estudos:agamben:linguagem-morte:1
Jornada I
Giorgio Agamben. Il linguaggio e la morte. Un seminario sul luogo della negatività. Torino: Einaudi, 1982.
Primeiro dia
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Heidegger, nos parágrafos 50 a 53 de Ser e Tempo, situa a relação do Dasein com a morte como o ponto crucial para a compreensão do Dasein como totalidade, opondo-se à compreensão cotidiana que subtrai ao Dasein sua morte e nivela o morrer a um evento que certamente o concerne mas não lhe pertence propriamente; a morte revela-se como a possibilidade mais própria, irreferível, certa e, como tal, indeterminada e insuperável do Dasein, que é, em sua própria estrutura, um ser-para-o-fim, ou seja, para a morte, estando sempre já em relação com ela, morrendo faticamente e constantemente até alcançar seu falecimento; essa morte não é a do animal, mero ser vivente que não morre, mas cessa de viver.
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a morte é nivelada “a um evento que certamente refere-se ao Dasein, mas não pertence propriamente a ninguém” (p. 253)
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a morte mostra-se como “a possibilidade mais própria, irreferível, certa e, como tal, indeterminada e insuperável do Dasein” (p. 258)
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“sendo para a própria morte, ele morre faticamente e constantemente até que tenha chegado ao seu falecimento” (p. 259)
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o animal, o “mero-vivente” (Nur-lebenden), não morre, mas cessa de viver (p. 240)
A experiência da morte assume a forma de uma antecipação de sua possibilidade, antecipação sem nenhum conteúdo fático positivo, que nada oferece ao Dasein para realizar nem nada que ele mesmo possa ser como realidade efetiva, constituindo antes a possibilidade da impossibilidade da existência em geral, o esvaecimento de todo referir-se a… e de todo existir, de modo que somente nesse modo puramente negativo do ser-para-a-morte, em que se faz experiência da impossibilidade mais radical, o Dasein pode acessar sua dimensão mais autêntica e compreender-se como uma totalidade.-
a antecipação “não dá ao Dasein nada a realizar e nada que ele mesmo possa ser como realidade efetiva” (p. 262)
Nos parágrafos seguintes, a antecipação da morte, até então projetada apenas como possibilidade ontológica, testemunha-se também em sua possibilidade existencial mais concreta, na experiência da voz da consciência e da culpa, e a abertura dessa possibilidade procede pari passu com o revelar-se de uma negatividade que atravessa e domina o Dasein de cima a baixo, de modo que a experiência da possibilidade mais autêntica coincide, para o Dasein, com a experiência da mais extrema negatividade; se já na experiência do chamado (Ruf) da consciência está implícito um caráter negativo, pois a consciência, em seu chamar, nada diz rigorosamente e “fala unicamente e constantemente no modo do silêncio” (p. 273), o desvelamento de uma “culpa” do Dasein, que ocorre nesse silencioso chamado, é, ao mesmo tempo, revelação de uma negatividade (Nichtigkeit) que pertence originalmente ao ser do Dasein.-
na ideia do “culpado” está implícito o caráter do Não; se o “culpado” deve poder determinar a existência, surge o problema ontológico de esclarecer existencialmente o caráter de não desse Não
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a ideia formal existencial do “culpado” determina-se como ser-fundamento de um ser que se determinou através de um Não, isto é, ser-fundamento de uma negatividade
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sendo, o Dasein é lançado, não se trouxe a si mesmo a seu Da, sendo determinado como um poder-ser que lhe pertence sem que ele mesmo se tenha dado em posse própria
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não tendo posto ele mesmo o fundamento, repousa em seu peso, que a disposição afetiva (Stimmung) lhe revela como um encargo
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sendo fundamento, isto é, existindo como lançado, o Dasein permanece constantemente atrás de suas próprias possibilidades, nunca existindo antes de seu fundamento, mas apenas a partir dele e como ele; ser-fundamento significa, portanto, nunca ser senhor do próprio ser mais próprio desde o fundamento, e esse Não pertence ao sentido existencial do ser-lançado
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a negatividade não significa de modo algum não estar presente ou não consistir, mas um Não que constitui esse ser do Dasein, seu ser-lançado
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tanto na estrutura do ser-lançado quanto na do projeto há uma negatividade essencial, fundamento da possibilidade da negatividade do Dasein inautêntico na decadência (Verfallen), na qual ele já sempre se encontra faticamente
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o próprio cuidado, em sua essência, está permeado de cima a baixo pela negatividade (durch und durch von Nichtigkeit durchsetzt), significando, como projeto lançado, o ser-fundamento negativo de uma negatividade
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a negatividade não aparece ocasionalmente no Dasein como uma qualidade obscura da qual ele também poderia se livrar caso progredisse o bastante
É a partir dessa experiência de uma negatividade que se revela constitutiva do Dasein no instante mesmo em que ele acede, na experiência da morte, à sua possibilidade mais própria, que Heidegger interroga-se sobre a insuficiência das categorias com que a lógica e a ontologia, na história da filosofia ocidental, buscaram dar conta dela, colocando consequentemente o problema da origem ontológica (ontologische Ursprung) da negatividade.-
o sentido ontológico do caráter negativo (Nichtheit) dessa negatividade existencial permanece ainda obscuro, assim como a essência ontológica do Não em geral
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a ontologia e a lógica exigiram muito do Não, tornando visíveis a tratos suas possibilidades sem, contudo, desvelá-lo ontologicamente em si mesmo; a ontologia encontrou o Não e dele se serviu
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questiona-se se é tão evidente que todo Não signifique um Negativum no sentido de uma privação, e se sua positividade se esgota em constituir uma “passagem”
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pergunta-se por que toda dialética se refugia na negação sem fundamentá-la dialeticamente e sem sequer poder fixá-la como problema
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indaga-se se foi colocado o problema da origem ontológica da negatividade (Nichtheit) ou, antes ainda, se foram ao menos buscadas as condições sobre cujo fundamento o problema do Não, de sua negatividade e de suas possibilidades pode ser posto, e onde tais condições poderiam ser encontradas senão no esclarecimento temático do sentido do ser em geral
No horizonte de Ser e Tempo essas perguntas parecem permanecer sem resposta, sendo na conferência O Que É Metafísica?, dois anos depois de Ser e Tempo, que o problema será retomado como busca de um nada (Nichts) mais originário do que o Não e a negação lógica, numa perspectiva em que a questão do nada se revela como a questão metafísica por excelência e a tese hegeliana da identidade entre puro ser e puro nada é reafirmada em sentido ainda mais fundamental.Sem pretender aqui decidir se Heidegger respondeu ou não ao problema da origem da negatividade, importa antes, no horizonte desta pesquisa, retomar a interrogação sobre a negatividade que, em Ser e Tempo, se desvela ao Dasein na experiência autêntica da morte, negatividade que não sobrevém ao Dasein mas atravessa originalmente sua essência, de modo que o Dasein se choca com ela mais radicalmente justamente no instante em que, sendo para a morte, acede à sua possibilidade mais certa e insuperável, surgindo então a pergunta sobre de onde provém ao Dasein essa negatividade originária, sempre já nele penetrada.-
no parágrafo 53, ao delinear os caracteres da experiência autêntica da morte, afirma-se que “na antecipação da morte, indeterminadamente certa, o Dasein se abre a uma ameaça que provém de seu próprio Da” (p. 265)
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pouco antes, afirmara-se que o isolamento que a morte desvela ao Dasein é apenas um modo do abrir-se do Da à existência
Para responder a essa pergunta torna-se necessário interrogar mais de perto a própria determinação do homem como Dasein, que constitui o fundamento originário de onde parte o pensamento de Heidegger em Ser e Tempo, e, antes de tudo, interrogar-se sobre o significado mesmo da palavra.No parágrafo 28, ao abordar a análise temática do Dasein como ser-no-mundo, o termo Dasein é esclarecido por Heidegger como ser-o-Da.-
o ente que se constituiu essencialmente através do ser-no-mundo é ele mesmo sempre o seu Da; no significado habitual, Da significa “aqui” ou “lá”, sendo “aqui” e “lá” possíveis apenas em um Da, isto é, somente se existe um ente que, como ser do Da, abriu a espacialidade
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em seu ser mais próprio esse ente tem o caráter da não-clausura, e a expressão “Da” designa essa abertura essencial
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a imagem ôntica de um lúmen natural no homem não significa outra coisa senão a estrutura ontológico-existencial desse ente que é, no modo de ser, o seu Da; que ele seja “iluminado” significa iluminado em si mesmo enquanto ser-no-mundo, não por meio de outro ente, mas de modo a ser ele mesmo a clareira iluminante (Lichtung)
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o Dasein traz consigo o seu Da desde o início (von Hause aus); sem ele não apenas não existiria de fato, como tampouco poderia ser, em geral, o ente dessa essência; o Dasein é a sua própria abertura
Também numa carta a Jean Beaufret, de 23 de novembro de 1945, Heidegger reafirma esse caráter essencial do Da, explicando ali a palavra-chave Dasein.-
Da-Sein é uma palavra-chave de seu pensamento (ein Schlüssel Wort meines Denkens) e, por isso, também ocasião de graves mal-entendidos; Da-Sein não significa tanto, para ele, me voilà, quanto, em um francês talvez impossível, être-le-là, sendo le-là precisamente Αλήθεια: desvelamento-abertura
Dasein significa, portanto, ser-o-Da, e, aceita a tradução já consagrada de Dasein por Esserci, dever-se-ia entender essa expressão como “ser-o-aí”; se ser o próprio Da, isto é, estar em casa no próprio lugar, é o que caracteriza o Dasein, isso significa que justamente no ponto em que a possibilidade de ser o Da é assumida, através da experiência da morte, em seu modo mais autêntico, o Da se revela como o lugar de onde ameaça uma negatividade radical, havendo algo, na pequena palavra Da, que nulifica, que introduz a negação naquele ente — o homem — que tem de ser o seu Da; a negatividade provém ao Dasein de seu próprio Da, perguntando-se então de onde provém ao Da seu poder nulificante, e se de fato se compreende a expressão Dasein, ser-o-Da, antes de responder a essa pergunta, e onde estaria o Da se aquele que se detém em sua clareira (Lichtung) é, por isso mesmo, o “lugar-tenente do nada” (Platzhalter des Nichts), questionando-se em que a negatividade que atravessa de cima a baixo o Dasein difere daquela que se costuma conhecer através da história da filosofia moderna.-
o homem é chamado “lugar-tenente do nada” (Platzhalter des Nichts; Heidegger 5, p. 15)
No início da Fenomenologia do Espírito a negatividade surge justamente da análise de uma partícula morfológica e semanticamente ligada ao Da, o pronome demonstrativo diese (este), de modo que, assim como o pensamento de Heidegger em Ser e Tempo começa pelo ser-o-Da (Dasein), também a Fenomenologia do Espírito hegeliana se abre com a tentativa da certeza sensível de “tomar-o-Diese” (das Diese nehmen), perguntando-se se há uma analogia entre a experiência da morte que, em Ser e Tempo, abre ao Esserci a possibilidade autêntica de ser o seu aí, o seu aqui, e a experiência do “tomar o Isto” que, no início da Fenomenologia, garante que o discurso hegeliano comece do nada, e se o ter posto em princípio o Dasein — esse novo início que Heidegger confere à filosofia, para além tanto da Haecceitas medieval quanto do eu do subjetivismo moderno — situa-se verdadeiramente também além do sujeito hegeliano, do Geist como das Negative.estudos/agamben/linguagem-morte/1.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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