento ou a investida propriamente fatal da técnica. Em contrapartida, uma tarefa se impõe ao pensamento: a de pensar, em sua origem Essencial e nas mutações bruscas de sua história, a essência da técnica.

Como a essência da técnica não é algo técnico, o pensamento sobre a essência da técnica também não se enquadra nessa forma de pensamento que Heidegger chama de das rechnende denken. Esse pensamento conta e calcula, mesmo quando não utiliza máquinas de calcular ou calculadoras eletrônicas. Em sua própria tecnicidade, ele realiza uma ordenação técnica do mundo. Essa ordenação não depende dos computadores; pelo contrário, é ela que comanda a montagem e o uso, hoje apenas iniciados, dos computadores. O pensamento calculista conta, estima, leva em conta. A filosofia dos valores não passa de uma forma derivada desse pensamento racional e calculista. Portanto, é absurdo querer recorrer a valores morais, por mais elevados que sejam, para condenar um determinado mundo da técnica como se esse mundo fosse a “obra do diabo”. O pensamento calculista ainda é um pensamento, mas esse pensamento é como uma fuga do pensamento diante do próprio pensamento. Cabe ao que Heidegger chama de das besinnliche Nachdenken pensar, ao mesmo tempo que essa própria fuga, a essência não técnica da técnica.

A afirmação de que a filosofia dos valores não passa de uma forma derivada do pensamento racional e calculista — ele próprio regido, no mais profundo de sua essência, pela essência moderna da técnica — permanece uma afirmação infundada enquanto nos for negada a dupla compreensão da técnica e da axiologia contemporâneas. Na falta de conquistar essa compreensão, vamos pelo menos levantar essa proibição.

Qual era, então, a essência original da técnica e qual é também o significado dessa mutação radical que a levaria a se voltar contra o próprio conhecimento para se apropriar de sua própria essência?

Técnica, em grego, diz-se techne, palavra que se aplica tanto à arte quanto à técnica. O técnico, o homem da técnica, é artesão e artista. A técnica, assim como a própria arte, tem um significado originalmente duplo: artesanal e artístico. A técnica, na singularidade enigmática dessa ambiguidade, diz respeito tanto às artes e aos ofícios quanto às belas-artes.

A técnica define-se como um saber-fazer. É, portanto, antes de tudo, um saber, e esse saber implica, como todo saber, um certo conhecimento, uma certa inteligência, uma certa compreensão. O homem da técnica é o especialista, aquele que entende do assunto ou que é versado nele, o conhecedor. Esse saber é, em um sentido muito geral, episteme, ou seja, ciência: a técnica tem, assim, um significado originalmente epistêmico que nos é ocultado por uma interpretação excessivamente “instrumental” da técnica. No entanto, somente esse sentido inicialmente epistêmico da técnica permite compreender sua constante afinidade com a ciência, sua rejeição a uma forma ultrapassada de ciência e, por fim, o caráter fundamentalmente técnico da ciência contemporânea.

A técnica é ciência ou saber, mas esse saber é, evidentemente, de um tipo totalmente particular: é um saber-fazer. O “fazer” não é o “agir”; os gregos dizem poiein e não prattein. À dualidade já muito conhecida do “teórico” e do “prático”, é preciso substituir a trindade menos conhecida do “teórico”, do “prático” e do “poético”. Nietzsche frequentemente denuncia a “distinção perigosa entre o ‘teórico’ e o ‘prático’” e pergunta, por exemplo, “se conhecemos outro método para agir bem além de sempre pensar bem”. A essa distinção, de fato perigosa, gostaríamos de acrescentar outra distinção, a do “prático” e do “poético”. O “poético”, ou melhor, o “poiético”, abrange o que às vezes chamamos de mundo da “criação” — uma palavra que, sem dúvida, já altera gravemente o significado original da poiesis. O fazer da habilidade técnica conduz ao ser, traz à luz. Esse surgimento pode ser chamado de pro-dução, ein (/termos/h/her-vor-bringen), como escreve Heidegger. Na medida em que a palavra physis, bem compreendida, também evoca esse desabrochar, esse revelamento e esse desenvolvimento, pode-se dizer que “a própria physis é poiesis no sentido supremo”.

Como saber e como saber-fazer, a técnica é, portanto, inicialmente epistêmica e poética: é um modo de entbergen, de revelação, uma forma de aletheuein, de desvendamento.

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