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CONCEITO FILOSÓFICO DE AMBIÊNCIA (2020)
BÉGOUT, Bruce. Le concept d’ambiance: essai d’éco-phénoménologie. Paris: Éditions du Seuil, 2020.
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Questionamento da necessidade de um conceito filosófico de ambiência, dada a aparente suficiência das formas pré-teóricas de conhecimento.
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A intuição sensível apreende adequadamente uma ambiência.
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As expressões da linguagem ordinária conseguem dar conta do que ela é.
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Coloca-se a questão sobre o que um conceito teórico traria de novo e essencial à experiência ordinária que se compreende por si mesma.
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Reconhecimento do valor da experiência quotidiana, mas crítica à pressuposição de sua pureza e auto-suficiência pela abordagem sensualista/pragmatista.
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As intuições e discursos ordinários não são critérios fiáveis porque estão contaminados por pré-noções.
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A experiência ordinária é constantemente infiltrada por discursos externos verificados ou não (técnicos, eruditos, políticos).
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A pré-compreensão imediata é frequentemente recoberta por objetivações.
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A camada fenomênica na vida quotidiana já é interpretada por formas teóricas cristalizadas na linguagem ordinária.
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Citação de Peter Sloterdijk sustentando que o linguagem ordinária não é terapia para a filosofia, mas muitas vezes mais “doente”.
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A noção de ambiência está impregnada por questões que a transcendem, exigindo uma elucidação filosófica que ultrapasse a experiência intuitiva.
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Desde sua origem histórica, a noção é lugar de um confronto entre uma visão positivista e uma visão simbolista do mundo.
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É necessário mostrar como a experiência é inspirada por teorias ocultas e construir um conceito filosófico mais pertinente.
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O desafio é tematizar a compreensão pré-temática sem recair em objetivações mitológicas, metafísicas ou cientificistas.
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Definição da tarefa fenomenológica como um duplo trabalho de desmontagem teórica e recomposição de uma inteligibilidade fiel à doação fenomênica.
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É preciso suspender os conceitos vulgares e eruditos para se ajustar à experiência antepredicativa.
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Deve-se construir uma tematização não arbitrária em contínuo diálogo entre intuição e conceito.
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O objetivo é contra a fixação a posteriori das intuições e pôr a descoberto a experiência concreta subjacente.
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Esta tarefa é necessária porque a camada pré-temática se basta e não se basta: possui uma compreensão pré-verbal, mas motiva e clama por tematização.
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Análise prévia dos conceitos existentes sobre ambiência, que revela uma multiplicidade de concepções mas um ponto de acordo comum.
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Ao sair da compreensão intuitiva, entra-se no domínio do debate polêmico e da desunião conceptual.
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As teorias divergem entre entender a ambiência como sentimento interno, como quasi-objeto ambiental ou como misto.
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O ponto de acordo é que o fenômeno põe em jogo uma correlação fundamental entre um estado afetivo e o entorno, uma ligação sujeito-objeto.
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Exemplo da análise de Moritz Geiger, que aborda a tonalidade afetiva a partir de uma inter-relação entre vivências e objetos.
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Os caracteres emocionais do ambiente influenciam a afetividade.
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O humor do sujeito empresta suas emoções específicas aos objetos.
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Há um conflito de vai-e-vem entre humor e caráter da paisagem, dificultando sua separação psicológica.
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Explicitação da natureza problemática da ambiência, que não é redutível nem a objeto nem a emoção subjetiva, mas parece relacionar as duas faces.
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Uma ambiência não é uma coisa, embora seu modo de ser pareça próximo por estar ao redor.
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Uma ambiência não pode ser reconduzida simplesmente à esfera das emoções, que são internas.
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O fenômeno só é apreendido considerando a alternância imperceptível entre sentimentos e caracteres que se respondem mutuamente.
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Segundo Geiger, usa-se o mesmo adjetivo para um estado psíquico e uma paisagem devido a essa indistinção.
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O papel fundador de Heidegger, que com seu conceito de Stimmung tentou superar a relação sujeito-objeto, influenciando as abordagens contemporâneas.
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Os pensadores da ambiência retomam a tese anti-dualista de Heidegger.
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Eles afirmam que a ambiência põe em suspeita a divisão sujeito/objeto e escapa a essa partição tradicional.
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Contestam a ideia de que a ambiência seja projeção de um humor ou introjeção de uma qualidade do meio.
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A ambiência é concebida como uma forma de experiência pura, pré-interpretativa.
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Identificação de três interpretações possíveis para o caráter pré-dualista da ambiência, após o acordo mínimo heideggeriano.
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Posição dialógica: a ambiência nasce de um diálogo incessante e é ontologicamente ambígua, participando ao mesmo tempo do sujeito e do objeto.
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Posição sintética: a ambiência é um terceiro fenômeno, um tipo de ser inédito resultante da fusão total do subjetivo e do objetivo.
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Posição autóctone: a ambiência é um terceiro ser autônomo, cuja essência fenomenológica transcende suas condições psicofísicas e possui modo de ser próprio.
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Esclarecimento de como cada posição concebe o “intermediário” na ambiência.
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Posição dialógica: o intermediário é relação (inter), resultado do entrecruzamento entre sujeito e objeto.
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Posição sintética: o intermediário é mistura (mixtion), um ser próprio que é a fusão dos anteriores.
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Posição autóctone: o intermediário é autonomia, um ser originário que se sustenta entre sujeito e objeto sem ser seu produto.
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Defesa da posição autóctone como a mais rara e difícil, mas como a que será seguida, rejeitando as outras por permanecerem no dualismo.
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As posições dialógica e sintética, apesar de sua intenção, permanecem enredadas na lógica do dualismo sujeito/objeto.
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A ambiência obriga a pensar fenômenos que rompem com a lógica da projeção e da junção.
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Ao aparecer, uma ambiência não manifesta relação visível nem fusão sintética entre vivências e coisas.
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Proposta de uma lógica inédita da “imersão” para substituir a lógica tradicional da “projeção” e captar a imersão pré-dualista na situação.
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A ambiência expressa o sentimento de uma imersão total, fundindo-se tonalmente no que está entre os elementos.
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É necessário desmantelar o modelo “projetivo” e descobrir o fundo oceânico e pré-dualista do mundo.
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A lógica imersiva é uma tentativa de restituição filosófica de fenômenos atmosféricos que escapam às divisões tradicionais.
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Ela visa superar o ponto de vista pontual da relação sujeito-objeto para considerar a situação originária em seu conjunto.
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Caracterização do regime da imersão como capaz de dar conta da porosidade da existência ao meio, em contraste com a consciência intencional.
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Liberta do primado do objeto, a imersão permite à vitalidade da experiência ambiental se expandir livremente.
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As ambiências são sondagens vivas na experiência primordial, fazendo-nos sentir o que nos engloba como totalidade.
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A perspectiva imersiva visa alargar a concepção de ser e descobrir fenômenos não circunscritos pelas categorizações tradicionais.
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A experiência do mundo é antes um continuum de presença medial e englobante, anterior a qualquer relação entre substratos distintos.
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