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Aparição
BARBARAS, Renaud. Le désir et la distance: Introduction à une phénoménologie de la perception. Paris: Vrin, 1999.
Os três momentos da aparição
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A époche, método de acesso ao sentido de ser do mundo, não pode ser um ato de suspensão da existência do mundo, mas antes destruição dos obstáculos que comprometem a apreensão dessa existência enquanto tal, negação do nada que desenraíza o preconceito do objeto para dar acesso ao sentido de ser do que éNegar o nada puro como condição prévia do ser é reconhecer uma realidade sempre já ali, constitutiva da aparição, fundamento originário que não pode essencialmente ser negado por ser a base prévia exigida por toda negação
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a descoberta da impossibilidade do nada revelando simultaneamente um ser que não pode não ser, estranho à negação, precedendo sempre o que nele emerge
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a époche assim entendida trazendo à luz um campo de presença necessariamente prévio a toda manifestação, desvelamento da estrutura de pertencimento constitutiva da aparição
Dizer que o pertencimento é constitutivo da aparição equivale a reconhecer que o mundo também é constitutivo da manifestação, sendo essa totalidade aberta, esse envolvente absoluto, campo de todos os acontecimentos possíveis-
a citação de Patočka segundo a qual o mundo não é soma mas totalidade prévia, sendo por todo seu ser meio, em contraste com aquilo de que é meio, e por isso nunca objeto, sendo único e indivisível
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a recusa de postular uma estrutura envolvente preliminar que justificasse a inscrição de cada ser, o que seria recair, de modo mais sofisticado, na ontologia do objeto
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o mundo sendo o a priori da aparição porque o pertencimento é sua estrutura constitutiva, e a citação de Patočka sobre a conexão única no interior da qual está tudo o que há
Uma vez efetuada a redução, o objeto de nosso espanto aparece como o oposto de uma tese, correspondendo à dimensão de passividade inerente a toda tese, fundamento que ela sempre requer por não poder ser criação pura, não brotando do nada-
a possibilidade de a époche liberar a estrutura da aparição da plenitude do objeto aparecente, restabelecendo sua autonomia
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o mundo sendo, como base de todo aparecente, capaz de conter tudo, tendo por único conteúdo a própria capacidade, movendo-se assim em direção à forma
A aparição do sujeito a si mesmo, chamada consciência, está submetida às condições gerais da aparição, à doação de um mundo, invertendo-se aqui inteiramente a perspectiva husserliana que postulava um abismo eidético entre consciência e realidade natural-
a manifestação do sujeito a si mesmo envolvendo, tal como a da coisa, uma dimensão de distância ou obscuridade, sem gozar de nenhum privilégio em relação à manifestação da coisa
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a citação de Merleau-Ponty sobre o Ser-visto, sendo eminentemente percipi, e que só é finalmente possível porque há Ser que contém também sua negação, seu percipi
A époche assim implementada tem consequências contrárias às que tem em Husserl, não se estendendo à ordem da imanência mas desfazendo-a, despossuindo a consciência de si mesma e de sua pretensão fundadora-
a citação de Patočka segundo a qual o que se descobre como já ali não é o absoluto como dado imanente, mas o trans, o que contrasta a coincidência do intuído com o intuinte sempre remetendo além
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a inversão da relação de subordinação tematizada por Husserl, tendo a realidade prioridade sobre a consciência, que procede da profundidade do mundo implicada na aparição
A subordinação da consciência de si à estrutura geral da aparição não reduz o sujeito à insignificância nem lhe nega especificidade, pois a essência desse mundo implica que ele não possa ser distinguido de sua manifestação-
a lei fundamental da aparição sendo a dualidade entre o que aparece, o mundo, e a quem esse aparecer aparece, a subjetividade, além do como
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a especificidade do sujeito em relação aos outros seres dependendo do fato de refletir a co-manifestação do mundo em cada manifestação, sendo capaz de se relacionar com uma totalidade não totalizável
A inscrição do sujeito no mundo, realizada como corpo, é apenas a consequência da estrutura de pertencimento constitutiva de toda manifestação, a encarnação sendo uma característica da fenomenalidade e não sua condição-
a impossibilidade de perguntar como o sujeito produziria a manifestação, cabendo antes revelar seu modo de ser característico tal como se ajusta à estrutura da aparição
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o percipere sendo o que é tornado possível pelo percipi, não fazendo sentido buscar abordar o percipere como fonte do percipi
Retornando à crítica bergsoniana do nada, verifica-se que ela não equivale a uma rejeição sem matizes do negativo, mas implica o reconhecimento de uma forma específica de negatividade, o que é excluído sendo a positividade do nada e não o nada em si mesmo-
a abordagem direta do ser, sem passar pelo nada, descobrindo nele uma dimensão de negatividade, pois sua plenitude positiva só se justificava pela posição desse nada prévio
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a necessidade de introduzir a negatividade na própria definição do ser, negatividade constitutiva do ser mesmo e inerente à aparição
Bergson não chega a essa conclusão por causa do contexto de sua crítica, voltada a reabilitar a duração em sua positividade ontológica, transferindo à duração a positividade ontológica que a metafísica concedia à essência-
a citação de Lebrun segundo a qual o bergsonismo é menos uma crítica da metafísica do que um deslocamento de seu sujeito, o Ser tendo apenas mudado de conteúdo
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a nota inédita de Merleau-Ponty de fevereiro de 1959 segundo a qual Bergson tem razão em sua crítica do nada, errando apenas ao não dizer nem ver que o ser que resiste ao nada não é o ser
O resíduo da redução deve ser entendido como algo diferente da coisa plenamente determinável, não sendo nada no sentido de superar um nada prévio, mas no sentido de sempre precedê-lo e constituir a base sobre a qual uma negatividade pode emergir-
o há sendo essa presença suave ou tácita que, por não negar o nada, nunca atinge a plena determinação do objeto
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a identidade imediata entre o positivo e o negativo caracterizando o modo de existir liberado por essa redução, sua positividade fenomenal acompanhada de uma espécie de distância interior
A estrutura de pertencimento que caracteriza a aparição inclui a ideia de que nada pode ser dado se o mundo, como campo dessa manifestação, não é ele mesmo dado, de sorte que a doação de qualquer coisa pressupõe a doação originária do mundo-
o mundo não podendo ser dado ele mesmo por ser totalidade envolvente, sua manifestação significando seu desaparecimento, pois todo encontro pressupõe a possibilidade de um desencontro
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a originariedade implicando e não apenas permitindo uma dimensão de ausência, de modo que a percepção não pode coincidir com a plenitude como preenchimento do vazio
Dizer que o mundo é originariamente dado é reconhecer que o vazio, inerente à ausência do mundo enquanto tal, é um modo do dado, devendo-se abandonar o horizonte de adequação e compreender que a não apresentação da coisa no escorço é a condição de sua manifestação-
a estrutura de pertencimento sendo dada como a presença do que só pode ser ausente, apresentação de algo inapresentável
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o fluxo infinito de escorços que separa a manifestação presente do objeto aparecente sendo efetivamente dado, e não apenas regulador como pensava Husserl
O conceito de horizonte nomeia essa aparição singular, essa doação da natureza constitutivamente inapresentável da manifestação enquanto co-manifestação de um mundo, sendo a horizontalidade a forma concreta da experiência do a priori-
o horizonte designando o ser-no-mundo do aparecente, o deslocamento de toda manifestação rumo a um polo sempre ausente que ela indica sem jamais apresentá-lo
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a citação de Merleau-Ponty segundo a qual o horizonte, tal como o céu ou a terra, não é uma coleção de coisas, nem classe, nem sistema de potencialidades da consciência, mas um novo tipo de ser
A doação por escorços que caracteriza a percepção enraíza-se na estrutura do horizonte, sendo o ato de esboçar que dá sentido à noção de escorço obra do horizonte, conceber a aparição segundo um horizonte sendo pensar o esboçar como ser-
a estrutura do horizonte revelando um modo de ser que desafia o princípio de identidade, sendo maior que si mesma e dada como identidade de si e de seu outro
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a exigência de uma ontologia formal em sentido particular que descreva a lógica própria da aparição, distinta da lógica do aparecente, sendo Merleau-Ponty quem mais desenvolveu essa distinção
Todos os sujeitos percebidos se caracterizam por uma distância constitutiva, a percepção só havendo quando retida nas profundezas do mundo que revela, sua distância não se opondo a uma proximidade possível mas sendo sinônimo do caráter não totalizável do mundo que nele aparece-
a citação de Merleau-Ponty segundo a qual ver é sempre ver mais do que se vê, devendo-se admitir que o visto permanece sempre retirado de sua manifestação
Propõe-se chamar sensível a essa ordem fenomenal assim constituída, abandonando a distinção entre sensação e percepção que domina a análise husserliana da doação por escorços-
Husserl equiparando o sensível ao originário mas subordinando-o de imediato ao conceito empirista de sensação, propondo-se aqui suspender essa evidência aparente e conceituá-lo a partir do originário
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a citação de Merleau-Ponty segundo a qual a aparência sensível do sensível, a persuasão silenciosa do sensível, é a única maneira que o Ser tem de se manifestar sem se tornar positividade, sem deixar de ser ambíguo e transcendente
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o sensível não designando parte constituinte nem região do mundo, mas o próprio elemento em que o mundo pode aparecer preservando sua irredutibilidade, havendo mundo apenas como mundo sensível
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