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Mundos

BARBARAS, Renaud. L’appartenance: vers une cosmologie phénoménologique. Paris : Éditions de l’Institut supérieur de philosophie Peeters, 2019.

  • A crítica à teoria da carne de Merleau-Ponty conduz à afirmar que uma teoria consistente deve mostrar como o corpo, sob o mesmo aspecto, se distingue do mundo e, no entanto, se inscreve profundamente nele, de modo que a carne miana, como carne sentiente, não se distingue da carne do mundo, mas é exatamente por pertencer radicalmente a esta que ela é miana, e a pertença é a condição mesma da ipseidade, sendo o movimento de inserção no mundo idêntico ao movimento de retirada em relação a ele.
    • A consequência dessa posição é uma forma de gradualidade, onde a ipseidade é o avesso imediato da pertença, e a potência fenomenalizante de um ente é medida pela profundidade de sua inscrição no mundo, de modo que a aptidão para fazer aparecer o mundo como tal não remete a uma exceção ou exterioridade radical, mas sim a uma pertença radical a ele.
    • A correlação estabelecida é que a potência de fenomenalização varia com a profundidade da inscrição ontológica, de sorte que a pedra, com sua fraca pertença, desdobra um lugar mínimo, enquanto o sujeito, com sua pertença radical, fenomenaliza o mundo de forma ampla, e essa correlação é o novo rosto do a priori universal da correlação, doravante multiplicado para todo ente.
  • A questão da origem da fenomenalidade, ou do desdobramento do lugar a partir da pertença ao solo, é reformulada no quadro cosmológico da deflagração: como a deflagração originária pode dar lugar a entes que retornam a ela sob o modo da fenomenalização, ou seja, como os estilhaços dispersos podem abrir um lugar e se tornar, de algum modo, sujeitos, e a resposta reside no fato de que o princípio da fenomenalização consiste na unidade e que essa unidade é a maneira como os entes remontam à sua fonte.
    • A primeira etapa da demonstração consiste em mostrar, com a fenomenologia a-subjetiva de Patočka, que a fenomenalidade é autônoma em relação a um sujeito constituinte, e que a condição de possibilidade do dado é o mundo como totalidade oni-englobante, que é a forma-mundo da experiência, um arqui-dado que é a própria condição da subjetividade.
    • A redução husserliana é criticada por fazer repousar o aparecer sobre os vividos da consciência, o que é uma forma de circularidade e uma traição à epochè, pois o aparecer, como ostensão do mundo, é de parte a parte transcendente, e a consciência é derivada em relação a esse aparecer originário.
    • A unidade da experiência, sua continuabilidade, não é uma mera potencialidade da consciência, mas uma arqui-presença, um horizonte que é dado como a condição de toda presença intuitiva, e todo ente se dá como pertencente ao Todo que ele vem preencher, sendo o mundo o a priori último do aparecer.
  • A fenomenologia a-subjetiva de Patočka leva a uma secundarização da consciência, pois o aparecer é o fato do mundo antes de ser o de uma consciência, e o sujeito é aquele que recolhe ou atualiza um aparecer anônimo, sendo sua consistência dada pelo preenchimento do horizonte do mundo, de modo que o sujeito não existe senão como um horizonte vazio que se preenche de mundo.
    • O sujeito, no sentido mais profundo, é um movimento de penetração no mundo, uma avançada fundamental que delimita um campo de aparecer pela sua unidade, e esse movimento comporta uma dupla dimensão: a de avanço em direção às coisas e a de abertura ou “desalongamento”, que são os dois versantes constitutivos da pertença dinâmica.
    • A mobilidade, que é a essência do sujeito, é espacializante, organizando o mundo ao redor de um centro e ordenando-o segundo as dimensões fundamentais do perto e do longe, e a temporalidade é um momento derivado dessa espacialidade originária.
    • A unidade que define o mundo, como condição da fenomenalidade, é uma unidade espacial, e a forma-mundo é o espaço como a priori de todo aparecer, sendo a coincidência absoluta do transcendental e do ontológico realizada na profundidade.
  • A gênese da fenomenalidade é compreendida no quadro cosmológico como o retorno dos entes à sua fonte: a deflagração, que é uma saída da potência para fora de si, produz o puro disparate, e o movimento dos entes, inscrito nessa deflagração, é necessariamente um movimento em direção a ela, sendo o sair de si idêntico ao entrar em si, e essa remontagem à origem é a própria essência da fenomenalização.
    • A unidade, que está no coração da fenomenalidade, é a apropriação dinâmica de uma origem para sempre perdida, ou seja, a potência dos entes é potência de fazer aparecer porque ela procede de uma arqui-potência indivisa, de uma explosão cuja fonte é infinitamente comprimida.
    • A síntese da fenomenalidade é o eco, no coração do movimento ôntico, de sua origem cosmológica indivisa, e a potência dos entes é o sedimento da sobrepotência no disparate, de modo que os mundos são o rosto da origem no seio do múltiplo.
    • A reflexão sobre a fonte da mobilidade é decisiva porque, ao colocar a descoberto a fonte da mobilidade, descobre-se ao mesmo tempo a fonte da fenomenalidade: a origem da mobilidade é também a de sua potência fenomenalizante.
  • A distinção de três sentidos do mundo (como fonte absoluta, como multiplicidade ôntica e como forma) corresponde aos três sentidos da pertença (solo, site e lugar), e a fenomenalidade, como redução ativa da tensão entre o site e o solo, é compreendida como o movimento pelo qual uma sobrepotência explosiva tenta reconquistar uma indivisão primeira no seio de seus próprios estilhaços.
    • O mundo propriamente dito, como a priori do aparecer, é a totalidade como sedimento da indivisão da physis no seio do conjunto dos entes, e não a physis primeira nem o conjunto aditivo do que há.
    • A frase de Patočka sobre o movimento que constitui o conteúdo contingente do mundo é interpretada como a expressão dessa cosmologia tridimensional, onde o arqui-evento da deflagração é a fonte da contingência, e o espaço-tempo-qualidade é o sêdimento da indivisão primeira no múltiplo.
    • O neoplatonismo é evocado, mas com uma inversão: a saída de si da origem é uma dispersão e não uma surabundância a ser dividida, e o retorno à origem é uma unificação, sendo a essência do sentido a unidade na perspectiva fenomenológica, ao passo que, no neoplatonismo, a pluralidade é inerente ao inteligível.
  • Os lugares ou mundos são a proximidade à origem na distância, e a fenomenalização é a potência própria de uma impotência, sendo que a amplitude do mundo é medida pela profundidade da inscrição no solo, e a diversidade dos entes é uma diversidade de modos de pertença que remetem a diferenças de grau na proximidade à origem.
    • A potência de fazer aparecer o mundo, que se chama subjetividade, é proporcional à profundidade de enraizamento no solo, e a singularidade humana, que parece um exílio, remete a uma pertença ontológica radical, uma conivência com a origem, que é a condição de sua potência fenomenalizante.
    • A pedra, em contrapartida, por sua fraca inscrição no solo, não desdobra mundo além de si mesma e é fenomenologicamente próxima do mundo como lugar, o que mostra que a diferença do sujeito é correspectiva de seu grau de inscrição no solo.
    • A correlação estabelecida é: quanto mais próximo da deflagração, mais potência; quanto mais potência, mais mundo; quanto mais mundo, mais subjetividade, de modo que a diferença subjetiva, longe de ser uma exterioridade, é a expressão de uma identidade ontológica profunda.
  • A teoria da carne de Merleau-Ponty é retomada e corrigida: a univocidade da carne é pensada a partir da identidade da carne minha e da carne do mundo, e a diferença é compreendida como a expressão mesma dessa identidade, de modo que ser si significa estritamente ser do mundo, e entrar em si é sinônimo de sair de si.
    • A situação ontológica de pertença radical, no entanto, é votada a se desconhecer como tal, pois a fenomenalização implica uma ocultação do solo, e a maior pertença desemboca no cúmulo da separação, culminando na ideia de um mundo objetivo e na afirmação do face-a-face entre uma consciência soberana e um mundo objetivo.
    • A subjetividade conhecedora, por sua própria potência de fenomenalização, nega radicalmente a pertença que a funda, e essa ocultação é a consequência de nossa condição de seres separados do solo no seio do solo.
    • A redução radical, que não reconduz a uma região-consciência, mas à revelação da pertença originária, é a única via de acesso a essa camada mais profunda, e sua motivação se encontra no fato de que o solo aflora de algum modo no seio da própria atitude objetiva, por exemplo, na experiência da profundidade.
  • A profundidade é o modo próprio sob o qual a pertença se fenomenaliza no lugar, e a via de acesso a ela não pode ser a subjetividade objetivante, mas sim a prova de uma contestação interna dessa subjetividade, uma abertura à pertença por limitação ou suspensão de sua potência fenomenalizante, o que se encontra, por exemplo, na experiência do sentimento.
    • A investigação sobre a profundidade, que é indistintamente espacial e ontológica, não é uma conclusão, mas uma interrogação que se abre para o campo de uma estética, que é o domínio onde a questão da pertença e da origem da fenomenalidade encontra seu desdobramento mais radical.
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