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Corpo e Carne
BARBARAS, Renaud. Le tournant de l’expérience: recherches sur la philosophie de Merleau-Ponty. Paris: Vrin, 1998.
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O corpo é um ser ambíguo, coisa que é minha ou antes que eu sou, apresentando traços que tornam sua experiência incomparável à das outras coisas
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a impossibilidade de fazer o giro em torno do próprio corpo, que se apresenta sempre do mesmo lado, sendo comigo em vez de diante de mim
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o tato revelando uma sensibilidade que nasce em sua superfície, invertendo constantemente os papéis de sujeito e objeto
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o movimento intencional imediato, bastando visar o fim para que o corpo aí se porte como por magia, brouillando a distinção entre sujeito e objeto
Poder-se-ia objetar que essas são curiosidades psicológicas sem relação com a essência do corpo, dissolvida diante do entendimento numa representação determinada por condições objetivas, não havendo lugar para o corpo próprio na partição entre res cogitans e res extensa-
a união da alma e do corpo sendo, para Descartes, expressão de uma causalidade ocasional instituída por Deus, ainda que ele reconheça que a natureza me ensina estar com o corpo tão estreitamente confundido que componho como um único todo com ele
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a distinção cartesiana de três gêneros de noções primitivas na Carta a Isabel, sendo a união da alma e do corpo conhecida apenas pelos sentidos e pela vida ordinária
A alternativa não é entre um reconhecimento silencioso do corpo próprio e um pensamento impotente diante dessa experiência, propondo a fenomenologia do corpo desenvolver um saber de posição em vez de um saber de sobrevoo-
a questão do corpo tomando lugar preponderante na tradição fenomenológica, só podendo uma filosofia do corpo se realizar como fenomenologia do corpo
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a incerteza de que a fenomenologia tenha desde o início medido o alcance da refundição exigida pela singularidade dessa experiência, permanecendo em Husserl a descrição do corpo estruturada pela polaridade entre sujeito transcendental e objeto natural
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a necessidade de compreender como a subjetividade própria do corpo não compromete sua exterioridade sem se confundir com uma consciência
O corpo subjetivo
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A filosofia de M. Henry se inaugura numa ruptura com o monismo ontológico que subordina todo dado à mediação do horizonte transcendental do ser em geral, revelando essa decisão as razões pelas quais o caráter próprio do corpo foi negligenciado
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a citação segundo a qual o monismo ontológico impediu constantemente a reflexão filosófica de se elevar à ideia do corpo subjetivo, pertencendo o corpo, em sua natureza originária, à esfera de existência da própria subjetividade
A análise se apoia na leitura que M. Henry faz de Maine de Biran, para quem a experiência do eu não é experiência de uma substância modificada por acidentes, mas prova de um poder de produção identificado com o sentimento de um esforço querido-
a citação sobre a personalidade começando com a primeira ação completa de uma força hiperorgânica que só é para si enquanto se conhece agindo livremente
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o esforço sendo autoafecção pura, dado a si mesmo sem exterioridade, devendo o cogito ser definido não como um eu penso mas como um eu posso
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a citação segundo a qual a profundidade dessa conclusão não reside em ter determinado o cogito como um eu posso, mas em afirmar que o ser desse movimento é precisamente o de um cogito
Essa abordagem vale ao menos negativamente contra as filosofias que tentam constituir o corpo como objeto, mostrando o exemplo de Condillac que a mão exploradora, sendo também corporal, não pode ser conhecida como o corpo que ela desenha-
a mão se revelando a si mesma num poder de preensão que não pode ser dado no elemento da exterioridade, realizando-se seu autoconhecimento no esforço como autoafecção pura
Essa imanência pura não deve ser compreendida como fechamento da consciência sobre si, sendo o sentimento do esforço necessariamente revelação de um termo que lhe resiste, a resistência sendo o modo pelo qual o mundo se revela originariamente-
o continu resistant de Maine de Biran designando uma determinação a priori do real como o que resiste, sendo a certeza da subjetividade certeza de um termo transcendente
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a citação de M. Henry segundo a qual, precisamente porque o saber de si do corpo originário não é temático, ele não é fechado sobre si, mas saber do ser transcendente em geral
M. Henry distingue a sensação, já pertencente à exterioridade, do próprio poder de sentir, identificado ao poder motor, sendo o sentimento do movimento a raiz da experiência sensível-
a citação sobre dirigir nossos movimentos sobre e contra as coisas fazendo nascer em nós as sensações táteis que vêm recobrir a substância mesma do real
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as qualidades sensíveis sendo determinações do transcendente sem, no entanto, atingirem um em si, pois o ser do movimento é a subjetividade
A vida do corpo faz parte da vida absoluta do ego, mas nossa experiência do corpo próprio não se limita a esse vivido imanente, exigindo compreender a unidade entre corpo transcendente e ego apesar de sua dualidade ontológica-
a distinção biraniana entre o corpo estranho, que oferece resistência absoluta, e o corpo próprio, que oferece apenas resistência relativa, definindo uma extensão interior
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a unidade do corpo transcendente sendo constituída pelo poder subjetivo que move as diferentes partes do espaço orgânico, sem que se deva concluir a uma identificação pura e simples
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M. Henry recusando extrair dessa proximidade uma dependência da subjetividade em relação à massa orgânica, lembrando a hierarquia ontológica do imanente e do transcendente
Resta o corpo objetivo, unidade transcendente cuja articulação com a subjetividade M. Henry não resolve, evocando apenas a possibilidade de uma projeção do corpo subjetivo numa porção de extensão sem esclarecer suas modalidadesA análise de M. Henry evidencia a insuficiência das filosofias que situam de saída o corpo próprio do lado da exterioridade, mas sua decisão essencial de definir o ser do eu posso pelo cogito compromete a dimensão motora e a deiscência do esforço-
a experiência do esforço sendo aquela de um esquecimento de si, de uma alteridade no seio da ipseidade, não podendo ser reduzida à autoafecção absoluta
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a redução do esforço à autoafecção comprometendo a intencionalidade
M. Henry subordina sua análise a um pressuposto dualista, sendo a diferença originária a do eu e do não-eu, o que o impede de reconhecer que o corpo é meu sem se confundir com o eu-
a citação sobre a fórmula eu sou meu corpo significando que a vida desse corpo é um modo da vida absoluta do ego, o que dissimula a distância que subsiste dentro dessa identidade
Esse cegamento quanto à especificidade do corpo próprio é surpreendente porque a teoria biraniana do esforço, sobre a qual M. Henry se apoia, é já uma tematização rigorosa dessa diferença não substancial entre corpo e subjetividade-
o esforço sendo relação originária, unidade dos termos diferenciados que só surgem em seu exercício efetivo, não sendo portanto nem orgânico nem subjetivo
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a citação biraniana de 1804 sobre o sujeito se constituindo, no desdobramento da força motriz, por relação ao termo orgânico inerte que resiste à sua ação
É preciso distinguir dois corpos, não três, pois M. Henry confunde a simultaneidade do esforço e do movimento, atestada pela refutação de Hume, com uma identidade ontológica-
a força encontrando a resistência dentro de si mesma, mas como diferente de si, disjuntando M. Henry o movimento como tal do corpo revelado na resistência
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a citação de Merleau-Ponty reconhecendo em Biran a consciência de uma relação irredutível entre dois termos irredutíveis, antítese originária do sujeito e do termo sobre o qual portam suas iniciativas
O corpo e o ser-no-mundo
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O pressuposto dualista de M. Henry está no centro da interrogação de Merleau-Ponty, que desde A estrutura do comportamento visa compreender as relações da consciência e da natureza através do conceito neutro de comportamento
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a demarche reflexiva de M. Henry equivalendo a uma redução que situa de saída na subjetividade constituinte, ao passo que Merleau-Ponty aborda o problema pelo baixo, a partir da psicologia e da fisiologia
Contra a hipótese de constância da fisiologia clássica, a psicologia da forma, sobretudo Goldstein, mostra que os estímulos agem em função de seu valor para o organismo, sendo a relação organismo-meio circular e não transitiva-
os fenômenos de suplência, como a reorganização da marcha após amputação de falanges, evidenciando uma atividade orientada irredutível ao mecanismo cego e ao intelectualismo
O corpo do animal testemunha uma intencionalidade não representativa, indissociável dos movimentos efetivos, o que se confirma pela convergência entre os resultados da ciência e nossa própria experiência vivida-
a citação segundo a qual só se pode compreender a função do corpo vivo realizando-a nós mesmos enquanto corpo que se ergue rumo ao mundo
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o fenômeno do membro fantasma escapando tanto à explicação estritamente orgânica quanto à estritamente psicológica, exigindo compreender como o corpo releva ao mesmo tempo da história pessoal e de uma causalidade em terceira pessoa
O corpo é definido como potência de um certo mundo, veículo do ser-no-mundo, não sendo um objeto estendido mas testemunhando uma visada e certa interioridade sem se confundir com a res cogitans-
seu rapport ao mundo sendo de conivência e não de conhecimento, devendo ser caracterizado como uma vista pré-objetiva do mundo
Só a definição da consciência como encarnada permite distinguir percepção e intelecção, deformando a análise intelectualista tanto o signo quanto a significação ao separá-los-
a existência corporal fundando a coapertenência do conteúdo sensível e do sentido pela unidade de um entrar em si e de um sair de si
A interioridade que o corpo esboça não deve ser confundida com a coincidência pura do sujeito reflexivo, sendo antes adesão pré-pessoal à forma geral do mundo, existência anônima e geral-
a unidade do corpo próprio sendo prova de uma equivalência geral sem se apoiar na positividade de uma lei, comparável Merleau-Ponty o corpo a uma obra de arte, nó de significações vivas
A abertura de um mundo corresponde a uma realidade originária da qual sujeito e objeto são momentos abstratos, permitindo o ser-no-mundo compreender o fenômeno do membro fantasma e sua dependência de circunstâncias ontologicamente heterogêneas-
o orgânico não sendo senão uma existência adquirida, hábito primordial, retomando Merleau-Ponty aqui as lições de Goldstein sobre psíquico e somático como expressões abstratas da totalidade orgânica
Dizer eu sou meu corpo não significa que o ser do corpo se confunda com uma imanência radical, mas que o eu existe no modo do corpo, é encarnado, sendo o corpo o mediador de um mundo-
a consciência encarnada nunca sendo inteiramente um eu, escapando-se e se reencontrando apenas na periferia de si mesma, permanecendo o objeto puro apenas como horizonte infinito de um movimento de objetivação
A consciência é também um eu posso, mas não porque o ser do movimento seja o do cogito, sendo o movimento antecipação assegurada pelo próprio corpo como potência motriz, praktognosia original e talvez originária-
a motricidade sendo sinônimo da intencionalidade corporal, sendo a consciência extase e não autoafecção pura
A objeção de M. Henry é que Merleau-Ponty descreveria o acesso ao mundo pela intencionalidade motora sem nada dizer sobre o conhecimento do corpo conhecente, arriscando comprometer a aptidão do corpo a fazer parecer o mundo-
a solução de Merleau-Ponty recusando a alternativa em nome da experiência, revelando o contato simultâneo com meu ser e com o ser do mundo
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o cogito da vida corporal sendo tácito, não sendo a consciência posição de si nem ignorância de si mas não dissimulada a si mesma sem se conhecer expressamente
Sua unidade só pode ser pensada rigorosamente na perspectiva da temporalidade, sendo a consciência encarnada porque a síntese perceptiva é uma síntese temporal-
a transcendência do mundo em sua manifestação remetendo à transcendência do tempo, podendo o corpo ser definido como um passado originário
A carne
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A análise do corpo na Fenomenologia da percepção permanece marcada por uma tensão, sendo o corpo definido como mediador de um mundo, o que dissolve sua especificidade ao pensá-lo a partir de outra coisa que não ele mesmo
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o corpo sendo referido a uma consciência, um eu natural, subjetividade impessoal ou pré-pessoal, complexo inato caracterizado negativamente por sua obscuridade
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a contradição na caracterização dessa consciência que não se fixa nem se conhece mas tampouco se emporta inteiramente, esboçando um movimento de objetivação sem tomar distância de seus noemas
Uma reflexão rigorosa sobre o corpo próprio deveria renunciar à própria categoria de consciência, devendo o corpo ser reapreendido como negação da consciência ela mesma e não como negação interna a elaO visível e o invisível não representa tanto ruptura quanto realização das descrições da Fenomenologia da percepção, explicitando Merleau-Ponty que os problemas ali colocados são insolúveis por partirem da distinção consciência-objeto-
o reconhecimento de que o corpo não é fato empírico mas tem significação ontológica correspondendo ao aprofundamento do sentido da fenomenologia husserliana
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a citação dos Ideen II segundo a qual um espírito real, por essência, só pode estar ligado à materialidade, devendo nossa experiência do corpo próprio ser reapreendida aquém da bifurcação entre natureza e espírito
Merleau-Ponty retoma a intrincação entre percepção e movimento, testemunhando a orientação e acomodação do olhar uma previsão do visível, uma visão antes da visão-
a citação segundo a qual todo movimento dos olhos tem seu lugar no mesmo universo visível que por eles se detalha, movendo-se o sujeito no próprio espaço que vai constituir
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ao contrário da Fenomenologia da percepção, insistindo agora Merleau-Ponty na dimensão de pertencimento implicada na motricidade, estando a visão do lado da transcendência que fenomenaliza
A experiência do tato confirma essa situação, mostrando Husserl que a constituição do corpo próprio se efetua no nível tátil, não podendo o sentimento do esforço por si só revelar um corpo próprio-
a citação husserliana sobre as sensações de movimento só devendo sua localização ao entrelaçamento com sensações localizadas primariamente pelo tato
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o exemplo da mão direita tocando a mão esquerda, que se torna carne e sente, não se tratando de enriquecimento da coisa física mas de sua transformação em carne
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o comentário de Ricœur segundo o qual não se trata de proteger uma experiência existencial da consciência encarnada, mas de atribuir sensações ao corpo conhecido como coisa
Essa reversibilidade não significa que se acrescente uma subjetividade à coisa física, mas que a distinção entre sujeito e objeto se embaralha em meu corpo, sendo a carne o sensível no duplo sentido do que se sente e do que sente-
o saber pelo qual a mão se conhece como tocante não se distinguindo do saber pelo qual se atinge como mão encarnada, sendo a autoafecção uma heteroafecção
O sujeito tocante desce nas coisas, fazendo-se o toque a partir do meio do mundo, pertencendo ao mundo que ele faz aparecer taticamente-
não sendo porque o toque ocorre num corpo que ele advém no meio do mundo, mas porque é do mundo que ele tem um corpo
No texto sobre a Terra que não se move, Husserl revela um sentido da Terra mais profundo que o de um planeta em movimento, sendo ela o solo, o berço originário em relação ao qual repouso e movimento fazem sentido-
a citação segundo a qual a Terra é um todo cujas partes são corpos mas que, como todo, não é um corpo, havendo parentesco entre o ser da terra e o de meu corpo
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minha carne sendo um aqui absoluto que não pode ser convertido em lá, sendo suas partes que podem ocupar um lugar porque ela mesma é situação
A continuidade ontológica do corpo e do mundo prevalece sobre sua diferença, sendo a encarnação esse Fato absoluto, advento do aqui, a partir do qual a própria distinção entre corpo e mundo pode fazer sentido-
a citação sobre a correspondência entre o de dentro do mundo e o de fora de meu corpo, não estando o corpo à superfície das coisas mas em seu cerne
Pode-se dizer que o próprio espaço se sabe através de meu corpo, havendo um rapport a si mesmo do visível que me atravessa e me constitui vidente-
o corpo sendo um único corpo em suas duas fases, senciente e sentida, não podendo o sentir que advém no seio do corpo ser distinguido do advento de um mundo sentido
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a fórmula tornar-se natureza do homem que é o tornar-se homem da natureza, superando-se toda cisão entre sujeito e objeto em favor de um entrelaçamento mais originário
Há inserção do mundo entre os dois folhetos de meu corpo e inserção de meu corpo entre os dois folhetos de cada coisa e do mundo, sendo o corpo esse tecido que ao mesmo tempo conjuga e dis-junga o Ser e os fenômenos-
toda referência a uma subjetividade positiva devendo ser abandonada, o espírito soprando como a água na fissura do Ser, não havendo senão estruturas do vazio
A decisão do último Merleau-Ponty consiste em partir do corpo próprio sem pressupostos, assumindo seus traços aparentemente incompatíveis para revelar a significação ontológica dessa experiência, chamada carne-
a citação segundo a qual nosso corpo comanda para nós o visível sem explicá-lo, concentrando o mistério de sua visibilidade esparsa, tratando-se de um paradoxo do Ser e não do homem
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a citação segundo a qual a carne do mundo é Ser-visto, eminentemente percipi, sendo por ela que se pode compreender o percipere
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a carne sendo qualidade prenhe de uma textura, superfície de uma profundidade, corte sobre um ser maciço, diferença dos idênticos ou identidade na diferença
Como nota Patočka, o fenômeno do corpo próprio ilustra bem o método fenomenológico, jamais tendo a tradição metafísica conseguido tematizar o corpo vivido, experimentado e experimentante-
a tensão em Descartes entre o entendimento e a vida só se resolvendo em Deus, exigindo Merleau-Ponty pôr em suspenso a evidência mais enraizada de uma dualidade entre sujeito e natureza
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a ontologia da carne, sentido de ser verdadeiro do Ser, sendo ao mesmo tempo cúmulo de subjetividade e cúmulo de materialidade
O corpo não é nem momento da subjetividade, nem coisa à superfície do mundo, nem união dos dois, mas a própria dimensão do pertencimento que porta em sua profundidade o destino inteiro da fenomenalização-
sendo mais íntimo a si mesmo do que o é o de fora do mundo, sendo percipere e não apenas percipi, o corpo é, em seu sentido mais originário, corpo do espírito
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