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Fato e essência
BARBARAS, Renaud. De l’être du phénomène. Grenoble: Jérôme Millon, 1991
Capítulo 2 Fato e essência: a fenomenologia
§ 1 Dúvida e redução
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É preciso explicitar o que determina o antagonismo entre a filosofia do fato e a da essência, o que as retém nessa dualidade, medindo em que cada uma delas erra a relação com o Ser cuja verdade pretende exibir, crítica que não pode consistir em fazer valer uma noção contra a outra, o que seria ainda ficar preso ao movimento em vez de compreendê-lo
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Em ambas as filosofias, do fato como da essência, expressa-se uma mesma ontologia, qualificada por Merleau-Ponty como positivismo, comunidade negativa que explica o vaivém entre uma e outra, pois uma mesma determinação implícita do rapport com o Ser se atesta em ambas
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A via de acesso ao Ser passa, em Merleau-Ponty, por uma tomada de consciência da significação verdadeira da interrogação filosófica, que se retorna sobre si mesma perguntando também o que é questionar e o que é responder, conforme a fórmula sobre a diplopia da questão que visa ao mesmo tempo o estado de coisas e a si mesma como questão
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Pensar o Ser é reencontrá-lo a partir do que está implicado no próprio pensamento, sob a forma de uma interrogação sobre um ser, a saber, o da própria interrogação, sendo apenas a partir dessa consciência da interrogação que se poderá medir as filosofias que se esgotam na questão do fato ou na da essência
No primeiro capítulo da parte redigida de Le visible et l'invisible, Merleau-Ponty apreende a reflexão como gesto único, comum a Descartes, Kant e Husserl, descrita nesse estágio por oposição à atitude científica, que se dá o mundo como grande Objeto e silencia o momento da fenomenalidade sobre o qual repousa o ser do mundo-
Atitude científica e filosofia reflexiva opõem-se então como duas interpretações unilaterais da fé perceptiva, caracterizada pela ambiguidade, contando uma com a certeza de acesso ao mundo mesmo e tematizando a outra as relevâncias corporal e subjetiva desse mundo
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É preciso, contudo, distinguir a reflexão em sentido cartesiano da reflexão fenomenológica, distinção que inaugura o capítulo Interrogation et intuition
A posição de Merleau-Ponty diante da dúvida cartesiana é a mesma que Husserl desenvolve ao longo de sua obra: como negação da existência do mundo, a dúvida pressupõe um certo sentido de ser do mundo como existência natural ou absoluta, encobrindo sua radicalidade aparente uma ausência de radicalidade-
O questionamento cartesiano não é de natureza ontológica mas epistemológica, tratando-se de saber se o mundo existe uma vez descoberto o caráter duvidável da experiência sensível, e não de assegurar-se do sentido da existência mas de uma existência certa
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A conversão ao cogito é apenas conversão ao realismo transcendental, sendo a consciência definida como lugar das representações, exigindo o recurso à veracidade divina para garantir o valor objetivo das representações, de modo que Descartes renova as equívocas do ceticismo
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A determinação do Ser como ente natural desemboca numa positividade da consciência, de modo que a distância da dúvida se converte em proximidade absoluta e, entre consciência e Ser, o momento da fenomenalidade não encontra lugar, permanecendo Descartes prisioneiro do naturalismo apesar de inaugurar o movimento da reflexão
Para realizar o voto de radicalidade cartesiano, a filosofia deve tomar consciência de seu rapport originário com o Ser, reconhecê-lo como horizonte de sua interrogação, retroceder apenas para ver o mundo e o Ser, colocá-los entre aspas e escutá-los, o que exige interrogar o sentido de ser do que é, não se o mundo é mas o que é o mundo-
A redução fenomenológica conduz a determinar o sentido do sentido como essência, dedicando-se o essencial do capítulo a uma discussão da eidética husserliana, ainda que Husserl proponha inicialmente um inventário das essências tais como vividas por nós, tal como emergem de nossa vida intencional
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Merleau-Ponty faz sua, nesse ponto, a interpretação de Tran-Duc-Thao, segundo a qual a perspectiva constitutiva é a única capaz de fundar a significação ontológica da essência contra o risco de hipóstase platônica, exigindo a tarefa de uma ontologia universal a explicitação das intenções da consciência constituinte
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Resta perguntar se a fase transcendental não permanece ela mesma tributária da eidética, pois constituído como unidade de sentido na subjetividade absoluta, o ser do existente conserva positividade e autonomia que o cindem do existente de que é o ser, sendo esse o sentido da leitura de Merleau-Ponty, que aborda Husserl a partir do problema da essência
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É a manutenção da perspectiva eidética que impede a constituição de se realizar como constituição do mundo mesmo e a retém num idealismo transcendental, sendo por isso que Merleau-Ponty busca elaborar uma fenomenologia livre do pressuposto eidético, uma filosofia do sentido que não seja filosofia da essência
A essência à qual desemboca uma reflexão que apenas afasta seu vínculo umbilical com o mundo para vê-lo parece ser a resposta à questão filosófica, pois o objeto se confunde com o que é pensado na questão quid sit sem refluir na subjetividade empírica, possuindo esse parecer a solidez de um ser-
Enquanto o realismo perdia o fenômeno por fundá-lo numa realidade em si que não aparece, a filosofia da essência compreende que uma coisa só aparece se ela mesma aparece nesse aparecer, confundindo-se para ela ser dada e ser dada ela mesma
§ 2 Essência e experiência
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Assim como o fato, a essência não constitui a resposta à questão filosófica nem é adequada ao ser da interrogação, pois o inventário das necessidades de essência sempre se faz sob uma suposição, ignorando de onde vem essa hipótese de que há algo, de que há um mundo, saber que está abaixo da essência, sendo esse saber a própria experiência da qual a essência faz parte sem a envolver
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A pretensão de reduzir o mundo à sua essência repousa na possibilidade de se dar um indivíduo sobre o qual se apreende a essência sem colocá-lo como existente, mas a individualidade do indivíduo é inseparável de sua existência, sendo a essência sempre extraída de uma experiência que ela pressupõe em vez de entregar seu ser
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Se a experiência pudesse realmente ser reduzida à sua essência, esta perderia toda consistência, pois sua determinação e solidez lhe vêm justamente do fundo de experiência que a nutre e que ela determina, sendo a essência da essência ser essência de algo, relacionar-se a um ser que ela qualifica sem absorver
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Embora haja necessidades de essência, pois o aparecer exige uma determinação, isso não significa que essas leis esgotem o ser da experiência, sendo elas apenas leis para essa experiência, que só têm efetividade na medida em que não são positivas, dando as essências apenas a maneira ou o estilo da experiência, o Sosein e não o Sein
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A condição para que uma coisa apareça é que, em seu aparecer, a coisa mesma não apareça, sendo a unidade que funda o aparecer por princípio incapaz de se dar a si mesma, o que G. Granel expressa ao apontar o recuo do mesmo da coisa percebida-ela-mesma para uma espécie de ausência ou nada
A essência procede de um ato, de uma variação sobre a experiência, razão pela qual não pode pretender entregar o ser da experiência: a variação consiste em imaginar o objeto de outro modo até aparecer uma determinação sem a qual o objeto deixaria de ser o que é, invariante que não esgota, contudo, seu ser mesmo-
A solidez e a essencialidade da essência são exatamente medidas pelo poder que temos de fazer variar a coisa, não resultando uma essência pura, não contaminada pelos fatos, senão de um ensaio de variação total, o que não significa reduzir a essência a uma abstração nem a variação a uma indução
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Merleau-Ponty denuncia a oposição entre indução e Wesenschau, pois a indução só faz sentido enquanto já é uma variação, cujo mesmo animador não a transcende nem se distingue do ato que o faz aparecer, sendo apreendido no próprio ato da variação como aquilo que a funda
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Uma essência pura só poderia resultar de uma variação infinita, mas esse infinito, ao qual Merleau-Ponty alude, não pode ser percorrido, não admite clausura, e qualifica antes o excesso da experiência sobre a essência, sendo próprio do ser da experiência excluir tal percurso e, por conseguinte, excluir uma apreensão em essência
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Reduzir uma experiência à sua essência exigiria uma distância que a colocasse inteira sob nosso olhar, fazendo-a passar à transparência do imaginário sem apoio de nenhum solo, recuando ao fundo do nada, mas então já não seria mais experiência, pois a sobrevoaríamos
Husserl reconhece que as essências dadas na percepção são essências inexatas, ditas morfológicas, tendendo a uma essência exata da qual permanecem assíntotas sem se confundir com ela, o que revela, aos olhos de Merleau-Ponty, o pressuposto que comanda toda sua filosofia-
Ao manter a essência pura sob a forma da Ideia kantiana em vez de questionar sua positividade, Husserl concilia o preconceito da essência com o desmentido dos fatos recorrendo à ideia-limite, revelando o apelo à Ideia a tensão entre a proximidade aos fenômenos e a manutenção do preconceito objetivista
Nossa experiência não pode ser descrita como contato, fusão com uma realidade positiva, sendo necessário reintegrar o Ser à dimensão do aparecer, compreender o mundo como fenômeno, mas caracterizar esse aparecer como essência também não é satisfatório, pois nos afasta do mundo no instante mesmo em que pretendia entregá-lo-
A dúvida é um positivismo clandestino, pois o que nega ainda afirma, mas reciprocamente, se se quisesse superá-la em direção a uma esfera de certeza absoluta das significações ou das essências, esse positivismo absoluto significaria que quem questiona afastou de si o Ser e o mundo a ponto de já não pertencer a eles
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A posição da essência supõe uma passagem ao infinito, uma transposição do infinito que é transposição do próprio mundo, pois uma variação finita só pode pretender entregar a essência se efetuada de um ponto de vista situado no infinito, havendo contradição entre a necessidade da variação, que decorre de nossa inscrição no mundo, e a essência que ela pretende exibir
A filosofia da essência repousa no pressuposto de uma posição absoluta, de um questionamento vindo de além do Ser, submetendo a experiência a um dilema abstrato que ela ignora, sendo a fórmula não há nada a imagem abstrata de uma situação mais fundamental, aquém da negação e da afirmação-
A negação do nada sobre o qual se perfila a coisa deve ser entendida como negação simétrica, tanto do nada quanto do objeto determinado, de modo que não há nada significa igualmente há algo, não se opondo negação da negação e posição
A questão da essência revela-se, ao fim, tão pouco adequada ao ser da interrogação quanto o era a questão de fato, pois nenhuma questão vai até o Ser sem que, por seu próprio ser de questão, já o tenha frequentado e dele retorne-
É a pertença da questão ao Ser que funda a possibilidade de sua visada, de modo que esta não pode por princípio restituir seu objeto de maneira transparente, sendo tão excluído que a questão fique sem resposta quanto que a resposta lhe seja imanente
§ 3 O realismo transcendental da fenomenologia husserliana
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A unidade de ponto de vista que atua nos conceitos de fato e essência permite evidenciar a limitação que a abordagem eidética determina no seio da perspectiva transcendental, podendo o idealismo transcendental de Husserl ser caracterizado como um psicologismo transcendental em sentido superior
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Merleau-Ponty afirma sem ambiguidade que as reconstruções fisiológicas e a análise intencional partilham a tentativa positivista de fabricar a arquitetônica do Welt com traços do mundo, innerweltlich, o que G. Granel ecoa ao apontar que o psicologismo consiste em tomar o ente como figura do ser, tipo de abertura em que o ente aparece
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É em virtude de sua própria radicalidade que a redução transcendental desemboca num psicologismo, pois pensada sob o pressuposto de uma colocação em presença da essência e, portanto, de sua positividade, a subjetividade é situada para além do mundo, determinando Husserl o Absoluto como não-lugar
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E. Fink, no artigo sobre a filosofia fenomenológica de Husserl diante da crítica contemporânea, mostra que transcender o mundo na redução fenomenológica não conduz para fora do mundo mas é simultaneamente retenção do mundo no universo do ser absoluto, sendo a origem o que é em razão do mundo tanto quanto o mundo é o que é em razão da origem
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A consciência só pode ser o absoluto na medida em que é absoluto para o mundo, de modo que a retenção do mundo no absoluto é também retenção do absoluto no mundo, devendo a ontologia ser compreendida como intra-ontologia, ideia de uma transcendência vista na inerência a esse mundo
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Toda filosofia reflexiva se desenvolve sob o domínio de conceitos como sujeito, consciência, consciência de si, espírito, que envolvem todos a ideia de uma res cogitans, de um ser positivo do pensamento, de onde resulta a imanência dos resultados da reflexão ao irrefletido
Esclarece-se agora a natureza e o fundamento do vaivém entre o primado do fato e o da essência, determinado pelo positivismo implícito em cada posição, que, pretendendo exclusividade, reconduz a posição antagônica, caracterizando-se a filosofia reflexiva por sua instabilidade constitutiva-
Partindo da determinação da presença como fato e do conhecimento como contato real, a reflexão descobre o campo fenomenal e a negação, interpretada ainda conforme o positivismo inicial como caminho até a essência, pois partindo de puros indivíduos espaço-temporais, sua unidade só pode ser compreendida recorrendo a um indivíduo transcendente
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Esse primeiro movimento se inverte: a explicitação da fenomenalidade em termos de essência deixa aberto o espaço da facticidade e devolve armas à reivindicação realista do fato, havendo um pensamento reflexivo que, por querer apreender imediatamente a coisa em si, recai sobre a subjetividade, e que, por ser assombrado pelo ser para nós, só apreende a coisa em si, em significação
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Esse desequilíbrio constitutivo está no cerne da démarche de Husserl, cuja identidade profunda com o movimento cartesiano prevalece sobre a reivindicação de sua diferença, notando Merleau-Ponty que apresentada erroneamente como suspensão da existência do mundo, a redução recai no defeito cartesiano de uma hipótese da Nichtigkeit do mundo
Em que desconhecimento se enraíza então esse positivismo da filosofia reflexiva? A resposta remete ao problema da linguagem: seja instalando-se no nível dos enunciados, ordem própria das essências, seja no silêncio das coisas, o desconhecimento do problema da palavra é aqui o de toda mediação-
A filosofia do fato se dá o mundo como presença absolutamente muda, esquecendo que o vivido é vivido-falado, sendo necessária uma redução que compreenda o mundo desde essa possibilidade de ser dito, como sentido
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A filosofia da essência, por sua vez, considera acabada a operação expressiva, esquece a palavra operante em proveito da palavra constituída, dando-se ingenuamente a linguagem como um mundo já feito em vez de interrogar o surgimento da linguagem no mundo
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É voltando à palavra como mediação fundamental que Merleau-Ponty pode pretender superar a oposição entre fato e essência, sendo o mundo aquilo que, embora dizível, escapando assim à pura facticidade, nunca o é completamente, permanecendo em retraimento sobre o que o exprime e escapando com isso à pura essencialidade
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A presença deve ser reapreendida como logos, correspondendo sua transcendência ao que, na expressão, permanece por princípio inexpresso, dimensão mais profunda do sentido, que não é senão sua própria iminência no ato de expressão
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Compreender a possibilidade da variação como tal, confundida com a possibilidade da linguagem, permite reencontrar o problema da linguagem no da variação, iluminando esta aquele, de modo que cada vetor do espetáculo percebido inaugura um estilo de explicitação dos objetos, uma linguagem muda ou operacional que põe em movimento um processo de conhecimento que não basta para realizar
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