Beistegui (2022:21-22) – ESTUPIDEZ E IGNORÂNCIA
A Universidade de Warwick, onde lecionei por muitos anos, é protegida por uma grande escultura de aço inoxidável retorcido de Richard Deacon. Como uma criatura mitológica, ela adverte os transeuntes com as palavras “Let's Not Be Stupid” (Não sejamos estúpidos). Como, você se pergunta, devo interpretar esse título desconcertante: como um aviso, um convite bem-humorado, uma provocação, uma exortação? Desde a Academia de Platão, as instituições acadêmicas têm se dedicado à busca do conhecimento e da verdade. Elas adotaram lemas nobres e ambiciosos, como Crescat Scientia, Lux et veritas ou simplesmente Veritas. No entanto, apesar de toda a sua aparente falta de ambição e clareza, eu gostaria de abraçar e defender o título de escultura de Deacon. Pois não consigo pensar em um lema melhor para uma instituição acadêmica do que um que nos proteja contra esse oponente “feio” ou “básico” (κακόν), que, segundo Sófocles, é o mais difícil de combater e talvez mais traiçoeiro do que a ignorância e o erro. Quando nos deparamos com a estupidez, seja ela própria ou de outra pessoa, nos sentimos desarmados, perdidos, incapazes de reagir e de nos envolver. De certa forma, poderíamos dizer que a busca do (22) conhecimento e da verdade, com os quais as instituições acadêmicas tendem a se identificar, é simplesmente o outro lado da luta contra a estupidez. Ao fazer isso, no entanto, estaríamos confundindo ignorância e estupidez. Pois não é possível ser ignorante sem ser estúpido e, ao contrário (e talvez de forma mais controversa), instruído e estúpido ao mesmo tempo? E a ignorância, pelo menos o tipo que se reconhece como tal, não é já uma forma de sabedoria, como acreditavam Sócrates e Cusanus? Nesse caso, precisaríamos distinguir entre dois tipos de ignorância: o tipo banal ou grosseiro (nescentia vulgaris), que é indesculpável (mas perdoável) e pode ser facilmente remediado, pois é a ignorância do que é eminentemente conhecível (Meno); e o tipo que excede a oposição entre conhecimento e ignorância, a ignorância erudita (docta ignorantia, gnose nesciente), da qual, em seus Nomes Divinos, o Pseudo-Dionísio, o Areopagita, nos diz que é o caminho tenebroso para o conhecimento e a iluminação. Mas há um terceiro e mais relevante tipo de ignorância, que Jankelevitch descreve como “erudita, pedante e pretensiosa”. Ela não pode ser reduzida nem à inconnaissance, que é a mera falta de conhecimento, nem à docta ignorantia, que é o caminho para o conhecimento genuíno. É a meconnaissance autossatisfeita, pontificadora e conquistadora: opaca, carregada de preconceitos (préjugés) e banalidades (lieux communs), cheia de estereótipos e clichês (Tenente Pirogov). É também, e mais grave, como diz Charles W. Mills, a forma cega, militante, agressiva e desagradável que sustenta a ignorância branca (ou masculina), o tipo de ignorância que também é um tipo de conhecimento e que outro filósofo crítico da raça descreve como o “centro invisível (ou não reconhecido)” a partir do qual os brancos, e especialmente os filósofos brancos, falam, escrevem e ensinam — o centro a partir do qual tudo faz sentido. O meconnaissant, conclui Jankelevitch, reivindica uma ciência como sua, mas de forma estúpida (sottement). É com esse tipo de estupidez — estupidez no conhecimento — que me preocuparei principalmente. E se menciono raça, racismo e seu lugar no discurso filosófico, é porque espero demonstrar que o conceito de raça de Kant, sobre o qual muito se escreveu, é um conceito estúpido. A lição a ser tirada será que existe algo como um conceito estúpido, ou seja, momentos estúpidos ou pontos cegos — um fulcro invisível, para usar a imagem de Yanci — no centro de toda construção teórica, e dentro de mim mesmo.
