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Responsabilidade e Julgamento
ARENDT, Hannah. Responsibility and judgment. first paperb. ed ed. New York, NY: Schocken Books, 2003.
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Ao receber a notícia de ter sido escolhida para o Prêmio Sonning em reconhecimento à contribuição para a civilização europeia, tantas reações e reflexões parcialmente conflitantes surgiram que não foi fácil assimilar o fato, além da gratidão fundamental que nos deixa indefesos sempre que o mundo oferece um verdadeiro presente, algo que vem gratuitamente, quando a Fortuna sorri, desconsiderando esplendidamente o que quer que se tenha acalentado consciente ou semiconscientemente como objetivos, expectativas ou metas
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No plano biográfico, não é pouca coisa ser reconhecida por contribuição à civilização europeia alguém que deixou a Europa há trinta e cinco anos de modo nada voluntário, e que depois se tornou cidadã dos Estados Unidos de forma inteira e conscientemente voluntária, por ser a República um governo de leis e não de homens
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O que se aprendeu nesses primeiros anos cruciais entre a imigração e a naturalização equivaleu a um curso autodidata sobre a filosofia política dos Pais Fundadores, convencendo a existência factual de um corpo político totalmente distinto dos Estados-nação europeus, com suas populações homogêneas, seu sentido orgânico de história, sua divisão mais ou menos decisiva em classes e sua soberania nacional com a noção de raison d'état
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A ideia de que, quando a situação se agravava, a diversidade devia ser sacrificada em nome da “união sagrada” da nação, outrora o maior triunfo do poder assimilador do grupo étnico dominante, só agora começou a desmoronar sob a pressão da ameaçadora transformação de todos os governos — o dos Estados Unidos incluído — em burocracias, o domínio nem das leis nem dos homens mas de repartições anônimas ou computadores cuja dominação inteiramente despersonalizada pode revelar-se ameaça maior à liberdade e a esse mínimo de civilidade sem o qual nenhuma vida comunitária é concebível do que jamais foi a arbitrariedade mais ultrajante das tiranias passadas
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Esses perigos da mera magnitude aliada à tecnocracia, cujo domínio ameaça de fato todas as formas de governo de extinção, de “definhamento” — a princípio ainda um sonho ideológico bem-intencionado cujas propriedades pesadelescas só podiam ser detectadas por exame crítico —, ainda não estavam na agenda da política cotidiana, sendo o que influenciou a vinda aos Estados Unidos precisamente a liberdade de tornar-se cidadã sem pagar o preço da assimilação
Sendo judia, feminini generis, nascida e educada na Alemanha, e formada em certa medida por oito longos e bastante felizes anos na França, não se sabe o que se contribuiu para a civilização europeia, mas admite-se ter-se apegado ao longo desses anos a essa herança europeia em todos os seus detalhes com grande tenacidade, chegando ocasionalmente a certa teimosia polêmica, já que se vivia entre pessoas, muitas vezes velhos amigos, que se esforçavam muito por fazer exatamente o oposto — comportar-se, soar e sentir-se como “verdadeiros americanos”, seguindo sobretudo a mera força do hábito, o hábito de viver num Estado-nação em que é preciso ser como um nacional para pertencer-
A dificuldade estava em nunca ter desejado pertencer, nem mesmo na Alemanha, e por isso em ter dificuldade para entender o grande papel que a saudade da pátria naturalmente desempenha entre todos os imigrantes, especialmente nos Estados Unidos, onde a origem nacional, depois de perder relevância política, tornou-se o vínculo mais forte na sociedade e na vida privada
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O que para os outros era um país, talvez uma paisagem, um conjunto de hábitos e tradições e, mais importante, certa mentalidade, era antes uma língua, e se algo alguma vez se fez conscientemente pela civilização europeia, certamente não foi senão a intenção deliberada, desde o momento da fuga da Alemanha, de não trocar a língua materna por qualquer outra língua oferecida ou imposta
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Para a maioria das pessoas, isto é, todas aquelas que não têm dom especial para línguas, a língua materna permanece a única régua confiável para quaisquer línguas depois adquiridas pelo aprendizado, pela simples razão de que as palavras usadas na fala cotidiana recebem seu peso específico, aquele que guia seu uso e o salva dos clichês irrefletidos, através das múltiplas associações que surgem automática e unicamente do tesouro da grande poesia com que essa língua particular, e nenhuma outra, foi abençoada
A segunda questão que não podia deixar de merecer consideração especial, na perspectiva da própria vida, concerne ao país a que se deve agora esse reconhecimento-
Sempre fascinou o modo particular como o povo dinamarquês e seu governo trataram e resolveram os problemas altamente explosivos postos pela conquista nazista da Europa, devendo essa história extraordinária, sobre a qual certamente se sabe mais na Dinamarca do que aqui, ser leitura obrigatória em todos os cursos de ciência política que tratam das relações entre poder e violência, cuja frequente equiparação figura entre as falácias elementares tanto da teoria política quanto da prática política real
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Esse episódio da história dinamarquesa oferece exemplo altamente instrutivo do grande potencial de poder inerente à ação não violenta e à resistência a um oponente que possui meios de violência muito superiores, e, sendo a vitória mais espetacular dessa batalha a derrota da “Solução Final” e a salvação de quase todos os judeus em território dinamarquês, fossem eles cidadãos dinamarqueses ou refugiados apátridas vindos da Alemanha, parece natural que judeus sobreviventes da catástrofe se sintam ligados a esse país de maneira muito especial
Há duas coisas particularmente impressionantes nessa história-
Primeiro, o fato de que, antes da guerra, a Dinamarca não havia tratado seus refugiados nada bem, recusando-lhes, como outros Estados-nação, a naturalização e a permissão de trabalho — apesar da ausência de antissemitismo, os judeus como estrangeiros não eram bem-vindos, mas o direito de asilo, respeitado em nenhum outro lugar, parecia ali considerado sacrossanto, de modo que, quando os nazistas exigiram primeiro apenas os apátridas para deportação, isto é, os refugiados alemães a quem haviam retirado a nacionalidade, os dinamarqueses explicaram que, não sendo mais cidadãos alemães, os nazistas não podiam reivindicá-los sem o consentimento dinamarquês
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Segundo, enquanto poucos países na Europa ocupada pelos nazistas conseguiram, por bem ou por mal, salvar a maioria de seus judeus, os dinamarqueses parecem ter sido os únicos que ousaram falar abertamente sobre o assunto a seus dominadores, resultando disso que, sob a pressão da opinião pública, e sem ameaça de resistência armada ou táticas de guerrilha, os funcionários alemães no país mudaram de posição, deixando de ser confiáveis, dominados pelo que mais desprezavam, meras palavras, ditas livre e publicamente, o que não ocorreu em nenhum outro lugar
Voltando-se ao outro lado dessas considerações, a cerimônia é sem dúvida um evento público, e a honra conferida expressa reconhecimento público de alguém que, por essa mesma circunstância, se transforma em figura pública, aspecto em que essa escolha talvez seja discutível-
Não se deseja levantar aqui a delicada questão do mérito, pois uma honraria, bem compreendida, ensina uma lição impressionante de humildade, ao implicar que não cabe a nós julgar a nós mesmos, não estando aptos a julgar as próprias realizações como julgamos as dos outros, estando-se disposto a aceitar essa humildade necessária por sempre se ter acreditado que ninguém pode conhecer a si mesmo, pois ninguém aparece a si mesmo como aparece aos outros
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Somente o pobre Narciso se deixa iludir pela própria imagem refletida, definhando de amor por uma miragem, mas, embora disposto a ceder à humildade diante do fato óbvio de que ninguém pode ser juiz em causa própria, não se está disposto a abrir mão inteiramente da faculdade de julgamento e dizer, como talvez diria um verdadeiro crente cristão, “Quem sou eu para julgar?”
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Por mera inclinação pessoal e individual, concorda-se com o poeta W. H. Auden
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Citação de W. H. Auden — “Rostos privados em lugares públicos / São mais sábios e mais gentis / Do que rostos públicos em lugares privados”
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Por temperamento e inclinação pessoais — essas qualidades psíquicas inatas que formam não necessariamente os julgamentos finais mas certamente os preconceitos e impulsos instintivos —, há tendência a se esquivar do espaço público, o que pode soar falso ou inautêntico para quem leu certos livros e recorda o elogio, talvez até a glorificação, do espaço público como oferecendo o espaço apropriado de aparições para o discurso e a ação políticos
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Em matéria de teoria e compreensão, não é incomum que estranhos e meros espectadores obtenham percepção mais aguda e profunda do significado real do que ocorre diante ou ao redor deles do que seria possível aos próprios atores e participantes, inteiramente absorvidos, como devem estar, pelos próprios eventos de que participam, sendo perfeitamente possível compreender e refletir sobre política sem ser um chamado animal político
Esses impulsos originais, defeitos de nascença se se quiser, foram fortemente sustentados por duas tendências muito diferentes, ambas inimigas de tudo o que é público, que coincidiram naturalmente durante os anos vinte deste século, o período depois da Primeira Guerra Mundial, que já então, ao menos na opinião da geração jovem contemporânea, marcava o declínio da Europa-
A decisão de estudar filosofia era então bastante comum, embora talvez não trivial, implicando esse compromisso com o bios theoretikos, com um modo de vida contemplativo, ainda que não se soubesse disso então, um não comprometimento com o público
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A exortação do velho Epicuro ao filósofo, lathe biôsas, “vive escondido”, frequentemente mal compreendida como conselho de prudência, surge na verdade bastante naturalmente do modo de vida do pensador, pois o próprio pensar, distinto de outras atividades humanas, não só é atividade invisível — que não se manifesta exteriormente — mas também, e nisso talvez unicamente, não tem impulso de aparecer ou impulso muito restrito de comunicar-se com outros
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Desde Platão, o pensar foi definido como diálogo silencioso comigo mesma, o único modo pelo qual posso fazer-me companhia e contentar-me com ela, sendo a filosofia negócio solitário, parecendo natural que a necessidade dela surja em tempos de transição, quando os homens já não confiam na estabilidade do mundo e em seu papel nele, e quando a pergunta sobre as condições gerais da vida humana, tão antiga quanto o aparecimento do homem na terra, ganha rara acuidade
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Hegel talvez estivesse certo — “A coruja de Minerva só levanta voo ao cair do crepúsculo”
Esse cair do crepúsculo, esse escurecimento da cena pública, não ocorreu de modo algum em silêncio-
Ao contrário, nunca a cena pública esteve tão repleta de anúncios públicos, geralmente bastante otimistas, e o ruído que agitava o ar era composto não só dos slogans propagandísticos das duas ideologias antagônicas, cada qual prometendo uma onda diferente do futuro, mas também das declarações pé-no-chão de políticos respeitáveis e declarações de esquerda de centro, direita de centro e centro, cujo efeito líquido conjunto foi dessubstancializar toda questão que tocavam, além de confundir totalmente as mentes de suas audiências
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Essa rejeição quase automática de tudo o que é público foi muito difundida na Europa dos anos vinte, com suas “gerações perdidas” — como se autodenominavam —, minorias em todos os países, vanguardas ou elites, conforme fossem avaliadas, sendo pequenas em número mas não menos características do clima da época, o que talvez explique a curiosa deturpação geral dos “loucos anos vinte”, sua exaltação e o quase total esquecimento da desintegração de todas as instituições políticas que precedeu as grandes catástrofes dos anos trinta
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Testemunho desse clima antipúblico pode ser encontrado na poesia, na arte e na filosofia — foi a década em que Heidegger descobriu das Man, o “Se” impessoal em oposição ao “ser-si-mesmo autêntico”, e em que Bergson, na França, achou necessário “recuperar o eu fundamental” das “exigências da vida social em geral e da linguagem em particular”
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Sobre essa década, na Inglaterra, Auden disse, em quatro versos que a muitos deve ter parecido quase banais demais para sequer serem ditos
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Citação de W. H. Auden — “Todas as palavras como Paz e Amor, / Toda fala afirmativa e sã, / Foram sujadas, profanadas, degradadas / A um horrendo grito mecânico”
Tais inclinações — idiossincrasias? questões de gosto? —, que se tentou datar historicamente e explicar factualmente, se adquiridas nos anos formativos da vida, podem se estender muito longe-
Podem levar a uma paixão pelo segredo e pelo anonimato, como se só pudesse importar pessoalmente aquilo que pudesse ser mantido em segredo
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Citação (verso citado) — “Nunca busques contar teu amor / Amor que nunca contado pode ser” — ou “Willst du dein Herz mir schenken, / So fang es heimlich an”
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Como se até um nome conhecido publicamente, isto é, a fama, só pudesse macular alguém com a inautenticidade do “Se” de Heidegger, com o “eu social” de Bergson, e corromper a fala com a vulgaridade do “horrendo grito mecânico” de Auden
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Existiu depois da Primeira Guerra Mundial uma curiosa estrutura social que ainda escapou à atenção dos críticos literários profissionais bem como à dos historiadores ou cientistas sociais profissionais, e que poderia ser mais bem descrita como uma “sociedade de celebridades” internacional, não sendo difícil, mesmo hoje, elaborar uma lista de seus membros, entre os quais não se encontraria nenhum dos nomes daqueles que ao final se revelaram os autores mais influentes do período
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É verdade que nenhum desses “internacionais” dos anos vinte correspondeu muito bem à expectativa coletiva de solidariedade nos anos trinta, mas é também, acredita-se, irrefutável que nenhum deles ruiu mais rápido, nem lançou os demais em maior desespero, do que o colapso repentino inteiro dessa sociedade apolítica, cujos membros, mimados pelo “poder radiante da fama”, foram menos capazes de lidar com a catástrofe do que as multidões não famosas apenas privadas do poder protetor de seus passaportes
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Extraiu-se isso da autobiografia de Stefan Zweig, O mundo de ontem, que ele escreveu e publicou pouco antes de suicidar-se, sendo, ao que se saiba, o único testemunho escrito desse fenômeno elusivo e, decerto, ilusório, cuja mera aura assegurava aos que podiam desfrutar do brilho da fama o que hoje se chamaria sua “identidade”
Se não se fosse velha demais para adotar decentemente os hábitos de fala atuais da geração jovem, poder-se-ia dizer com verdade que o fato deste prêmio teve como consequência mais imediata e, no caso presente, mais lógica, desencadear uma “crise de identidade”-
A “sociedade de celebridades”, decerto, já não é uma ameaça, graças a Deus não existe mais, nada sendo mais transitório em nosso mundo, menos estável e sólido, do que essa forma de sucesso que traz a fama, nada vindo mais rápido e prontamente do que o esquecimento
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Estaria mais de acordo com a própria geração — uma geração velha mas não de todo morta — afastar-se dessas considerações psicológicas e aceitar essa intrusão feliz na vida apenas como um golpe de sorte, sem contudo esquecer que os deuses, ao menos os deuses gregos, são irônicos e também trapaceiros
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Nessa linha, Sócrates começou a se inquietar e iniciar seu próprio questionamento aporético depois de o oráculo de Delfos, conhecido por suas ambiguidades crípticas, tê-lo declarado o mais sábio dos mortais, considerando ele isso uma hipérbole perigosa, talvez indício de que nenhum homem é sábio, e que Apolo pretendera dizer-lhe como poderia atualizar essa percepção intrigando seus concidadãos
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O que teriam querido dizer os deuses ao fazer escolher para honraria pública alguém que não é figura pública nem tem a ambição de sê-lo?
Por o problema aqui obviamente ter algo a ver com a pessoa em questão, tenta-se outra abordagem para esse problema de ser subitamente transformada em figura pública pela força inegável não da fama mas do reconhecimento público-
Recorda-se primeiro a origem etimológica da palavra “pessoa”, adotada quase inalterada do latim persona pelas línguas europeias com a mesma unanimidade com que, por exemplo, a palavra “política” deriva do grego polis, não sendo sem significado que palavra tão importante nos vocabulários contemporâneos, usada em toda a Europa para discutir grande variedade de assuntos legais, políticos e filosóficos, derive de fonte idêntica na Antiguidade, fornecendo esse vocabulário antigo algo como o acorde fundamental que, em muitas modulações e variações, soa através da história intelectual da humanidade ocidental
Persona referia-se originalmente à máscara do ator que cobria seu rosto individual “pessoal” e indicava ao espectador o papel e a parte do ator na peça, havendo nessa máscara, desenhada e determinada pela peça, uma ampla abertura no lugar da boca por onde podia soar a voz individual, não disfarçada, do ator-
É desse soar através que deriva a palavra persona — per-sonare, “soar através”, é o verbo do qual persona, a máscara, é o substantivo, tendo sido os próprios romanos os primeiros a usar o substantivo em sentido metafórico — no direito romano, persona era quem possuía direitos civis, em nítida distinção da palavra homo, que designava alguém que não era senão membro da espécie humana, diferente, é certo, de um animal, mas sem qualificação ou distinção específica, de modo que homo, como o grego anthropos, era frequentemente usado de modo depreciativo para designar pessoas não protegidas por nenhuma lei
Essa compreensão latina do que é uma pessoa mostrou-se útil por convidar a uso metafórico ulterior, sendo as metáforas o pão cotidiano de todo pensamento conceitual-
A máscara romana corresponde com grande precisão ao próprio modo de aparecer numa sociedade em que não se é cidadão, isto é, não se está igualado pelo espaço público estabelecido e reservado ao discurso e aos atos políticos, mas em que se é aceito como indivíduo em seu próprio direito e, contudo, de modo algum como ser humano enquanto tal
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Aparecemos sempre num mundo que é um palco e somos reconhecidos segundo os papéis que nossas profissões nos atribuem, como médicos ou advogados, como autores ou editores, como professores ou estudantes, e assim por diante, sendo através desse papel, soando através dele, por assim dizer, que algo mais se manifesta, algo inteiramente idiossincrático e indefinível e ainda inconfundivelmente identificável, de modo que não nos confundimos com uma mudança súbita de papéis, quando por exemplo um estudante alcança seu objetivo de tornar-se professor, ou quando uma anfitriã, que socialmente conhecemos como médica, serve bebidas em vez de cuidar de seus pacientes
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A vantagem de adotar a noção de persona para essas considerações está no fato de as máscaras ou papéis que o mundo nos atribui, e que devemos aceitar e mesmo adquirir se quisermos participar da peça do mundo, serem trocáveis, não sendo inalienáveis no sentido em que se fala de “direitos inalienáveis”, nem acessório permanente anexado ao eu interior no sentido em que a voz da consciência, como a maioria das pessoas acredita, é algo que a alma humana carrega constantemente em si
É nesse sentido que se pode fazer as pazes com aparecer aqui como “figura pública” para os fins de um evento público-
Significa que, quando os eventos para os quais a máscara foi projetada terminarem, e tiver terminado de usar e abusar do direito individual de soar através da máscara, as coisas voltarão a seu lugar
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Então, grandemente honrada e profundamente grata por este momento, ficar-se-á livre não só para trocar os papéis e máscaras que a grande peça do mundo possa oferecer, mas livre até para mover-se através dessa peça na própria “isto-idade” nua, identificável, espera-se, mas não definível e não seduzida pela grande tentação do reconhecimento que, seja qual for a forma, só pode reconhecer-nos como tal e tal, isto é, como algo que fundamentalmente não somos
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