estudos:beaufret:nascimento-filosofia-1973
Nascimento da Filosofia (1973)
JBDH1
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A questão sobre a origem da filosofia é inicialmente posta como problemática
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Surge a suspeita de que a filosofia, como a linguagem ou a desigualdade, poderia ser sem origem
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A resposta depende da definição de filosofia adotada
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Se for entendida como o exercício de ideias gerais e contraditórias, ela é imemorial
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Se for uma maneira específica de pensar, como em Hegel, ela pode ter surgido em um momento histórico
A análise etimológica e histórica da palavra “filosofia” aponta para um nascimento específico-
O termo é um empréstimo direto do grego presente em praticamente todas as línguas
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O léxico grego relacionado (philosophos, philosophein) surge apenas a partir do século V a.C.
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O substantivo “philosophia” é cunhado e estabelecido por Platão no século IV a.C., indicando uma novidade
A definição de filosofia como “amor à sabedoria” é uma interpretação latina que pode obscurecer seu sentido grego-
Os gregos não opunham rigidamente sabedoria (sophia) e ciência (episteme)
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A teoria (theoria) não se opunha à prática (praxis), mas era considerada a mais alta forma de praxis
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Para Platão, a filosofia e a política eram as duas ocupações essenciais do homem livre
A filosofia emerge de um “pivotamento” ou mudança no modo de olhar para o mundo-
A questão deixa de ser sobre um ente particular (uma montanha, uma casa) para ser sobre o ser desse ente
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Trata-se de considerar a montanha, a casa, a árvore enquanto “sendo”, focando no que se retrai na palavra “ente”
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Esse olhar para o modo de aparecer do aparecente é a origem da filosofia
Os primeiros pensadores gregos, os Pré-Socráticos, inauguram essa questão do ser-
A denominação “Pré-Socráticos” pode ser enganosa, sugerindo um estágio primitivo ou inferior
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Eles são, na verdade, iniciadores que abrem caminho com uma súbita e desconcertante originalidade
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Seu pensamento não é um balbucio, mas uma formulação inaugural e profunda
O pensamento de Heráclito ilustra essa nova abordagem do ser-
O fragmento 18 fala do “inesperado” e “incomum”, que vai além das qualidades acessíveis dos entes
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Heráclito nomeia esse plano fundamental com a palavra “kosmos”
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Kosmos não significa “mundo” ou “universo” no sentido de totalidade
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Significa antes uma disposição, um arranjo que faz as coisas brilharem em seu esplendor, como uma joia ou ornamento
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É o ajuntamento antagônico que une os opostos (dia-noite, guerra-paz, vida-morte)
O kosmos é anterior até mesmo aos deuses e é a condição para que tudo, inclusive o divino, apareçaParmênides, tradicionalmente visto como oposto a Heráclito, também expressa a unidade do ser-
Sua fala ressoa com a de Heráclito ao dizer a unidade do mesmo no outro
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O reino descrito por ambos é o do kosmos, entendido como o fulgor do ser
A filosofia nasce, portanto, de uma cisão na fala e no pensamento-
A fala poética (exemplificada por Homero) via dentro do kosmos, mas não o via como kosmos
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A fala filosófica (de Heráclito e Parmênides) volta-se expressamente para dizer o kosmos, o modo de aparecer
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Essa cisão é única no mundo e caracteriza o início do pensamento ocidental
Um contraste com o pensamento não-filosófico é ilustrado pelo exemplo de Zhuangzi-
A anedota da “Árvore Inútil” oferece uma reflexão profunda sobre a utilidade e a existência
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No entanto, essa reflexão opera em um registro diferente do filosófico grego
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Enquanto Zhuangzi reflete dentro do mundo dos entes e suas relações, Platão investiga a estrutura do ser que permite o erro e a aparência
Com Platão e Aristóteles, o pensamento inicial sobre o ser sofre uma transformação decisiva-
A filosofia é definida por Aristóteles como o estudo do ente enquanto ente
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O conceito de “comum” (koinon) adquire centralidade: o ser é o mais comum a tudo
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Paralelamente, o ser também passa a ser pensado como divino
Essa dupla determinação do ser (como comum e como divino) gera a tensão fundadora da metafísica-
A metafísica aristotélica é tanto ontologia (estudo do ser) quanto teologia (estudo do divino)
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O divino em Aristóteles é um modo de ser verbal, não um ente supremo no sentido nominativo
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Esta concepção abre, contudo, a possibilidade para uma exploração religiosa posterior da filosofia
A apropriação cristã da filosofia grega, exemplificada por Tomás de Aquino, funda-se em um mal-entendido-
Tomás identifica o Deus da revelação (“Aquele que é”) com o ser da filosofia grega
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Para Aristóteles, o divino é um modo de ser; para a teologia cristã, Deus é um ente supremo
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Filosofia (questão do ser) e Revelação (anúncio de um ente divino) são, no sentido de Leibniz, “disparatados”
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Eles não compartilham um terreno comum que permita contradição ou não-contradição
A filosofia tem, portanto, um nascimento histórico e geográfico preciso-
Ela nasce na Grécia, nas costas da Jônia e da Itália, antes de se estabelecer na Ática
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Seu surgimento não foi bem recebido por todos (exílio de Anaxágoras, morte de Sócrates)
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Desenvolveu-se com extrema rapidez, desde Heráclito até Aristóteles, num período de pouco mais de um século
A aceleração histórica atribuída à modernidade pode ser uma ilusão-
A verdadeira aceleração fundadora ocorreu no breve período do nascimento da filosofia grega
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Essa cisão inicial dotou o Ocidente de um “instinto do afastamento sem retorno”
A filosofia como projeto grego pode estar hoje atrás de nós-
As ciências, que dela se emanciparam, agora conduzem o mundo a um destino incerto
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Os perigos do mundo técnico moderno podem ser uma consequência do destino suscitado pela filosofia em sua origem
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Não é sábio esperar da filosofia uma solução para os perigos que seu próprio destino ajudou a criar
Concluir sobre a origem da filosofia é reconhecer sua natureza enigmática e fundadora-
Meditar sobre esse nascimento é fazer com que questões fundamentais se tornem cada vez mais pensantes
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Esse exercício não é inútil, pois nos confronta com a origem esquecida que ainda nos determina
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