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HUMANISMO
BIEMEL, Walter. Martin Heidegger: an illustrated study. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1976.
A humanidade do homem (“Carta sobre o Humanismo”, 1946)
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A “Carta sobre o Humanismo” surge como resposta às questões de Jean Beaufret, filósofo francês visitado por Heidegger após a guerra, e inaugura uma amizade que permaneceria viva por décadas.
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A humanidade, entendida como o caráter humano do homem, constitui o centro da consideração sobre o modo pelo qual o homem deve ser pensado.
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A investigação sobre o homem costuma ser imediatamente compreendida como humanismo, mas Heidegger desloca a questão de Beaufret sobre um novo sentido para a palavra “humanismo” ao perguntar se tal necessidade é realmente decisiva para conceber a natureza do homem.
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A objeção de Heidegger não elimina a importância da questão sobre a natureza do homem, mas recusa que essa natureza seja definida a partir do ponto de vista já pressuposto pelo humanismo, cuja base metafísica prolonga o ponto de partida romano.
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O primeiro humanismo aparece em Roma como fenômeno especificamente romano, nascido do encontro entre romanidade e cultura helenística, e a Renascença italiana retoma esse modelo como studium humanitatis fundado na humanitas e em sua oposição ao barbarismo.
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Heidegger contrapõe ao humanismo histórico outras formas modernas de humanismo, como o marxista e o sartriano, nas quais a liberdade, a dignidade e a natureza do homem variam conforme o conceito de liberdade e de homem adotado.
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A crítica à base metafísica do humanismo atinge a determinação do homem pela ratio, pois tal resposta já pressupõe uma interpretação metafísica do homem sem reconhecer expressamente esse pressuposto.
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O discurso filosófico exige a busca daquilo que permanece implicado e pressuposto nas diversas suposições sobre o homem, em vez de apenas substituir uma hipótese metafísica por outra.
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A linguagem e o pensamento de Platão enfrentam a dificuldade de tornar acessível por exemplos sensíveis aquilo que só pode ser pensado, conduzindo do visível ao invisível para que o pensável apareça como o verdadeiro real.
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Heidegger enfrenta dificuldade análoga sem que seu pensamento deva ser tomado como platonismo, pois o Ser não é um ente, e o Nada indica aquilo que, a partir dos entes, parece sem ser, mas conduz ao próprio Ser.
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A metafísica já realizou a tentativa de ultrapassar os entes em direção àquilo que faz o ente ser ente, e Aristóteles a consolidou pela investigação dos entes enquanto entes e pela orientação onto-teológica para um ente supremo.
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Heidegger mantém uma disputa contínua com a metafísica sem procurar simplesmente superá-la por um fundamento ainda mais último, mas tenta uma virada que retoma o começo anterior a Platão e Aristóteles como recepção e doação do que se abriu nos primeiros pensadores.
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O retorno aos primeiros pensadores não representa nostalgia arcaizante nem abandono do progresso filosófico, mas reabertura das questões em que o digno de questão surgiu pela primeira vez e foi posteriormente encoberto.
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O projeto de Heidegger visa tornar acessível a dimensão que possibilita a compreensão do que é, sem reduzi-la às condições subjetivas do conhecimento, pois o aparecer dos entes deve ser pensado a partir da abertura e não a partir de um sujeito.
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A questão da abertura corre o risco de ser formulada metafisicamente como busca de causas e fundamentos, mas Heidegger tenta pensá-la de modo não mitológico e não metafórico a partir daquilo que já é pressuposto em todo juízo e discurso sobre os entes.
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A “Carta sobre o Humanismo” retoma, em relação à natureza do homem, a mesma questão da abertura trabalhada na verdade e na obra de arte, exigindo que o homem seja pensado em sua relação com a abertura.
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A clareira é concebida como o lugar da liberação dos entes para que venham à luz, e o homem só pode ter acesso aos entes porque, como Dasein, permanece no aberto e suporta a clareira sem poder apreender objetivamente o próprio Ser.
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A clareira não é um lugar neutro de aparição, mas ela própria se transforma historicamente, pois os entes aparecem de modos diversos na Antiguidade, na Idade Média e na modernidade, e o pensamento deve interrogar a mudança da própria clareira que a metafísica não pensou.
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A questão da humanidade do homem não é abandonada, mas libertada da compreensão humanista e metafísica, pois o homem só pode ser definido por sua relação com a clareira, como Dasein que permanece fora de si no aberto.
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O homem é encarregado de guardar a clareira, e sua humanidade se torna familiar apenas quando se compreende que ele é usado pela clareira como seu guardião.
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A humanidade do homem é posta à prova na tarefa pensante de realizar a relação do Ser com a essência humana, sustentando e articulando em linguagem a experiência da clareira, pois a linguagem é a casa do Ser.
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A tarefa do pensamento consiste em ajudar a clareira a encontrar expressão, guardá-la e torná-la acessível em sua natureza, dando continuidade à investigação de Heidegger sobre o Ser e a aletheia.
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A clareira é o próprio Ser na medida em que se torna acessível, e a verdade deixa de significar correspondência ou determinação dos entes para significar desocultamento como verdade do Ser.
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Ser, clareira, verdade do Ser e aletheia devem ser pensados em sua mesmidade, pois a ek-sistência do homem é a relação em que o Ser se instala como verdade e na qual a essência humana preserva a fonte que a determina.
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A ek-sistência não designa o esforço existencialista do homem por sua ipseidade, mas o permanecer fora na abertura que não é criada pelo homem e, contudo, fundamenta toda criação e produção.
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A “Carta sobre o Humanismo” compreende o homem não como vivente entre outros viventes, mas como o ente distinguido por sua relação com o Ser, de modo que sua dignidade supera todo humanismo centrado no homem.
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A interpretação técnica do pensamento impede perceber a dimensão visada por Heidegger, pois a lógica é apenas uma interpretação metafísica e instrumental do pensamento, consolidada desde os sofistas e Platão.
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O pensamento que abandona seu elemento degenera em técnica explicativa e instrumento escolar, enquanto a filosofia se transforma progressivamente em explicação por causas últimas.
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Heidegger opõe a essa técnica um pensamento que recebe sua força do Ser como seu elemento, de modo que pensar o Ser significa escutar o Ser e pensar a clareira em seu clarear.
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O homem já não é compreendido como sujeito que projeta interpretações possíveis dos entes, mas a partir de sua relação com o Ser, em uma dimensão que ultrapassa a metafísica e pergunta pela verdade do Ser.
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Pensar o Ser como proximidade ou cercania significa reconhecer a clareira como pressuposto de todo encontro com os entes, sem que isso encerre a busca em um saber definitivo, mas antes inaugure a tarefa de pensar historicamente a natureza do homem na clareira.
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A questão do Ser e a questão da verdade coincidem, pois a verdade como desocultamento é a clareira enquanto verdade do Ser, e a história só acontece quando o destino da verdade do Ser se manifesta e dela deriva.
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