POESIA COMO DOCUMENTO PRÉ-ONTOLÓGICO
ALLEMANN, Beda. Hölderlin et Heidegger. Paris: PUF, 1987:115-118.
“Ser e Tempo” remete, em conexão com a explicação da Preocupação como estrutura fundamental do Dasein, à fábula de Higino, “cura cum fluvium transir et…”, como documento literário para a análise correspondente. Heidegger dedica-lhe um parágrafo inteiro, que intitula “A prova da interpretação existencial do Dasein como Preocupação, com base na explicação espontânea pré-ontológica do Dasein” (SZ, 196). Mas Heidegger não se aprofunda na questão, ainda assim extremamente importante, da relação entre poesia e Dasein. Por outro lado, ele observa expressamente: Se o Dasein é “histórico” no fundamento de seu ser, toda enunciação que provém de sua História e a ela retorna, e que, além disso, é anterior a toda ciência, recebe um peso particular, na verdade nunca puramente ontológico (SZ, 197). A enunciação diz algo sobre o próprio Dasein; ela é uma ex-plicação (Auslegung) espontânea do Dasein. A estrutura ontológica do Dasein é o estar-no-mundo. Se ele se ex-plica a si mesmo, o Dasein necessariamente diz, ao mesmo tempo, algo sobre o estar-no, assim como sobre o Mundo. Essas estruturas estão compreendidas na Preocupação pensada ontologicamente. É claro que a interpretação ontológica existencial pode parecer estranha, sobretudo quando a “Preocupação” é entendida apenas de forma onética como “preocupação” e “preocupação mútua” (SZ, 197). Quanto à fábula de Higino, *Ser e Tempo* pressupõe que ela concebe a Preocupação não de forma onética, mas pré-ontologicamente, ou seja, não de acordo com a ontologia fundamental, mas já com o entendimento particular do ser que pertence ao Dasein. Assim, a fábula não se reduz completamente ao nível da avaliação onética da Preocupação como inquietação e tormento.
O que nos autoriza a admitir essa interpretação? Heidegger atribui a essa fábula um peso especial, pois ela provém da História do Dasein. Mas o que vem fazer aqui esse conceito ainda não esclarecido em Ser e Tempo? O fato histórico de que o motivo da Preocupação tenha sido transmitido sob diversas formas para, por sua vez, ser transformado poeticamente — e que, portanto, possua uma tradição (ônica) — não prova nada quanto à sua aptidão para corroborar descobertas ontológicas. Essa capacidade explica-se, ao contrário, exclusivamente pela importância ontológica da própria estrutura da Preocupação; essa importância leva a supor que, já no interior do conceito óntico de preocupação, se revelam as estruturas fundamentais do Dasein (SZ, 199). A fim de compreender em toda a sua amplitude o que já está pensado onticamente na palavra “preocupação”, Heidegger passa em revista a sucessão de significados da palavra cura (SZ, 199). Mas, mesmo nesse caso, é preciso primeiro demonstrar, por meio da análise ontológica existencial, que é a estrutura ontológica curial do Dasein que, por si só, torna possível que algo possa ser designado como “preocupação”. Será que é o conceito onético de preocupação que deixa transparecer as estruturas ontológicas? Não será antes a perspicácia ontológica que descobre tais estruturas mesmo no conceito onético?
Nessa forma alternativa, a questão certamente está mal formulada, pois esquece que todo entendimento onético remete, desde o início, a um entendimento do ser pré-ontológico que é seu fundamento. O ser, como tal, só é visível na clareza do ser. Não há conceito onético sem uma compreensão prévia do ser, seja de que forma for. A ontologia fundamental visa apenas radicalizar essa compreensão do ser (SZ, 15).
No âmbito dessa tarefa, nada mais se presta a demonstração. Assim, citar a fábula da Crave não tem por objetivo demonstrar a correção da análise existencial. Trata-se, antes, de eliminar dessa análise o que ela possa ter de estranho à primeira vista e facilitar sua compreensão. Mas o fato de esse testemunho ser de natureza poética é, neste momento ainda, sem qualquer importância. Trata-se unicamente de uma ex-plicação espontânea do Dasein que se expressa nesse texto. Em todo o Ser e Tempo, não há a menor alusão ao fato de que o poético poderia ser particularmente apropriado para tal ex-plicação. A poesia é classificada, em sua relação com a ex-plicação do Dasein, junto com a psicologia filosófica, a antropologia, a ética, a “política”, a biologia e a historiografia (SZ, 16). Cada uma dessas disciplinas poderia ter fornecido um testemunho, da mesma forma que a fábula da Souci. É isso que Heidegger quer dizer quando qualifica a fábula de documento pré-ontológico (SZ, 197, Observação 1). Portanto, se a poesia adquire, pelo menos no âmbito da análise existencial, um certo significado como expressão espontânea do Dasein (SZ, 162), é preciso, no entanto, ressaltar que, em Heidegger, o conceito de existência não possui características derivadas, por exemplo, da psicologia do artista como “criador”, como é o caso de certos conceitos centrais (Vida, Evolução criadora) no pensamento de Dilthey ou de Bergson. A disposibilidade (Befindlichkeit), a compreensão, enquanto modos de ser constitutivos do Dasein, e o declínio (Verfallen) são, em primeiro lugar, essencialmente independentes do fenômeno do Dasein artístico. Certamente não o excluem, mas também não vão ao seu encontro.
Apesar da ausência essencial de relação entre *Ser e Tempo* e o fenômeno da poesia em si (e não mais apenas como documento pré-ontológico), nada se opõe aparentemente à valorização dos resultados da análise existencial, com vistas a uma teoria da poesia. Mas, à primeira vista, é preciso perceber que, ao aproveitar os resultados das pesquisas de Heidegger, a crítica literária não levaria em conta o caráter provisório da análise fundamental e, por isso mesmo, negligenciaria a própria intenção de *Ser e Tempo*. Que uma crítica literária existencialista se reivindique de Heidegger só é possível em virtude de um mal-entendido antropológico. Sem nos aprofundarmos aqui nesse conjunto de questões, é importante, para o prosseguimento de nosso trabalho, não ocultar desde já o essencial, no encontro de Heidegger com Hölderlin, por meio de preconceitos críticos que, embora se reivindiquem de Heidegger, nem sequer alcançam o domínio de seu questionamento. Conceitos como os de existência, tonalidade afetiva, Dasein e mundo, separados do contexto da questão do ser, não podem de forma alguma — embora isso pareça fácil do ponto de vista terminológico — fundamentar a poesia, no sentido que a palavra assume no Heidegger tardio.
