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Subjetividade
BARBARAS, Renaud. Le désir et la distance: Introduction à une phénoménologie de la perception. Paris: Vrin, 1999.
O desejo como essência da subjetividade
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O ato perceptivo, co-condição e não constituição da aparição, deve ser concebido como ato motor remetendo à especificidade do movimento vivo, restando caracterizar o próprio ser do sujeito perceptivo interrogando a essência do sujeito vivo
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a questão de Patočka sobre se os movimentos subjetivos são multiplicidade de atos particulares ou modalidades de um movimento global fundamental que coincidiria com o próprio viver
Retornando à análise husserliana da percepção como intuição que preenche a intencionalidade vazia, verifica-se que essa dinâmica intencional se enraíza numa tensão inerente a uma insatisfação, introduzindo Husserl uma dimensão que excede a significação objetivante, a da tendência-
a citação de Lévinas segundo a qual Husserl introduz imperceptivelmente em sua descrição da intenção um elemento diferente da pura tematização, passando do vazio do símbolo ao vazio da fome, havendo aqui um desejo fora da simples consciência de
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a conclusão de que, no cerne da objetivação, há um movimento mais profundo que define o sentido originário da intencionalidade, a consciência só podendo focar a presença de um objeto porque é fundamentalmente tensão e aspiração
O movimento fundamental que dá conta da atividade perceptiva no sujeito vivo deve ser entendido como desejo, abertura do mundo inerente à estrutura do aparecer repousando sobre um desejo originário mais profundo que qualquer incompletude circunscrita-
apenas o desejo podendo corresponder ao horizonte, como apresentação do inapresentável, sendo seu objeto dado apenas no modo da incompletude
O desejo deve ser distinguido da necessidade, pois o objeto que o satisfaz o intensifica na exata medida em que o satisfaz, sendo a satisfação reativação do desejo e não sua extinção-
a citação de Lévinas segundo a qual o objeto desejado não preenche o desejo mas o escava
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a necessidade referindo-se a uma falta determinada que cessa com a satisfação, ao passo que o desejo não repousa sobre nenhuma falta, sendo puro transbordamento renovado na exata medida em que se cumpre
Husserl não deixou de notar esse excesso e essa prioridade da dimensão pulsional sobre a atividade objetivante, o primado dos atos objetivantes só fazendo sentido no quadro de uma análise estática superada pela perspectiva genética-
a teoria da primazia dos atos objetivantes mostrando que um objeto não pode ser desejado se não é primeiro representado, o que Husserl abandona no início dos anos 1920
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a análise da consciência instintiva não representando ainda vazio, dando a ausência num modo que não é o da intencionalidade vazia comandada pelo objeto
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a distinção entre a necessidade, cuja ausência é a de um objeto determinado, e o desejo propriamente dito, cuja ausência não remete a objeto definido algum
A demonstração da autonomia da intencionalidade pulsional abre caminho para uma dependência genética da intencionalidade objetivante em relação ao desejo, Husserl interrogando a constituição da hylé originária dada numa afecção-
a citação husserliana perguntando se a afecção originária não seria uma pulsão como modo de aspiração vazia ainda desprovida da representação do objetivo
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o desejo sendo prova de pura despossessão, identidade realizada de uma autoafecção e de uma heteroafecção, transcendental originário, a priori do afetante
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a pulsão de autoconservação sendo simultaneamente pulsão de mundanidade, o desejo sendo fundamentalmente desejo do mundo
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a citação de Montavont segundo a qual a pulsão se torna, na filosofia genética, a forma originária da intencionalidade, sendo definida menos em termos de olhar do que de força
Tais conclusões, se plenamente aceitas, desestabilizam a filosofia de Husserl ao enraizar a transcendentalidade numa facticidade irredutível, sendo o transcendental mais antigo que si mesmo e a vida a expressão desse atraso originário-
Husserl, contudo, não assume essas consequências, concebendo a intencionalidade pulsional como suscetível de retomada numa atividade voluntária, reinscrevendo a facticidade no horizonte teleológico de sua pesquisa
O alcance da descoberta do desejo como forma originária da intencionalidade não se limita a questionar o objetivismo husserliano, permitindo antes conceber a continuidade entre viver e conhecerA questão do ser do sujeito intramundano remete a uma negatividade específica correspondente à distância constitutiva em relação ao mundo, dinâmica fundamental que dá conta dos movimentos vivos constitutivos da percepçãoA tradição estabelecida por Goldstein tomou como ponto de partida o reconhecimento da especificidade do sujeito vivo, caracterizado pelo fato de existir como totalidade, um comportamento específico só fazendo sentido em relação ao conjunto orgânico-
o meio ambiente sendo constituído pelo próprio organismo, que desdobra seu mundo no movimento mesmo pelo qual avança em direção aos estímulos que este contém
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a lei biológica fundamental de Goldstein, segundo a qual a possibilidade de se afirmar no mundo preservando sua singularidade está ligada a um certo debate entre o organismo e o mundo circundante
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a citação de Goldstein segundo a qual se chama consciência um modo de comportamento determinado do ser humano, não havendo um receptáculo com conteúdos determinados
Erwin Straus mostra que a percepção nunca é referida ao seu sujeito efetivo, o ser humano vivo, inscrevendo a experiência perceptiva na existência vital que caracteriza o sujeito perceptivo-
a citação de Straus segundo a qual se concebe a sensação como um modo do ser-vivo, tendo o poder de se ligar à totalidade do mundo
Para chegar ao que caracteriza o sujeito vivo é preciso ultrapassar o nível do indivíduo, respeitando o princípio de que o mais perfeito nunca se compreende a partir do menos perfeito, mas o contrário-
a citação de Goldstein segundo a qual cada criatura exprime ao mesmo tempo uma perfeição e uma imperfeição, sendo o organismo dotado de perfeição relativa
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a separação do indivíduo em relação à totalidade sendo correlativa de sua individualidade, essa separação sendo em princípio insuperável
O organismo é o único ser que existe no modo da incompletude, podendo ser apenas permanecendo separado de si mesmo, excluído de sua própria essência, sendo o cumprimento dessa perfeição, para o sujeito vivo, sinônimo de sua desaparição-
a autonomia existencial que caracteriza o sujeito vivo sendo a contrapartida de sua eteronomia essencial, o poder criador sendo o oposto de uma negatividade constitutiva
O sujeito vivo é um ser cujo ser consiste em estar em relação a uma totalidade originária, o todo do ser de Goldstein, mas de tal modo que nessa relação a totalidade sempre desaparece, sendo a falta de ser do sujeito vivo e a negação constitutiva da totalidade mutuamente opostas-
essa negação sendo constitutiva de uma totalidade tal que é simultaneamente a posição daquilo de que é negação, o finito desdobrando o infinito de que é negação
Segue-se dessa análise que o sujeito vivo é essencialmente desejo, o desejo não sendo forma derivada ou sublimada da necessidade, mas nomeando o próprio modo de existir do sujeito vivo como inconsistência essencial-
a necessidade sendo falta de uma parte de si supondo uma identidade constituída, ao passo que o desejo procede de uma inconsistência sendo sempre simultaneamente desejo de si
Toda experiência é prova de um limite no sentido em que dentro do limite se manifesta a possibilidade de sua superação, nascendo conjuntamente dentro do limite tanto o mundo quanto o que o nega-
a citação de Straus segundo a qual a relação de totalidade é uma relação potencial atualizada em sensações individuais e especificamente limitada
A solução consiste em conceber a determinação do percebido como negação, compreendendo-o como limitação de uma totalidade prévia e a percepção como modalidade de uma relação mais originária-
Bergson observando que há menos na representação do que na presença, mas fracassando em dar conta do todo de que a percepção é negação por conceber ainda o sujeito vivo como ser de necessidade
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ao caracterizar o sujeito vivo pelo desejo que qualifica sua relação originária ao todo do ser, torna-se possível conceber rigorosamente a determinação perceptiva como negação sem dar-se realisticamente aquilo que ela nega
É porque é sujeito do desejo, ou antes desejo como sujeito, que o sujeito vivo é capaz de percepção, desdobrando num único ato o percebido determinado e a totalidade, a negação e o que ela nega-
Von Weizsäcker exprimindo bem isso ao afirmar que perceber é fundamentalmente sempre passar a outra coisa
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o percebido sendo o superado, mas o movimento de superação permanecendo ainda retido nas manifestações perceptivas, sendo esse movimento que Straus caracteriza pelo conceito de aproximação
Ao caracterizar o sujeito da aparição como vivo e seu modo de existir como desejo, satisfazem-se as condições da aparição estabelecidas anteriormente, sendo o desejo o que relaciona a manifestação finita e a co-manifestação do mundo que ela pressupõe-
dizer que a percepção é desejo equivalendo a dizer que todo ser só aparece como manifestação de um aparecente último que ele mesmo nunca aparece
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a doação por escorços encontrando aqui seu verdadeiro fundamento, o desejo abrindo a profundidade do mundo ao mesmo tempo que essa profundidade permanece dissimulada na manifestação
O desejo nomeia essa negatividade concreta correspondente ao sentido de ser do mundo como identidade imediata do negativo e do positivo, sendo tal a verdadeira significação do quiasma pelo qual Merleau-Ponty definiu em última análise a fenomenalidade-
se a carne é o que só é afetado por si mesmo sendo afetado por outro, esse envolvente-envolvido que contém o que o contém, o desejo constitui o sentido de ser próprio da carne
Essa determinação da fenomenalidade conduz a uma teoria renovada da ipseidade, da dualidade psicofísica e do inconsciente, a autoafecção que caracteriza o sujeito só tendo sentido e realidade como heteroafecção-
a dualidade da alma e do corpo sendo essencialmente derivada e relativa, distinguindo-se apenas como a aspiração que anima o desejo e sua atualização finita
O inconsciente, enraizado no desejo, tem como conteúdo não mais a representação mas o próprio mundo, estando diante de nós e não em nós, correspondendo a essa totalidade não totalizável que cada percepção simultaneamente atualiza e perde-
a relação do inconsciente ao recalque vista sob nova luz, sendo o recalque inerente ao próprio desejo e não devido a um processo exterior a ele, a outra cena que define o inconsciente não sendo senão a cena do mundo
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