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estudos:beaufret:towarnicki:4

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  • Interrogado sobre a afirmação de Dialogues avec Heidegger segundo a qual Sein und Zeit não seria a tese de Heidegger sobre o ser, mas o não-dito da própria palavra grega da qual a filosofia permanece herdeira, esclarece que tal não-dito não se ajunta às teses metafísicas sucedidas de Platão a Nietzsche, mas constitui o não-dito da metafísica mesma, locução frequente em Heidegger a partir de certa data
    • Distingue esse não-dito do exercício escolar de completar uma frase com a palavra que falta, exemplificado pela frase sobre a comida do camponês, remetendo à definição leibniziana, nos Nouveaux Essais, de resolver um problema como completar uma proposição parcialmente em branco
    • Ilustra esse tipo de não-dito, próprio da ciência, com o não-dito da geometria euclidiana segundo Lobatchevski, a saber, que a proposição da paralela única não depende dos demais axiomas, e com o não-dito da física pré-relativista apontado por Einstein, a incomparabilidade da velocidade da luz com as demais velocidades
  • Contrapõe a esse não-dito de lacuna a preencher o não-dito heideggeriano, entendido como recusa positiva em se deixar dizer, distinguindo em grego a negação ou, mera constatação de ausência, da negação me, que implica interdição
    • Ilustra essa recusa com a última palavra de Arquimedes ao soldado romano que o mataria enquanto traçava figuras na areia, “não perturbes meus círculos”, interdição e não simples ausência
  • Interrogado se o não-dito significaria também não pensado, esclarece que a recusa em se deixar dizer não decorre de falta, mas de excesso de manifestação, citando a frase de Aristóteles no livro pequeno alfa da Metafísica sobre os olhos dos animais noturnos diante da luz do sol, fio condutor de toda a busca heideggeriana do não-dito da metafísica
    • Remete ao Zur Sache selbst husserliano e à observação de Heidegger, a propósito de uma frase de Kant na Crítica da razão pura, segundo a qual o próprio direito a que se deve ir permanece profundamente velado
  • Sobre a dificuldade de conceber um fenômeno que não se vê por excesso de presença, esclarece que, segundo Heidegger, ao contrário do que pensava Aristóteles, tal dificuldade não está em nós, mas na própria coisa, que nela mesma recusa mostrar-se
  • Interrogado se o poeta experimenta essa mesma recusa do fenômeno, situa aí a maior diferença entre poesia e pensamento, Dichten und Denken, retomando a fórmula de Introdução à metafísica de 1935 sobre a igualdade de nível entre filosofia e poesia, igualdade que, segundo Hölderlin, só ocorre sobre montes que suas cristas separam
    • Cita longamente um texto de juventude de Nietzsche, recolhido em Le livre du philosophe, anterior a Aurore e ao Gai Savoir, no qual este hesita entre arte e ciência para definir a filosofia, aproximando-a da poesia e, por fim, da fundação de religiões, evocando ainda Heráclito, que nunca envelhece, e Kant como fenômeno curioso de saber e crença
    • Qualifica esse texto nietzschiano, entrecortado e pontuado de exclamações, como um méli-mélo em que o filósofo aparece como espécie de artista que procede por conceitos, aparentado antes à fundação religiosa que à ciência ou à arte, méli-mélo que Heidegger considera próprio dos confusionistas mais resolutos, os “bons espíritos” da época
    • Contrapõe a essa confusão a posição sóbria de Heidegger, para quem a filosofia nada tem a ver nem com a ciência, nem com a religião, nem com a função mitopoética evocada por Platão no livro II da República a propósito do mytho­poios, sem dúvida Homero, reconhecendo à filosofia, enquanto ofício de pensar, paridade apenas com a poesia
    • Evoca a anedota das estátuas de Homero e Aristóteles na Universidade de Friburgo, entre as quais o estudante é obrigado a passar para nela entrar, e que um certo reitor quisera suprimir, sendo Heidegger favorável a mantê-las
    • Situa nesse mesmo plano, misturando domínios, Hegel e Hölderlin, Homero e Aristóteles, e até a Crítica da razão pura e o Parthenon, ressalvando que a dificuldade não é idêntica de um lado e de outro, sendo menos árduo restituir o étant ao esplendor de sua harmonia nativa, na fórmula de Baudelaire, do que fazer a linguagem portar a diferença entre ser e étant, muito embora, de ambos os lados, a palavra esteja igualmente a serviço da língua, e mesmo, na expressão de René Char, “ofício de ponta”, nos avant-postes desse serviço
  • Interrogado sobre o que é, para Heidegger, o não-dito da filosofia, define-o como precisamente a diferença entre ser e étant, em certo sentido sempre pensada mas em parte alguma suficientemente diferenciada, remetendo à fórmula de Valéry sobre os censores que repensam o que nunca foi pensado o bastante
    • Descreve o pensamento heideggeriano como retrocesso do dito até o não-dito nele abrigado, cuja elevação à linguagem esclareceria e transfiguraria o dizer anterior, transfigurando tanto Platão quanto Aristóteles, Descartes quanto Leibniz, Kant quanto Hegel ou Nietzsche
    • Contrasta esse retrocesso com o ofício do poeta, relatando o primeiro encontro entre René Char e Heidegger em Paris, em 1955, sob um castanheiro de Ménilmontant, quando Char afirmou, durante o jantar, que o poema não tem memória e que tudo o que se lhe pede é ir adiante, ao que Heidegger, já passada a meia-noite, sussurrou concordando que a palavra de Char acertara em cheio, opondo a esse avanço do poeta o Schritt zurück, o passo que retrocede, o retorno a montante próprio de seu próprio caminho
    • Esclarece que o livro Retour amont de René Char, cujo título coincide com essa imagem, ainda não existia na época do encontro sob o castanheiro, vindo a ser publicado cerca de dez anos depois
  • Questionado se a questão do esquecimento do ser não teria sido de fato respondida por todos os filósofos de Platão a Nietzsche, responde que estes nunca deixaram de falar do ser, o que exporia quem o negasse à refutação do primeiro tomista, já que santo Tomás não se esqueceu de falar do ser, mas que sempre falaram dele na dimensão do esquecimento, esquecimento que se torna cada vez mais esquecido de si mesmo até constituir hoje um fato consumado
    • Identifica no esquecimento da própria fonte da filosofia, esquecimento ao quadrado, a medida diametral da chamada filosofia moderna, que por isso considera ociosa a busca heideggeriana da fonte através do latim escolástico, de Descartes ou Leibniz, até o grego de Platão e Aristóteles e mesmo anteriores a eles
    • Cita a observação de Husserl a Heidegger, então seu assistente em Friburgo, perguntando o que ele ainda fazia com “essas velhas testemunhas” ao fazer os estudantes lerem o capítulo X do livro Theta da Metafísica de Aristóteles, e uma observação semelhante ouvida de Gabriel Marcel numa sessão da Société de Philosophie sobre o Sofista de Platão, que dizia não ler havia muito tempo
    • Contrapõe a esse desinteresse pela leitura dos filósofos, tido por Heidegger como urgência primeira de quem busca aprender o ofício de pensar, a frase de Nietzsche sobre o devir que arrasta atrás de si o ter-sido, e a de Marx no Dezoito Brumário sobre a tradição das gerações mortas como pesadelo sobre o cérebro dos vivos
    • Cita, em contraponto, a declaração do próprio Heidegger por ocasião de seu octogésimo aniversário sobre o perigo, para o pensamento contemporâneo, de não ter mais relação verdadeiramente originária com sua própria tradição, e uma passagem de Nietzsche em Le voyageur et son ombre sobre uma nova culminação da humanidade possível ali onde a Europa dos povos não é mais que um esquecimento opaco, mas onde a Europa ainda vive em trinta velhíssimos livros que jamais envelheceram
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