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Evocando a conferência de Lyon de 1977, Le chemin de Heidegger, e o rol de rótulos atribuídos a Heidegger — irracionalista, ateu, niilista, detrator da ciência, contemptor de valores, regionalista, pangermanista e mesmo existencialista —, interroga-se o sentido da frase de Qu'appelle-t-on penser?, segundo a qual os homens modernos teriam através dos séculos agido demais e pensado de menos, tão paradoxal quanto a célebre “a ciência não pensa”, proferida por Heidegger ao retomar seu ensino após a guerra
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Explica que essa proposição deve ser entendida elevada ao quadrado, no sentido em que a essência do esquecimento é o esquecimento do esquecimento, pois quem sabe ter esquecido ainda não esqueceu de todo
Sobre o que faz a ciência, se não pensa, esclarece que ela explica, distinguindo pensar de explicar, sendo explicar reduzir tudo a um projeto de conjunto cuja ponta é o que Heidegger chama projeto matemático da natureza, idealmente imanente a toda ciência, mesmo quando não estritamente matemática, como na biologia, na história ou na lei tendencial da baixa da taxa de lucro em Marx, remetendo à fórmula de Bergson segundo a qual a ciência moderna é “filha das matemáticas”-
Precisa, citando Heidegger, que mesmo onde o saber científico não desemboca em cálculo estritamente matemático, nele reina o cálculo de modo ainda mais implacável por já não precisar de números
Pedido um exemplo de cálculo não matemático, cita o esquema “se… então” que Heidegger identifica em Sein und Zeit como próprio do pensamento calculante, ilustrado pela frase atribuída a Napoleão sobre o czar e o bloqueio continental, e pela de Voltaire sobre a necessidade de inventar Deus caso não existisseQuestionado se haveria alternativa rigorosa entre pensar e calcular, nega tratar-se de alternativa estrita, esclarecendo que o projeto de calcular tudo não é ele mesmo resultado de um cálculo, mas decisão filosófica tomada no século XVII por Galileu e depois por Descartes, os quais, ao calcular, pensavam antes como filósofos-
Contrasta o cálculo de Galileu sobre a proporcionalidade da velocidade ao tempo de queda dos corpos com a recusa cartesiana em ver ali mais que uma aproximação, acusando Galileu de extrapolar
Sobre a diferença entre ciência e filosofia, examina a afirmação galileana no Saggiatore de que o livro do mundo está escrito em língua matemática, mostrando não se tratar nem de proposição matemática nem física, mas do que Heidegger chama ein Satz ins Sein, um salto no ser, equiparável à fórmula cartesiana de que a natureza age matematicamente em tudo, ambas proposições de filósofoConfirma que Galileu e Descartes pensam, mas não a ciência por eles instaurada, que apenas calcula, sendo somente dois séculos depois que a ciência passa a imaginar-se pensante quando apenas calcula, confusão batizada de positivismo, traço mais próprio da época, em que os homens de ciência tomam por filosofia a idolatria do cálculo científico-
Cita a passagem final de Le hasard et la nécessité de Jacques Monod, de 1970, sobre sociedades tecidas pela ciência e dela dependentes como um intoxicado de sua droga
Sobre se a ciência se assemelharia mais a uma intoxicação do que a um exercício de pensamento, interroga se seria possível desintoxicar-se da ciência sem anular o pensamento, propondo remontar até o pensamento de Descartes e Galileu, mas questionando se esse retour amont, na expressão de René Char, bastaria, já que a questão ressurge quanto à razão de tal projeto-
Confronta a resposta positivista, segundo a qual o projeto científico se impõe por ser “mais verdadeiro”, com a observação kantiana de que a leitura matemática do étant consiste em nele soletrar fenômenos, opondo-a à leitura grega presente na Física de Aristóteles, que Alexandre Koyré qualificara de modelo irremediavelmente ultrapassado, citando ainda Heidegger ao comparar tal pretensão à ideia de que o teatro de Shakespeare representaria progresso sobre Ésquilo
Conclui que a ciência moderna não é mais verdadeira que o saber antigo, mas verdadeira de outro modo, no sentido da mutação da verdade em certeza, decisão filosófica de Descartes e Galileu que não é inteiramente transparente a si mesma, exigindo remontar ainda mais alto no retour amontSobre a proximidade entre a floração da natureza e a obra do artista, mais estreita, segundo Aristóteles, do que entre essa floração e uma equação matemática, e a zombaria de Pascal quanto à definição aristotélica do movimento no pequeno tratado sobre o espírito geométrico, defende que, sob o jargão criticado por Pascal, Aristóteles buscava captar o entremeio da transformação, ilustrado pelo vaso que já começa a ser desde a escolha do barro-
Aproxima essa definição da frase de Rivarol sobre o movimento entre dois repousos como imagem do presente entre o passado e o porvir, e sobre o tecelão que sempre faz o que ainda não é, frase que impressionara Ernst Jünger, tradutor de Rivarol ao alemão, e que este submetera a Heidegger, capaz de discernir nela o eco aristotélico
Interrogado sobre a frase final do texto sobre Nietzsche em Chemins qui ne mènent nulle part, segundo a qual o pensamento só começa quando se experimenta que a razão, há séculos magnificada, é o mais obstinado adversário do pensamento, corrige a tradução de “adversário” por “inimigo”, afastando a leitura irracionalista dessa fórmula, e insistindo em que o retour amont é trabalho de desintoxicação do cálculo até sua origem no pensamento, para o qual não basta a remontada husserliana até DescartesDiante da nota de Nietzsche de 1881, escrita em francês, “não é essa minha tarefa: desnaiar os sábios”, esclarece, citando outro texto nietzschiano da mesma época sobre a candura que confina com a estupidez dos homens de ciência, que Nietzsche visava antes o peso de responsabilidade sentido quando se percebe que todos os valores, entre os quais o verdadeiro, acabam por arruinar o homem-
Distingue essa proposta nietzschiana, que faria dos sábios zeladores da vontade de potência, da proposta heideggeriana de remontar da ciência até o pensamento, sugerindo que o único conselho possível aos homens de ciência seria ocuparem-se da pergunta “o que é a filosofia?”, em vez de convocar a filosofia a justificar-se diante deles
Diante da citação de Paul Valéry em Regard sur le monde actuel sobre a filosofia não devendo ser ancilla scientiae assim como não o é ancilla theologiae, concorda que Heidegger aderiria a essa posição, ressalvando que filosofia e ciência fazem dois como fazem dois a fonte de um rio e sua foz, sendo da filosofia que provém a ciência quando se remonta à fonte grega-
Cita o paradoxo heideggeriano, formulado na Conferência de Cerisy de 1955, segundo o qual jamais teria havido ciências se a filosofia não as tivesse precedido, abrindo-lhes o caminho, ao passo que hoje as ciências se pretendem saídas da filosofia como de uma prova superada
Conclui que desnaiar os sábios, no sentido heideggeriano e não nietzschiano, seria pedir-lhes que fossem menos esquecidos de si mesmos, reconhecendo que Heidegger fala não contra a ciência, mas por ela, em busca de mais luz sobre o que lhe é radical, confessando não ter ainda encontrado entre os homens de ciência esse pássaro raroSobre o risco de não se realizar essa remontada até a fonte, adverte que seremos então arrastados pela corrente, sem que se possa dizer até onde, remetendo aos versos de Goethe sobre o rio que, qualquer que seja o que nele se espelhe, nada pode deter em seu curso rumo à jusanteestudos/beaufret/towarnicki/7.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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