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Destino do Ser

JBDH3

  • O encontro com o pensamento de Heidegger e a pergunta pela filosofia
    • A realização de um encontro público sobre o pensamento de Heidegger em Paris é questionada, indagando se já se está maduro para corresponder a esse pensamento, sendo natural que ele ainda não seja plenamente reconhecido.
    • A definição nominal da filosofia segundo Heidegger é apresentada: a filosofia é, em toda sua história, a problemática do ser, na medida em que sua pergunta se diferencia das questões sobre o ente.
    • Essa definição é arbitrária em aparência, pois não corresponde a nenhuma das seis acepções do vocabulário filosófico corrente, que inclui definições como “disposição moral de ver as coisas de cima”.
  • A constituição onto-teológica da metafísica e a diferença entre ser e ente
    • A objeção de que a filosofia primeira de Aristóteles tem como objeto primeiro um ente (Deus) é reconhecida, mas Heidegger a supera mostrando que, no início da filosofia, decidiu-se pela natureza do ser, ainda que essa decisão ceda lugar a uma determinação preferencial do ente.
    • O “quiproquó” onto-teológico é a constituição essencial da metafísica, no qual a diferença entre ser e ente é eclipsada, mas nunca totalmente, inaugurando a história da filosofia como a história desse eclipse.
    • A diferenciação entre Deus e o ser é proposta por Heidegger, em oposição à identificação da filosofia cristã, e a tarefa é guardar Deus em sua pureza e com diferenciação.
    • O ser, para Heidegger, está em espera de se tornar digno de questão para o homem, e essa espera é a própria finitude do ser, que é diametralmente oposta à espera do Messias.
  • A finitude do ser, a clareira e o declínio como traços fundamentais
    • A manifestação do ser é uma “história da clareira do ser” (Lichtungsgeschichte des Seins), na qual o ser se manifesta a seus “pastores”, e não como uma luz preexistente e uniforme.
    • O movimento dessa história é o do “declínio do ser” (Verfallen des Seins), que já se anunciava em “Sein und Zeit” (Ser e Tempo), e o fluxo do rio, que nada pode deter em sua corrida para o vale, é apresentado como imagem desse movimento.
    • Quatro paradoxos da filosofia de Heidegger são enumerados: a não-identidade de Deus e do ser; a finitude do ser em sua relação com o homem; a manifestação do ser como essencialmente mutação (Wandel) de sua verdade; e o movimento dessa mutação como o declínio do ser na história da filosofia.
  • O Dasein (ser-aí) como ponto de partida e sua diferença em relação à consciência
    • O ponto de partida para a questão do ser é o Dasein (ser-aí), e sua compreensão é crucial: não se trata do “lá” (da) do ser, como se o ser tivesse um lugar, mas de “ser-o-lá”, de sustentá-lo, de ek-sistir.
    • A concepção de Dasein (ser-aí) é contraposta à noção de consciência (Bewusstsein) e ao Cogito cartesiano, que transformou um “à-parte” (parergon) em centro da questão, enquanto para os gregos a percepção representativa é sempre de outra coisa.
    • O Dasein (ser-aí) é uma denominação topológica do lugar originário onde a consciência só pode existir “a título secundário e ulteriormente”, e ele está do lado dos poetas e dos amantes, que estão presentes às próprias coisas, não às representações.
  • A descoberta da temporalidade do ser e a escuta da língua alemã
    • O título “Sein und Zeit” (Ser e Tempo) surgiu da percepção de que a palavra grega para ser, “ousia”, que também significa “bem de um camponês”, encontra um eco no alemão “Anwesen”, e mais ainda em “Anwesenheit”, cuja desinência “heit” faz brilhar a “pura brilhância da presença”.
    • Essa percepção não veio diretamente do grego, mas através da língua alemã, que revelou a “temporalidade secreta” do ser, que se anuncia em um presente, e o livro, precipitado pelas circunstâncias, nasceu como o “livro do século XX”.
  • A retomada mais questionadora e o diálogo entre pensamento e poesia
    • Os anos seguintes a “Sein und Zeit” (Ser e Tempo) não trazem simplesmente sua continuação, mas uma retomada mais questionadora de sua problemática, que culmina na descoberta de um diálogo possível entre pensamento e poesia.
    • A dissensão entre poesia e filosofia, constatada por Platão como “mais velha que nós”, é superada quando, em 1935, Heidegger declara que a filosofia e seu pensamento só admitem a poesia em seu nível.
    • A “Introdução à metafísica” (1935) e a conferência “A origem da obra de arte” (1935-1936) são marcos desse diálogo, e a palavra poética de Hölderlin e a palavra pensante de Parmênides passam a ser ouvidas em uma “correspondência original”.
  • A Uniquadrité (Geviert) e a compreensão do mundo como clareira do ser
    • O mundo é interpretado como a “clareira do ser”, e a palavra que o nomeia não é um ornamento literário, mas uma palavra de pensamento que remonta àquilo que a filosofia, desde seu início grego, saltou por cima.
    • O termo “Uniquadrité” (Geviert) é introduzido para nomear a unidade, ainda em retiro, da Terra, do Céu, dos Mortais e dos Divinos, que se cruzam na “croisée” (Vierung), a partir da qual o espaço da igreja gótica é interpretado.
    • A palavra “Uniquadrité” (Geviert) é iluminada pelo diálogo de Heidegger com Walter F. Otto, que mostrou a abertura do mundo grego como Terra e Céu, e com Hans Jantzen, que interpretou o espaço gótico a partir de sua croisée.
  • O Ereignis (Acontecimento Apropriador) como o mais essencial e a superação do termo “ser”
    • Mais essencial do que a Uniquadrité (Geviert) é o “Ereignis” (Acontecimento Apropriador), que é a maneira como o mundo “advém” e faz época, e o termo “ser” é superado como uma palavra da metafísica.
    • O “Ereignis” (Acontecimento Apropriador) é compreendido em sua dupla acepção, a partir de Goethe, como aquilo que nos apropria a nós mesmos e que, por excesso de luz, nos ofusca, sendo a verdade do ser à qual o Dasein (ser-aí) pertence essencialmente.
    • A pergunta pela técnica moderna é identificada como uma questão sobre o “Ereignis” (Acontecimento Apropriador), que liberta da interpretação instrumental e do vitupério, e “Sein und Zeit” (Ser e Tempo) é visto como o outro começo que coloca em marcha o passo que se desprende da metafísica.
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