estudos:barbaras:desejo-distancia:percepcao
Percepção
BARBARAS, Renaud. Le désir et la distance: Introduction à une phénoménologie de la perception. Paris: Vrin, 1999.
Percepção e movimento vivo
-
A crítica ao subjetivismo husserliano reformula a redução fenomenológica para elucidar a autonomia da aparição, sendo necessário voltar à questão do sujeito dessa aparição, a experiência de si sendo necessariamente co-manifestação do mundo sem que isso permita identificar o sujeito com qualquer manifestação
-
a autonomia da aparição significando que o mundo não é constituído pelo sujeito, mas isso não implica que a aparição possa dispensar um sujeito, sendo este um momento constitutivo interno da fenomenalidade e não uma esfera absoluta
-
os três momentos constitutivos da aparição se convocando mutuamente, sendo o sujeito perceptivo, por isso mesmo, a condição do mundo e do ser-no-mundo, fenomenalizante e finito
Confronta-se aqui a situação inédita de uma condição que só pode condicionar estando ao lado daquilo de que é condição, transcendental sempre já atrasado em relação a si mesmo, de modo que a subjetividade do sujeito exige sua encarnação assim como não há corpo que não seja corpo de um sujeito-
a estrutura da aparição questionando efetivamente a posição, remontando a Descartes, segundo a qual o corpo seria de ordem diferente da do pensamento
A abordagem de Merleau-Ponty ainda não é suficientemente radical, permanecendo dependente de uma filosofia da consciência ao apoiar-se na descoberta husserliana da constituição do corpo próprio no toque, reduzindo a distância ontológica entre consciência e corpo sem contestar sua dualidade-
a dificuldade extraordinária de compreender como o tocante pode ser tocado e como meu corpo tangível pode revelar-se sensível, Merleau-Ponty dando-se inevitavelmente o corpo e sua diferença em relação à sensibilidade
-
a redução da diferença entre sujeito e mundo pela carne representando uma espécie de ontologização, de naturalização de uma estrutura de manifestação em que suas articulações se perdem
-
a citação segundo a qual a carne do mundo não se sente a si mesma como minha carne, sendo sensível e não sentiente, chamada carne apenas para dizer que é uma prenhez de possíveis, Weltmöglichkeit
-
a nota inédita sobre o valor do dualismo e a recusa de um monismo explicativo recorrendo a uma ontologia intermediária, buscando antes um meio-termo ontológico
-
a passagem da Fenomenologia da percepção a O visível e o invisível não representando avanço decisivo, permanecendo dependente da caracterização inevitável do corpo próprio como unidade de sensibilidade e materialidade
Se o sujeito está situado no mundo, existe num modo inteiramente diferente do dos outros seres mundanos, sendo o mediador da aparição, adaptado à sua estrutura, envolvendo necessariamente uma dimensão de negatividade correspondente ao excesso da manifestação sobre si mesma-
apenas um sujeito que é seu próprio excesso ou sua própria negação podendo corresponder ao horizonte, situando-se nos antípodas da coisa caracterizada por seu repouso em si mesma
-
a questão decisiva sendo qual dimensão mundana, a corporal, da percepção manifesta uma diferença eidética radical em relação aos outros seres corporais, cabendo abordar o sujeito a partir do movimento vivo e não da encarnação
Corpos que percebem são corpos vivos distinguidos dos outros seres corporais por sua capacidade de movimento, sendo no nível dessa motilidade constitutiva do ser vivo que se deve acessar o sentido último da subjetividade-
mover-se não sendo ser o que se é, mas estar sempre além e portanto aquém de si, existindo a partir da não coincidência, havendo negatividade no há apenas como mobilidade
-
a inscrição em uma perspectiva particularmente aristotélica, sendo o psíquico compreendido como determinação do vital, a percepção estando essencialmente ligada ao movimento
A dificuldade em conceber a dupla condição do sujeito decorre do contraste entre res cogitans e res extensa, cabendo descobrir um sentido unitário do viver que precede a divisão entre o próprio e o metafórico-
Husserl descrevendo a atividade da subjetividade transcendente apenas em termos de vida, metáfora necessária que revela algo mais profundo que a divisão entre próprio e metafórico
A relação constitutiva entre percepção e movimento foi estabelecida pela corrente psicofisiológica de Goldstein, que enfatiza o caráter unitário do organismo, sensibilidade e motilidade devendo comunicar-se por serem duas expressões inquestionáveis do ser vivo-
os fenômenos tônicos que acompanham as impressões ópticas e táteis, correspondendo a cada impressão sensorial uma tensão determinada da musculatura
-
a significação vital do verde, para além do conteúdo sensível, representando o tipo de encontro que o organismo tem com ele, indistintamente sob a forma de movimentos e de manifestação de um conteúdo
Von Weizsäcker situa esse laço entre percepção e movimento no centro de sua pesquisa, radicalizando as teses de Goldstein ao caracterizar a relação como encontro histórico entre o eu e o mundo-
a citação segundo a qual o caráter da percepção não é nem orgânico nem inorgânico, mas um encontro histórico entre o eu e o mundo, sempre apenas uma etapa da evolução ativa desse encontro
-
o princípio de equivalência segundo o qual se pode substituir mais ou menos completamente uma percepção de movimento por um automovimento e vice-versa
Seguindo Minkowski, a presença do movimento no cerne da percepção se mostra pela análise da atenção, definida como o ato de deter-se, comparável ao gesto de tomar um objeto na mão, o que revela sua dimensão motora-
a citação de Minkowski segundo a qual, se percepção e pensamento não fossem também, em relação ao dinamismo da vida, um deter-se ali, não se compreenderia por que mecanismo a atenção se acrescenta a eles
-
o exame da percepção visual e tátil confirmando isso, a fixação de um objeto implicando movimento contínuo dos olhos e da cabeça, a percepção tátil implicando movimento de preensão
-
a citação de Merleau-Ponty sobre a visão, perguntando o que seria a visão sem o movimento dos olhos e como este poderia reunir as coisas se fosse cego
O movimento remete ao objeto segundo um modo irredutível a um deslocamento objetivo e mecânico, é o próprio movimento que percebe, no sentido de que o objeto existe para ele e nele tem seu sentido-
a citação de Patočka sobre a força vidente que deve conter algo como uma clareza, uma luz pela qual ilumina por si mesma seu caminho
O movimento em que se dá a percepção tem estatuto específico que o distingue de um deslocamento objetivo, justificando falar de automovimento ou movimento subjetivo, a intenção sendo seu próprio cumprimento-
a citação de Patočka sugerindo que talvez a certeza de si da reflexão decorra de envolver um tipo particular de movimento interno
-
o movimento sendo a identidade realizada entre ser e aparência, o sujeito existindo apenas a partir de sua própria retirada, cumprindo-se apenas ao se exteriorizar
O impulso não se perde na exterioridade ao se fazer movimento, pois a realização do eu no movimento envolve igualmente a retenção do movimento no interior da pura exterioridade, o movimento vivo tendo a propriedade de que o poder de que procede não se esgota mas se reativa-
o verdadeiro sentido do sujeito consistindo nessa autonomia do movimento vivo, capacidade de recriar-se continuamente, correspondendo à tensão típica do movimento vivo que permanece sempre afastado de si
-
o sujeito do movimento não sendo senão o próprio impulso como excesso do movimento sobre suas realizações, reserva dinâmica, havendo sujeito do movimento apenas como sujeito em movimento
O sujeito vivo não é senão esse excesso inatribuível além de qualquer posição final, confundindo-se com a negatividade própria do movimento vivo, essa distância inatribuível e insuperável que separa o movimento de si mesmo-
o movimento sendo ao mesmo tempo penetração na exterioridade e capacidade de renovação indefinida, reencontrando a coisa onde ela está sem poder nela deter-se
O movimento assim definido conjuga as duas características constitutivas da percepção, atingindo a coisa mesma por ser entrada na exterioridade e, sendo também capacidade de renovação, atingindo-a apenas como o que impele a um novo movimento-
a volubilidade própria do movimento vivo que só pode atingir uma posição efetiva sob a condição de abandoná-la, tendo um objetivo destinado apenas a se tornar novo começo
O movimento de esboço que exigia a difícil conciliação entre revelar e esconder se compreende a partir da unidade diferenciada entre capacidade e ação que caracteriza o movimento vivo, podendo-se dizer que o movimento está para a percepção assim como a interrogação está para a resposta-
o percebido não sendo senão o que, dentro da aparição, é atingido pelo movimento como aquilo que convoca a continuação indefinida desse movimento, a saber, como horizonte
Uma nota do curso sobre a natureza, a mais radical que Merleau-Ponty escreveu sobre a percepção, afirma não conceber a estesiologia como descida de um pensamento a um corpo, não havendo percepção sem movimentos prospectivos-
a citação segundo a qual não nos movemos como uma coisa, mas por uma redução de separação, sendo a percepção apenas o outro polo dessa separação, a separação mantida
-
percepção e movimento aparecendo como dois lados de um mesmo evento fundamental, o movimento sendo tentativa de reduzir uma separação que, no entanto, se mantém, dando origem a nova percepção
Ao afirmar a autonomia da aparição em relação a qualquer positividade subjetiva e reduzir a função do sujeito na percepção à sua atividade motora, aproxima-se da tese desenvolvida por Bergson no primeiro capítulo de Matéria e memória-
o conceito de imagem exprimindo exatamente uma identidade entre o esse e o percipi, o cérebro sendo apenas uma imagem entre outras imagens, incapaz de compreender a totalidade
-
a distinção entre dois tipos de movimento dando conta da diferença entre ser e ser percebido apenas no nível das imagens, sem introduzir qualquer dimensão psíquica
-
o corpo vivo se distinguindo das outras imagens por sua capacidade de deter o impulso vindo delas, sendo a percepção mestra do espaço na exata medida em que a ação é mestra do tempo
-
a distância que caracteriza o objeto percebido sendo apenas a expressão do atraso temporal da reação que ele vai provocar
-
a passagem da presença à representação se dando por diminuição e não por adição, a ação do corpo circunscrevendo a imagem e transformando-a em representação
Bergson consegue dar conta da diferença entre a coisa e sua percepção apenas pela diferença entre dois tipos de movimento na esfera ontologicamente homogênea das imagens, sem introduzir realidade psíquica alguma que suporte a representação-
a percepção não tendo interesse especulativo mas sendo ação, e não conhecimento
Permanece, contudo, um desconforto, pois Bergson não consegue conceber esse ser percebido sem um sujeito que o condicione, sendo o polo subjetivo correlativo da aparição da totalidade ausente de sua descrição-
a citação de Merleau-Ponty segundo a qual Bergson deduz o percebido do ser em vez de admitir um primado da percepção, colocando-se diretamente no ser para depois introduzir o recorte perceptivo
-
a degradação do percipi ao esse tendo como correlativo um sujeito percipiente desprovido de poder fenomenalizante, reduzido à sua atividade vital
-
a citação segundo a qual há em Bergson uma cegueira quanto ao ser próprio da consciência e sua estrutura intencional
O que constitui fracasso do ponto de vista fenomenológico faz pleno sentido do ponto de vista do empreendimento bergsoniano, pois a percepção pura descrita no primeiro capítulo é uma abstração, sendo a inscrição na duração que permite dar conta da dimensão subjetiva através da memória-
a dualidade entre psíquico e corporal deslocada e radicalizada como dualidade entre memória e matéria, o realismo criticado no nível das imagens aparecendo como contrapartida de um espiritualismo
-
a citação segundo a qual o corpo não consegue ser sujeito, pois se o corpo fosse sujeito, o sujeito seria corpo, o que Bergson não quer a preço algum
Reavalia-se assim a significação da teoria das imagens, que descreve a realidade correlativa da ação vital sem pretender estabelecer a identidade entre ser e fenomenalidade, sendo provisória e base de uma elaboração mais profundaA assimilação do movimento perceptivo pelo movimento vital deve vir acompanhada de reservas precisas, situando-se a presente perspectiva entre Husserl e Bergson, pois Bergson não dá conta da totalidade prévia cuja manifestação originária permite as manifestações singulares-
a manifestação do mundo fazendo parte da estrutura da aparição, não havendo manifestação singular senão como co-manifestação de um mundo
-
o mesmo sujeito circunscrevendo a manifestação como negação da totalidade e portando a possibilidade da totalidade de que é negação
É pelo movimento vivo que se deve apreender de modo unitário a possibilidade da manifestação e a da co-manifestação do mundo que ela nega, o movimento constituindo a totalidade no próprio ato pelo qual a negaO sujeito só pode ser condição da aparição, e portanto sujeito para o mundo, sendo sujeito intramundano, se o movimento que desdobra no mundo é simultaneamente movimento que abre o mundo-
a incapacidade de Bergson de conceber o sujeito como sujeito da totalidade das imagens tendo como contrapartida sua caracterização da vida como reação a estímulos externos segundo a necessidade
-
o sentido de ser do sujeito perceptivo devendo ser buscado além da dimensão da estrita necessidade, situando-se a meio caminho entre a necessidade e o pensamento, tendo acesso à totalidade apenas na e pela presença finita que a nega
estudos/barbaras/desejo-distancia/percepcao.txt · Last modified: by 127.0.0.1
-
