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Redução Fenomenológica
BARBARAS, Renaud. Le désir et la distance: Introduction à une phénoménologie de la perception. Paris: Vrin, 1999.
A redução fenomenológica como crítica do nada
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A redução fenomenológica, entendida como suspensão da atitude natural, não consiste numa negação da existência do mundo mas numa suspensão da tese de existência que visa elucidar seu sentido de ser, sendo necessário reconhecer que Husserl permanece dependente de pressupostos não questionados que comprometem a radicalidade dessa empresa
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a determinação da estrutura da aparição dependendo do telos racionalista da doação adequada, ideal que só vale no nível do aparecente e não pode comandar a determinação da aparição
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a exigência de que uma redução autêntica liberte a aparição de sua sujeição às características do aparecente, elucidando essa tese secreta de existência num sentido inteiramente distinto
No último capítulo de O visível e o invisível, Merleau-Ponty situa o limite essencial da fenomenologia husserliana na determinação original da fenomenologia como eidética, isto é, numa certa concepção da essência que compromete a fidelidade aos fenômenos-
a citação segundo a qual a essência é dependente, o inventário das necessidades essenciais sendo sempre feito sob uma suposição, mas de onde vem essa hipótese senão de um saber situado abaixo da essência
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a demonstração de que a fenomenologia husserliana, ao subordinar a descrição da aparição a uma concepção prévia do sentido apreendido como ser positivo, reconstitui a experiência a partir das essências em vez de partir da experiência
As dificuldades do conceito husserliano de essência resumem-se na contradição entre a necessidade de uma mediação, a variação eidética apoiada na experiência mundana, e a possibilidade de uma intuição da essência-
a citação segundo a qual a essência emerge desse teste, não sendo portanto um ser positivo, mas um invariante cuja solidez se mede exatamente pelo poder de variar a coisa
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a alternativa insolúvel entre uma essência que supõe o teste de uma variação separando-a da experiência e uma essência efetivamente acessível em transparência como ser positivo, ambas comprometendo o próprio conceito de essência
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o intuicionismo aparecendo como o outro lado do objetivismo, a essência devendo antes permanecer velada naquilo de que é essência, como quadro secreto ou princípio de equivalência
Essa crítica conduz ao que constitui a fonte última do objetivismo, a apreensão da essência significando uma variação total que supõe a negação de todo pertencimento e remete a um ponto de vista que é o do próprio nada-
a citação segundo a qual reduzir realmente uma experiência à sua essência exigiria alcançar uma distância que a colocasse inteiramente sob nosso olhar, retirando-se ao fundo do nada
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a citação sobre a coisa-objeto, o Em Si, só sendo alcançado ao impor à experiência um dilema abstrato que a experiência ignora, confrontando-a com a possibilidade do nada
O objetivismo observado na fenomenologia husserliana estaria sujeito à crítica bergsoniana da metafísica desenvolvida em A evolução criadora, que mostra a história da metafísica estruturada em torno de falsos problemas cristalizados no uso do princípio de razão suficiente-
a atitude natural não consistindo tanto numa ingenuidade quanto ao sentido de ser do mundo quanto numa cegueira quanto ao sentido de ser do próprio nada
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a convergência entre a redução fenomenológica assim entendida e a crítica bergsoniana da metafísica, a intuição bergsoniana enquanto método não sendo estranha ao retorno à fenomenalidade dos fenômenos
O exame do nada que abre o capítulo quatro de A evolução criadora responde à necessidade de enfrentar as ilusões teóricas, a ideia de existência sendo concebida como emergência das profundezas do nada, vitória sobre o nada-
a citação segundo a qual digo a mim mesmo que poderia haver, que deveria haver o nada, e então me admiro de que haja algo
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a citação segundo a qual, se passamos pela ideia do nada para chegar à do Ser, o Ser a que chegamos é uma essência lógica ou matemática, portanto não temporal, o que impõe uma concepção estática do real
A reabilitação ontológica da duração exige uma abordagem imediata do ser sem qualquer interposição do nada, sendo essa a citação, raramente lembrada, de O visível e o invisível que enraíza o objetivismo numa cegueira inevitável da consciência-
a citação segundo a qual o objetivismo desconsidera o Ser e prefere-lhe o objeto, um Ser com o qual rompeu e que ele situa além dessa negação, negando essa negação
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a nota inédita de janeiro de 1960 sobre o ser eminente, supondo sempre um pensamento essencialista segundo o qual há algo que faz o Ser emergir em última instância, uma base ontológica negativa análoga à teologia negativa
A crítica do princípio de razão suficiente pressupõe uma crítica da ideia de nada, mostrando que há mais no nada do que no ser, e não menos, pois o nada pressupõe uma posição prévia do ser-
a impossibilidade de que a ideia de nada proceda de uma experiência qualquer, pois há sempre algo, o fluxo das coisas, uma plenitude sempre seguindo a outra plenitude
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a conversão da ideia de nada em dois elementos positivos, a ideia de substituição e o sentimento de desejo ou pesar, sendo a ideia de um nada absoluto na realidade a ideia de Tudo acompanhada de um movimento da mente
O nada é na realidade uma miragem que supõe o horizonte da percepção, representa uma imagem invertida do real e exprime um desejo no seio de uma realidade que não se presta a ele, dissipando-se assim que a consciência procura tematizá-lo-
a determinação do real a partir do nada procedendo de uma confusão entre a ordem pragmática e a ordem metafísica, projetando sobre a realidade em si as categorias da ação
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a citação segundo a qual toda ação humana parte de uma insatisfação e portanto de um sentimento de ausência, indo do nada a algo
A redução delineada por Merleau-Ponty está ao mesmo tempo próxima e distante da intuição bergsoniana, tratando-se de retornar a um nível abaixo da idealização, mas sem restringir a produção ou criação ao campo prático como faz Bergson-
a citação segundo a qual a filosofia deve ser reativação total, pensamento a partir da sedimentação, contato com o Ser total antes da separação entre a vida pré-teórica e os Gebilde humanos
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a impossibilidade de circunscrever um campo de ser aquém do giro decisivo, pois a experiência é originariamente produção, o pré-humano sendo antes a profundidade do impresentável exigido por toda presença
A análise bergsoniana, ao introduzir o desejo na gênese da ideia de nada, reintroduz nela um componente autenticamente negativo que contradiz a afirmação de que uma mente em presença da experiência ignoraria a negação-
o desejo implicando um sentimento de ausência, sendo focalização de uma realidade como ausente, e portanto referência ao não-ser como tal
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a naïveté bergsoniana em negar toda realidade ao nada, submetendo-se paradoxalmente a uma concepção positivista do nada que ele mesmo critica
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a possibilidade de introduzir uma forma de negatividade no todo do que é, isto é, no mundo, sem que isso implique postular um nada absoluto contra o fundo do qual o ser se recortaria
A insuficiente radicalidade da redução husserliana decorre de sua dependência ao ideal racionalista de uma doação adequada e, consequentemente, a uma determinação espontânea do ser como objeto, que entra em contradição com a própria estrutura da percepção-
a atitude natural situada num nível mais profundo do que Husserl compreendeu, consistindo não tanto na tese de uma realidade espaço-temporal única quanto na posição implícita de um nada positivo
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a citação de Husserl segundo a qual a toda posição do mundo, posição contingente, se opõe a posição do Ego puro, posição necessária e absolutamente indubitável
O caráter negativo da époche enfatizado nesse texto responde à caracterização do que existe como objeto, sendo a negação nela em obra afim à imagem de nada subjacente à tese posicional do objeto-
a nota enigmática de Merleau-Ponty segundo a qual a époche mal apresentada como suspensão da existência do mundo recai num defeito cartesiano de hipótese de Nichtigkeit do mundo
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a formulação positiva segundo a qual a époche não rompe com o Ser, não o reduz ao nada, mas apenas o põe em suspenso, estabelecendo entre ele e nós uma separação onde seu relevo se torna visível
Husserl nunca formulou definitivamente a redução, e o risco de confusão entre a atitude natural e a atitude naturalista conduz a uma primeira redução ao Lebenswelt seguida de uma segunda redução que o constitui no centro da subjetividade transcendental-
o mundo da vida possuindo, segundo o próprio Husserl, as mesmas estruturas pressupostas pelas ciências objetivas, sendo definido como o universo das coisas distribuídas na forma-mundo do espaço-tempo
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a alternativa proposta por Merleau-Ponty: ou se trata de um retorno ao mundo como tal, guardando sua própria aparição, caso em que toda constituição numa subjetividade transcendental seria inconcebível, ou tal constituição é possível, mas então o mundo da vida permanece um mundo objetivo e a redução inicial fracassou
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