estudos:barbaras:desejo-distancia:start
Desejo e Distância
BARBARAS, Renaud. Le désir et la distance: Introduction à une phénoménologie de la perception. Paris: Vrin, 1999.
Introdução: O problema da percepção
-
A questão da percepção não possui apenas alcance técnico ou regional, mas se funde com a questão ontológica em seu sentido mais simples, a saber, como interrogação sobre o sentido do ser daquilo que é, pois se perceber é perceber algo, a percepção é o que nos abre ao que há, ao ser entendido como o que nos é dado originariamente antes de toda determinação
-
a citação segundo a qual a existência bruta e prévia do mundo que se pensava encontrar já ali ao abrir os olhos não é senão o símbolo de um ser que é para si desde que é, porque aparecer, e portanto aparecer para si, é todo o seu ser, sendo esse o ser que se chama espírito
-
o risco de que essa tese negligencie a dimensão inquestionável da experiência perceptiva enquanto vivida e index sui, a reflexão retirando a escada sob si mesma ao denunciar a percepção como dependente somente depois de ter se apoiado numa experiência perceptiva
-
a citação segundo a qual toda a análise reflexiva não é falsa mas ainda ingênua enquanto dissimula de si mesma sua própria mola propulsora
A decisão de trazer a questão da percepção à tona implica uma decisão sobre o próprio ser e já representa uma tomada de posição dentro da ontologia, na medida em que equivale a admitir que o único acesso possível ao ser é nossa própria experiência, sendo esse o fato metafísico fundamental do qual Merleau-Ponty toma consciência melhor do que ninguém antes dele-
a citação segundo a qual estou certo de que há ser, sob a condição de não buscar outro tipo de ser que o ser-para-mim
-
o eco dessa perspectiva nas primeiras linhas de O visível e o invisível, segundo as quais vemos as próprias coisas, o mundo sendo o que vemos
-
a referência à descoberta husserliana do a priori universal de correlação entre o objeto da experiência e seus modos de doação, tarefa que dominou toda a obra de Husserl
Tomada ao pé da letra, a decisão de buscar o sentido do ser no ser-para-mim é geral demais para caracterizar apenas o método fenomenológico em sentido estrito, convindo tanto a Descartes quanto a Hegel, e delimitando um campo vasto ainda que determinado na história da filosofia, campo que constituiu as condições de possibilidade de emergência de uma fenomenologiaMuitas correntes filosóficas que reivindicam um método de acesso ao ser a partir da experiência fracassam em dar conta da experiência como acesso à exterioridade, a percepção permanecendo, nesse contexto, sempre reduzida a outra coisa que não ela mesma-
o empirismo definindo o dado em termos de sensações, o que compromete o respeito ao dado ao confundir o estado subjetivo e aquilo que é experimentado nele, tornando a sensação um dado atômico e morto
-
a impossibilidade de explicar a relação com a coisa se ela não estiver de algum modo inscrita de antemão na sensação, de modo que a teoria associacionista sempre pressupõe o que pretende explicar
-
a confusão entre simplicidade lógica e simplicidade psicológica ou fenomenológica que compromete a redução empirista do complexo ao simples, a sensação sendo na realidade o mais abstrato dos conceitos
-
a espacialização implícita da sensibilidade concebida como uma espécie de revestimento sensível, o empirismo construindo a presença a partir de dados presentes sem restituir a presença em seu sentido verdadeiro de presença de algo
O retorno à experiência perceptiva exige, portanto, um esforço concertado e um método, a dúvida cartesiana constituindo a primeira tentativa de redução fenomenológica ao desfazer nosso vínculo imediato com o que aparece-
a percepção não constituída por sensações presentes à consciência mas constituindo o mundo ao representá-lo a si mesma, segundo a análise cartesiana
-
a análise do pedaço de cera revelando um mal-entendido sobre a experiência propriamente perceptiva, Descartes confundindo a cera percebida com a cera física ao separar os aspectos sensoriais do objeto de que são aspectos
-
a substituição do momento perceptivo propriamente dito pela justaposição de uma intelecção e de sensações concebidas como ideias sem dado
-
o fato de Descartes assumir em certo sentido o preconceito objetivista subjacente ao empirismo, ao não contestar a determinação do mundo como conjunto de objetos ainda que duvide de sua existência
A tradição da presença e a tradição da coisidade são alternadamente sacrificadas pelas correntes evocadas, cabendo a uma filosofia da percepção conceber as condições de uma unidade profunda entre matéria e forma, diversidade e unidade, receptividade e atividade-
o fracasso da filosofia da percepção decorrendo de uma confusão entre as leis da realidade aparecente e as que regem seu aparecimento
A filosofia de Husserl é a primeira a medir plenamente as exigências de uma filosofia da percepção, situando a percepção no centro de uma tipologia de atos estabelecida desde as Investigações Lógicas-
a tese, retomada de Brentano, segundo a qual nada pode ser julgado, desejado, esperado ou temido se não for antes apresentado, de modo que só há doação de objeto em sentido teórico
-
a distinção corrente entre atos objetivantes e atos não objetivantes fundados sobre os primeiros, a percepção sendo uma espécie do gênero ato objetivante
-
a distinção fundamental entre atos significativos, que visam o objeto vazio, e atos intuitivos, que o tornam presente em sentido pleno, importando algo da plenitude do próprio objeto
-
a citação segundo a qual toda intenção significativa se acompanha, como possibilidade ideal, de uma intenção intuitiva que lhe corresponde, tendo esta última o caráter de preenchimento
-
a distinção, no interior dos atos intuitivos, entre a imaginação, que apenas figura o objeto, e a percepção, que atinge o próprio objeto em carne e osso
-
a definição husserliana da percepção como intuição doadora originária, fonte legitimadora de conhecimento segundo o princípio de todos os princípios
A percepção adquire em Husserl um estatuto primordial por dar acesso ao próprio ser, de modo que toda interrogação sobre o ser deve passar por uma interrogação sobre a percepção, e essa caracterização ultrapassa o nível da percepção sensorial estrita-
a extensão do conceito de percepção a atos categoriais fundados sobre a intuição sensível, Husserl falando de percepção em sentido amplo para as intuições categoriais
-
a permanência do momento sensível como o que assegura a dimensão de presença em carne que distingue a percepção da imaginação
A percepção atinge a coisa mesma em virtude de ser intuição, mas distingue-se de um conhecimento adequado, pois o objeto nunca é dado inteira e integralmente tal como é em si, situação que Husserl tematiza na teoria dos escorços-
a citação segundo a qual a percepção, ao pretender nos dar o objeto ele mesmo, reivindica ser um ato que não requer preenchimento ulterior, o que permanece uma mera pretensão
-
o exemplo da mesa percebida sob uma diversidade contínua de aparências e escorços que apresentam sempre o mesmo objeto sem jamais esgotá-lo
-
a ambiguidade constitutiva pela qual o escorço é ao mesmo tempo ele mesmo e o objeto que apresenta, identidade de si e de sua própria superação
-
o objeto sendo simultaneamente presente, por ser atingido em pessoa, e indefinidamente ausente, por nenhuma série de escorços poder esgotar o teor de seu ser
-
a caracterização eidética, e não fatual, da coisa espacial só podendo ser dada em percepção através de um escorço, por essência e não por acidente da constituição humana
-
o abismo eidético entre a experiência vivida, dada a si mesma sem distância, e a coisa transcendente, dada apenas por escorços, mesmo para um sujeito de conhecimento absolutamente perfeito
-
a diferença essencial e intransponível entre a percepção e a objetivação simbólica ou significativa, o escorço não sendo nem a coisa nem uma simples aparência
Husserl ultrapassa resolutamente os limites das abordagens clássicas da percepção situando-se além da alternativa entre empirismo e intelectualismo, mas o quadro conceitual que estabelece para sua teoria permanece aquém do que a doutrina dos escorços prometia-
a tensão inegável entre o momento descritivo da teoria da percepção e o momento interpretativo que carrega pressupostos aos quais a descrição se opõe
-
a tarefa de uma filosofia da percepção não consistindo em apropriar-se da percepção por meio de categorias disponíveis, mas em deixar-se reformar pelo contato com a percepção, o que exige elucidar antes os pressupostos subjacentes à análise husserliana
Conclusão
-
A posição desenvolvida conduz a repensar radicalmente o estatuto do espaço e do tempo, invertendo-se a primazia husserliana da temporalidade segundo a qual a transcendência constitutiva da manifestação se confunde com a transcendência temporal
-
a citação de Patočka segundo a qual tudo o que aparece só pode aparecer porque a essência da manifestação abrange tudo
-
não sendo por serem temporais que as manifestações são manifestações de um mundo, mas porque cada manifestação é manifestação de um mesmo mundo que pode ser temporalmente unificada com as outras
O horizonte não remete à estrutura temporal da consciência, mas a estrutura temporal da consciência remete ao horizonte como forma última do ser, valendo o mesmo para a síntese espacial-
a citação de Patočka segundo a qual deve haver algo como um movimento pelo qual o coração do mundo constitui seu conteúdo contingente e cuja espaço-tempo-qualidade em totalidade é um sedimento
-
espaço, tempo e essência sendo apenas modalidades desses raios de mundo de que fala Merleau-Ponty, o estilo comum a tudo o que aparece
Essa simultaneidade originária não deve ser concebida como elemento desdobrado fora do que nela ocorre, podendo ser pré-temporal apenas por ser igualmente pré-espacial, o mundo sendo correlativo a uma vida cuja simultaneidade não se opõe à sucessão-
todo desejo sendo desejo de um mundo, e essa simultaneidade sendo sinônima de uma sucessão, cumprindo-se apenas como o devir dessa vida
A questão mais difícil diz respeito à relação última entre sujeito e aparição, entre desejo e distância, existindo além dos movimentos objetivos e intencionais um movimento fundamental pelo qual a aparição como tal é possível, caracterizado como desejo-
esse desejo intramundano sendo a condição de manifestação do próprio mundo, forma efetiva de um atraso sobre si do transcendental, uma facticidade do transcendental
Poder-se-ia distinguir desse desejo um protomovimento, o próprio ir para fora do fundo obscuro, do qual o mundo seria o verdadeiro sujeito, sendo o vivo da vida apenas o lugar de passagem de uma dinâmica de que não possui a iniciativa-
a citação de Patočka sobre o protomovimento como saída do fundo obscuro, distinto de uma manifestação secundária que pressupõe a criação de centros
-
a questão de saber se, com isso, não se ultrapassa o contexto estritamente fenomenológico em favor do que se poderia chamar cosmologia, no sentido definido por Ricœur
Esse movimento mais profundo do que a distinção entre o movimento da vida e o da manifestação seria aquele que Merleau-Ponty tinha em mente ao evocar, nas últimas notas de trabalho, uma única explosão do Ser para sempre, uma explosão estabilizada-
a atualização de um fundo que ainda a retém em sua profundidade, jamais podendo cair fora de sua explosão sob a forma de seres plenamente positivos
Aristóteles vem inevitavelmente à mente ao tentar esboçar o sentido dessa cosmologia, a teoria do ato e da potência podendo ser reinterpretada como tentativa de elucidar um sentido de mudança neutro em relação à distinção entre o antropológico e o físico-
a necessidade de radicalizar essa teoria suspendendo o primado da substancialidade para conceber um movimento que não seria movimento a partir de algo
-
a citação de Patočka comparando esse tipo de movimento ao de uma melodia, cada elemento sendo apenas parte de algo que o excede, permanecendo sempre por vir enquanto a composição é ouvida
Restaria dar conta de como se pode explicar o conhecimento a partir dessa análise da percepção, o que exige reexaminar o próprio sentido do viver à luz de sua capacidade de dar origem à percepção-
a posição de Straus, para quem o sentir se distingue do perceber como modo pático de existir em relação a um modo gnóstico, o sentir enraizando-se num viver reduzido às necessidades vitais
-
a citação de Straus segundo a qual o primeiro estágio da experiência sensorial é o da separação e da união, cujas formas cardinais, nutrição e reprodução, são asseguradas pelo sentir
-
a citação de Maldiney segundo a qual o nada não faz parte do texto da vida, definir a vida a partir da necessidade levando a negar-lhe qualquer aptidão para fazer aparecer a negatividade no mundo
É por se negar ao sujeito vivo a aptidão para o negativo que não se consegue conceber a continuidade entre viver e conhecer, sendo na exata medida em que se introduz o nada no texto da vida que se pode enraizar nele a percepção-
o sujeito vivo relacionando-se essencialmente ao todo do mundo, contendo sua experiência necessariamente negatividade, sendo a vida negatividade, falta inesgotável que abre o campo da transcendência
Compreender o viver para além da necessidade permite apreender o conhecer aquém da posição de um puro objeto, sendo no próprio nível do desejo que se constitui a relação husserliana entre intencionalidade vazia e preenchimento, mas como relação sempre desigual-
a citação de Merleau-Ponty segundo a qual não é um ser positivo mas um ser interrogativo que define a vida
-
a citação de Straus segundo a qual o ser-incompleto na particularidade do momento atual constitui a possibilidade ontológica fundamental de uma transição de um aqui a um ali, tornando possível tanto a exploração animal quanto a interrogação humana
Desejo e interrogação são um único e mesmo movimento, sendo na desejo constitutivo da vida que se enraíza a dimensão interrogativa que constitui o cerne de nosso conhecer, não havendo por fim alternativa entre vida e filosofiaestudos/barbaras/desejo-distancia/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
-
