SAGRADO
ALLEMANN, Beda. Hölderlin et Heidegger. Paris: PUF, 1987:158-160.
O pensador expressa o ser, o poeta nomeia o sagrado. A Carta sobre o Humanismo observa a esse respeito: O sagrado, que é apenas o espaço da essência da divindade, a qual, por sua vez, nada mais faz do que garantir a Dimensão para os deuses e para o Deus, o sagrado só vem a se manifestar, em seu esplendor, quando, previamente, após uma longa preparação, o próprio ser tenha se esclarecido e tenha sido vivenciado em sua verdade (Hb, 26; ver também a repetição dessa importante determinação: Hb, 36 e seguintes). A repetição de “apenas”, nessa frase, poderia levar à opinião de que nos encontramos diante de uma hierarquia rigorosa de valores, na qual Deus e os deuses seriam o objetivo último e o mais difícil de alcançar. Mas é preciso observar que os deuses podem muito bem estar presentes sem que seu domínio de essência seja pensado por si só; assim, o ser já esclareceu o existente e, no entanto (ou melhor, por essa razão), permanece impensado enquanto tal. Por outro lado, uma época de afastamento dos deuses também não pode forçar o retorno do Deus ao abrir, pelo pensamento, seu espaço de essência. Tal pensamento só pode ser preparatório para a vinda de Deus. Na verdade, tal preparação é absolutamente necessária. Como o homem poderia, no ponto em que nos encontramos na História universal, perguntar com seriedade e rigor se Deus se aproxima ou se se afasta, quando o próprio homem negligencia o pensamento ao entrar na dimensão em cujo seio essa questão só pode ser colocada? Mas essa dimensão é a do sagrado, que permanece, mesmo como dimensão, fechada, se a abertura do ser não for esclarecida e não estiver próxima do homem em seu esclarecimento (Hb, 37). Isso significa que a expressão poética continua a não poder prescindir do pensamento. A frase segundo a qual um poeta é (159) tanto mais poeta quanto mais pensante recebe aqui um novo significado. Pois, agora, é preciso que haja, antes de tudo, pensadores, para que a palavra dos poetas se torne audível (E, 29). A poesia, ou seja, a nomeação do sagrado, não se situa nem abaixo, nem acima do pensamento, que é a expressão do ser. Todas essas questões que visam estabelecer hierarquias são absurdas.
A experiência pensante do esquecimento do ser faz parte do mesmo destino que a experiência poética do encerramento da dimensão do sagrado. Aqui, a frase bem conhecida, segundo a qual o diálogo com Hölderlin nasce de uma necessidade do pensamento, torna-se muito mais compreensível.
Pois Hölderlin é, por excelência, o poeta do sagrado. Não, é claro, porque seus poemas contenham os nomes dos deuses, mas porque Hölderlin vivencia a ausência de Deus. O início do discurso comemorativo de Rilke (1946), que parte de Hölderlin, fala dessa ausência. Ele questiona-se sobre o traço do sagrado, que se tornou irreconhecível. Fica em aberto se ainda experimentamos o sagrado como o traço rumo à divindade do divino, ou se encontramos apenas um traço rumo ao sagrado. Permanece obscuro o que poderia ser o traço desse traço. Permanece problemático como tal traço poderia se revelar a nós (Hw, 253). Um pouco mais adiante, no mesmo sentido: A felicidade (das Heile) se retira. O mundo torna-se desprovido de felicidade (heil-los). Não é apenas o sagrado (das Heilige), como traço rumo à divindade, que permanece oculto, mas o traço rumo ao sagrado, a própria felicidade, parece ter sido apagado. Que pelo menos alguns mortais possam ver a ausência de bem-estar nos ameaçando como ausência de bem-estar (Hw, 272). Esses deveriam reconhecer o verdadeiro perigo, que é o do esquecimento do ser. Tal perigo não pode ser conjurado pela retirada para regiões menos ameaçadas. A salvação deve surgir do próprio abismo que é o perigo. É por isso que é importante que os mortais se voltem, antes, para o abismo (Mnémosyne). Os poetas que assumem o risco de experimentar a ausência de Deus estão, visto que experimentam a ausência de felicidade em si mesma, a caminho do (160) traço do sagrado (Hw, 294). O precursor desses poetas é Hölderlin, ele próprio um poeta em uma época de indigência.
Mas, para Heidegger, coloca-se a questão do extremo esquecimento do ser que a indigência dessa época abriga, e da possibilidade de realizar a virada que levará do abismo à proximidade do ser.
