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Mundo Grego
JBEH
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A afirmação de Heidegger de que não há filosofia heideggeriana, e que seu interesse não recai sobre uma filosofia pessoal, mas sobre o tema no qual toda filosofia se mantém axial, revela que sua tentativa consiste em um passo que se retira da filosofia para o pensamento do ser, um Schritt zurück aus der Philosophie in das Denken des Seins.
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O passo que rétrocede (Schritt zurück) não é um retorno à filosofia para filosofar em liberdade, nem uma busca de consolo na arte, ciência ou religião, mas sim uma remontagem ao tema sobre o qual toda a filosofia está axializada, ou seja, o ser.
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A filosofia, embora já seja pensamento (pensamento do ser), ainda não pensa a verdade do ser, e é nesse sentido que se pode dizer que se pensa desde sempre e ainda não se pensa, havendo um abismo (salto) da ciência à filosofia, e da filosofia ao pensamento.
A filosofia, como modalidade historicamente decisiva de um pensamento que ela ainda não é, propõe desde a origem o tema do ser, mesmo que não pense sua verdade, e se apresenta como uma história na continuidade monumental do que não cessa de se manifestar segundo as múltiplas modalidades da palavra do ser.-
A afirmação de que a filosofia é essencialmente pensamento do ser não é uma invenção de Heidegger, mas uma referência à palavra inaugural de Parmênides (esti gar einai), que nomeia o ente-ser, estabelecendo uma tradição ininterrupta que vai do mundo grego até nós.
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A tradição filosófica, longe de ser um progresso que torna obsoletas as palavras dos pré-socráticos, exige que se reconheça neles o início, e não um estágio abstrato a ser superado, como na visão hegeliana de que o início é o mais abstrato porque ainda não se pôs em movimento.
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A filosofia moderna, mesmo quando se pretende independente de Hegel, hegelianiza ingenuamente ao considerar a filosofia grega como primitivismo, relegando-a à arqueologia ou etnologia, enquanto um filósofo como Heidegger, por uma meditação apaixonada, encontra-se em acordo com artistas como Braque e Char.
A tentativa de Heidegger de desvelar o mundo grego não é um comparatismo cultural, como o de Nietzsche, mas uma iniciação que exige um deslocamento que não se faz por uma viagem física à Grécia nem pelo simples domínio da língua grega, mas pela capacidade de ouvir a palavra grega com um ouvido grego.-
O essencial não é traduzir os gregos para nós, mas nos traduzir diante deles, transportando-nos do que nos é evidente para o domínio de uma verdade que se tornou outra, e as objeções filológicas às interpretações de Heidegger são, rigorosamente, insignificantes.
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O privilégio atribuído ao mundo grego não é um desdém pelas filosofias orientais ou pela filosofia cristã, pois a filosofia cristã, ao se reclamar da metafísica de Aristóteles, permanece sob a hermenêutica grega, e o diálogo com o “todo outro” (Índia, China) só será possível quando se for capaz de se deslocar até a origem grega da filosofia.
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A tarefa primeira do pensamento autêntico não é restaurar uma autenticidade anterior que teria sido a dos gregos, mas reconhecer que o “esquecimento do ser” é de instituição essencialmente grega, e que a “garantia sonambúlica” do leitor moderno diante do que lê remete ao segredo mesmo do título Ser e Tempo.
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