Beistegui (2005:9) – NADA
(…) Atualmente, a literatura sobre sonhos e seus significados é abundante. Os sonhos são sempre entendidos como mensagens codificadas, como sinais escritos em uma linguagem misteriosa, que somente o especialista e o expert estão aptos a decodificar. Não importa o quanto sejam indiretos ou velados, sempre se pensa que os sonhos falam de algo, especialmente de nossos desejos e medos ocultos e reprimidos. Eles são essencialmente metafóricos. Heidegger, por outro lado, não diz praticamente nada sobre sonhos. Mas ele leva a sério a possibilidade da experiência de “algo” que chamamos de “nada”. Sério? Como podemos levar isso a sério? Como podemos sequer começar a falar sobre o nada, quando o nada é precisamente a ausência de algo sobre o que falar? Não deveríamos descartar isso como pura especulação ou bobagem metafísica, como fez um famoso positivista lógico do Círculo de Viena? Heidegger não apenas leva a sério a possibilidade de que haja algo no nada. Ele considera essa possibilidade como uma pista decisiva para investigar quem somos e, assim, desvendar o significado de nosso ser, que ele considera ser o próprio objetivo e a razão de ser da filosofia.
[BEISTEGUI, Miguel de. The New Heidegger. London: Bloomsbury Publishing, 2005]
