Auxenfants (ETJA:§62 NOTA4) – UMA ANALOGIA AO Dasein
Para clarificar a construção global de uma forma pictórica e parcialmente recapitulativa (v. ser-resolvido), introduzirei finalmente uma analogia ousada, que os não-físicos me perdoarão, uma analogia que deve ser tomada como tal e dentro dos limites do que pode permitir ou facilitar conceber ou compreender, e uma analogia que podemos ainda utilizar para “visualizar” certos conceitos relativos à temporalidade.
Tomemos uma corda de qualquer comprimento (o raciocínio seria o mesmo com um tubo sonoro). Chamemos-lhe Dasein. Esta corda tem uma extremidade de “origem” (no movimento alternado e sustentado que lhe é conferido, esta extremidade representa o “nascimento” do Dasein e o seu “ser-lançado”). Esta corda tem também uma extremidade de “fim de curso” (a sua “morte-em-perspectiva”), uma extremidade que pode ser fixada em qualquer ponto do seu comprimento (uma possibilidade certa e insuperável). Entre estes dois extremos, define-se assim um meio-termo (a sua existência). O seu “ser-que-foi-lançado” vibra (ou seja, transcende, “é-no-mundo”, projeta, compreende) e continua a vibrar (é, de fato, um “ser-que-foi-lançado”, um “passado-presente”, que não pode ser caracterizado como um acontecimento único, que seria, para quem segue, um simples trem de ondas). A onda que sai é refletida na outra extremidade, definida em qualquer ponto da corda (“ser-tendo-sua-morte-em-perspetiva”), e é a composição das duas ondas (a onda que sai e a onda que se reflete) que determina, em cada instante (no sentido temporal vulgar), a forma da onda resultante, o meio em situação (existência). Como todos sabemos, uma corda pode vibrar em dois modos: (i) um modo próprio de vibração (ondas estacionárias), um modo em que a onda estacionária já não permite discernir o “presente”, pois, em cada instante (no sentido temporal próprio), é o resultado único e permanente de uma onda emitida (o passado) e de uma onda refletida (o futuro); (ii) um modo impróprio (ondas quaisquer), um modo em que o “presente” pode ser identificado pela forma particular que a corda assume em cada “agora” (o leitor compreenderá melhor a terminologia mais adiante). De certo modo, dadas as características estruturais tal como foram definidas, o funcionamento da corda é “obrigatório”. Se tudo o resto for igual, este funcionamento é permanente. Por outras palavras, a corda tem, de certo modo, uma identidade, uma ipseidade, que é revelada em cada momento pela forma que assume. Além disso, supondo que se torna transparente a si própria (o que significa que tem consciência da onda refletida pela “morte”), se, por conseguinte, “quer ter consciência da obrigação” e, respondendo ao apelo, se sabe encontrar o modo de vibração adequado (existência “referida a si própria”), vibrará num modo estacionário, independente do tempo vulgar.
O que poderia ser mais reconfortante para sustentar esta analogia do que ler a seguinte passagem de Jean-François Courtine (JFC, p. 308): “Heidegger propõe uma dupla transformação da proposição cartesiana central: não basta reduzir o (/termos/e/ego-cogito-hlex), ego sum ao seu núcleo ontológico ego sum, mas é também necessário explicitar o sum ou o ser (temporal) do sum in sum moribundus e, consequentemente, ‘subscrever’ o ego. Não no sentido em que este último é sempre já pressuposto como último substrato ou 'sujeito', mas porque só pode emergir no seu egoísmo ou ipseidade a partir do gerúndio moribundus, de um vir-a-ser aberto pelo 'vir-a-morrer' (Sterbenwerden) e como que reverberado por ele”. (sublinhado nosso). (Auxenfants, ETJA:§62 nota 4)
