estudos:beaufret:fabula-do-mundo-1973
FABULA MUNDI – MUNDUS EST FABULA (1973)
JBDH2
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Retrato de Descartes por Weenyx exibe inscrição “Mundus est fabula” (O mundo é uma fábula)
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Enigma que pode ser reduzido a uma charada ou conduzir à meditação sobre o fatum desta fábula chamada mundo
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Reflexão proposta não sobre as fabulações cartesianas, mas sobre o destino fabuloso do mundo inaugurado por Descartes
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Leibniz, meio século após Descartes, desenvolve o “princípio de razão suficiente” como enigma central de seu pensamento
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Distinção entre coisas imutáveis (cuja razão é a própria necessidade ou essência, como 2+2=4) e o mundo mutável (series mutabilium)
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No mundo das coisas mutáveis, nada acontece sem que possa logicamente ser diferente; exige-se uma razão suficiente para explicar por que é assim e não de outro modo
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Palavra “suficiente” é ambígua: pode indicar uma restrição, um “faute de mieux”
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Leibniz opera uma Aufhebung (supressão-elevação) na filosofia moderna, anunciada pelo princípio de razão
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Mundo regido por tal razão é uma série infinita, onde cada elemento reflete e concentra o universo inteiro
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Cada substância é um espelho ou perspectiva do todo, uma “parte total” que representa finitamente o infinito
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Explicar uma substância exigiria desdobrar seus repliques infinitos, tarefa impossível; toda razão dentro da série é insuficiente
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A razão suficiente última deve situar-se fora da série (hors série) e é nomeada Deus
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Deus é razão suficiente por ter escolhido, entre infinitas séries possíveis, a mais perfeita
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Escolha divina fundamenta-se num cálculo soberano que maximiza a perfeição, considerando a finitude inerente à criação
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A bondade divina não podia subtrair-se a tal escolha, mas a questão do “porquê” da criação (por que Deus criou?) permanece sem resposta explícita em Leibniz
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Teoria da verdade de Leibniz baseia-se na inclusão do predicado no sujeito
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Para verdades necessárias (como as matemáticas), a inclusão é demonstrável por análise
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Para verdades contingentes (fatos individuais), a conexão é analysis incapax, pois os repliques são infinitos
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Em ambos os casos, a verdade repousa sobre a identidade sujeito-predicado
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Leibniz encontra luz para o problema da contingência nas matemáticas, particularmente no cálculo com o infinito
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Distingue uma matemática exterior (que lida com necessidades) e uma profunda (que acessa o infinito)
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Descobertas matemáticas de Leibniz (séries infinitas, cálculo diferencial) são formas modernas que lançam nova luz sobre a filosofia
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Analogia entre série matemática infinita e a lei de série de uma substância individual
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Cada substância tem uma fons modificationum (lei de sua série) que fundamenta toda sua história
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Nenhuma verdade de fato sobre indivíduos deixa de depender de uma série infinita de razões, acessível apenas a Deus
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Esta analogia é, contudo, insuficiente, pois poderia levar a um Deus espinozista, agente necessário
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Leibniz rejeita o necessitarismo espinozista: para ele, o possível é uma dimensão real das coisas, não um defeito do pensamento
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Deus escolhe livremente o melhor entre infinitos mundos possíveis
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Para evitar arbitrariedade, é preciso estabelecer a unicidade necessária de um “melhor dos mundos possíveis”
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A luz decisiva vem novamente da matemática, com o cálculo de máximos e mínimos (Nova Methodus de 1684)
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Leibniz radicaliza a regra de Fermat, introduzindo o infinitésimal com rigor
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Descobre que as figuras geométricas correspondentes a um máximo são únicas e ótimas (formas ótimas)
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A posição ótima (ex.: ponto no meio de um segmento) produz beleza e regularidade (simetria perfeita)
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O cálculo de máximos e mínimos torna-se modelo para a criação divina
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Deus opera um cálculo de otimização (máximo de perfeição, mínimo de imperfeição) ao escolher o mundo
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A “matemática divina” é um uso sublime do mesmo princípio de determinação, visando o optimum
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A análise do infinito é um “prelúdio” ou “avant-goût” para compreender a origem das coisas (in ipsa originatione rerum)
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Tríplice avanço matemático de Leibniz (séries infinitas, Nova Methodus, método das formas ótimas) revela o caminho da “imensa subtilidade das coisas”
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Supera o necessitarismo sem negar a ordem
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O princípio de razão revela-se em toda sua amplitude, inaugurando uma nova correspondência entre homem e ser
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Esta nova correspondência caracteriza-se como entrada na fase da “planificação total”
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Planificação não se confunde com necessidade lógica; opera ao nível dos possíveis, visando a perfeição
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Perfeição é identificada com “ordem”: a polifonia mais rica possível, sem monotonia nem cacofonia
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A planificação divina assegura um “todo-feito” perfeito, onde cada indivíduo recebe um “personagem” pré-confeccionado (ex.: Sextus)
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Descoberta leibniziana de uma “raiz” da contingência submete a verdade à figura do “sistema”
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O “Sistema novo” de Leibniz (1695) marca a entrada do termo “sistema” no vocabulário filosófico próprio
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Sistema não é mero conjunto de termos necessariamente ligados (Hamelin), mas harmonía que transcende a necessidade, ordenando-se a partir de um centro
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O projeto leibniziano do sistema é pressuposto e desenvolvido pela filosofia idealista subsequente
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Kant: a Crítica da Razão Pura exige completar-se como sistema via juízo reflexionante
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Hegel: pensar a substância como sujeito para que a verdade seja sistema de cabo a rabo
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Schelling: o idealismo supera o dogmatismo leibniziano ao buscar um saber imediato e sistemático do absoluto
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Com o sistema hegeliano, o “plano divino” leibniziano é interiorizado como Organisation (organização) imanente do espírito
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O marxismo e a vontade de potência nietzschiana levam ao ápice o império da “organização”
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Americanismo e comunismo são manifestações empíricas desta era
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A época moderna é definida pela transformação da criação em planificação total, e desta em organização absoluta
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Seu segredo é condensado na fórmula leibniziana nihil est sine ratione (nada é sem razão)
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A ênfase da fórmula corresponde à ditadura de um único fatum, cuja fábula a filosofia moderna incessantemente transcreve
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A palavra filosófica é a fábula do Mundo. Mundus est fabula.
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