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Fogo e Relato

AGAMBEN, Giorgio; CHIESA, Lorenzo. The fire and the tale. Stanford, California: Stanford University Press, 2017.

  • No final do livro sobre misticismo judaico, Gershom Scholem narra a história aprendida com Yosef Agnon sobre o Baal Schem e seus sucessores, cada um perdendo um elemento do ritual original até restar apenas a narrativa
    • O Baal Schem, fundador do Hassidismo, acendia o fogo num lugar específico da floresta e meditava em oração para realizar sua tarefa
    • O Maguid de Meseritz, uma geração depois, já não sabia acender o fogo, mas sabia orar no mesmo lugar
    • Rabi Moshe Leib de Sassov, mais tarde, já não sabia acender o fogo nem as meditações secretas, mas conhecia o lugar na floresta
    • Rabi Israel de Rishin, sentado em sua cadeira dourada no castelo, já não conhecia o fogo, a oração nem o lugar, mas podia contar a história de tudo isso
  • A anedota se presta a uma leitura alegórica sobre a literatura, na qual a humanidade se afasta progressivamente das fontes do mistério e perde a memória do fogo, do lugar e da fórmula, restando apenas o relato, cujo sentido de bastar a si mesmo permanece difícil de apreender
  • Ao dizer “podemos contar a história de tudo isso”, o rabi afirma o oposto da secularização triunfante: cada conto é memória da perda do fogo, e a literatura narra precisamente essa perda
  • A historiografia literária já reconheceu a derivação do romance a partir do mistério antigo
    • Kerényi e, depois dele, Reinhold Merkelbach demonstraram o vínculo genético entre os mistérios pagãos e o romance antigo, do qual as Metamorfoses de Apuleio oferecem documento exemplar, com o protagonista transformado em asno encontrando a salvação numa iniciação mistérica
    • Assim como o iniciado em Elêusis assistia à evocação do rapto de Cora por Hades e sua reaparição anual na primavera, o leitor do romance participa do destino da personagem e introduz sua própria existência na esfera do mistério
  • Esse mistério está separado de qualquer conteúdo mítico e de qualquer perspectiva religiosa, podendo ser desesperado, como em Isabel Archer de Henry James ou em Anna Karenina, ou mostrar uma vida que perdeu inteiramente seu mistério, como a de Emma Bovary
    • Pertence à natureza do romance ser, ao mesmo tempo, perda e comemoração do mistério, dispersão e lembrança da fórmula e do lugar
    • Quando o romance esquece sua relação ambígua com o mistério, ou cancela qualquer traço da precária salvação eleusina, ou consome o mistério numa multidão de fatos privados, perde-se com ele a própria forma do romance, junto da memória do fogo
  • O elemento em que o mistério se dispersa e se perde é a história, termo que designa tanto o curso cronológico dos eventos humanos quanto aquilo que a literatura relata, tanto o gesto histórico do pesquisador quanto o do narrador, de modo que só se acessa o mistério por meio de uma história que, ao mesmo tempo, é onde o mistério apagou ou escondeu seus fogos
  • Numa carta de 1937, Scholem, partindo de sua experiência pessoal como estudioso da cabala, refletiu sobre o nó entre verdade mística e investigação histórica
    • Pretendia escrever não a história, mas a metafísica da Cabala, mas logo percebeu ser impossível acessar o núcleo místico da tradição sem atravessar o muro nebuloso da história
    • Scholem se pergunta se ficará preso na névoa, se sofrerá uma morte professoral, mas afirma que a necessidade da crítica histórica não pode ser substituída por nada, mesmo exigindo sacrifícios
    • Afirma que a história pode parecer ilusão fundamental, mas ilusão sem a qual nenhuma percepção da essência das coisas é possível na realidade temporal, e que essa totalidade mística da verdade só se torna visível, de modo puro, na disciplina legítima do comentário e no espelho estranho da crítica filológica
  • A tarefa que Scholem define como paradoxal — seguindo o ensinamento de seu amigo e mentor Walter Benjamin — é a de transformar a filologia numa disciplina mística
    • É necessário lançar-se de corpo inteiro na obscuridade e na névoa da pesquisa filológica, com seus arquivos melancólicos, documentos sombrios, manuscritos ilegíveis e glosas abstrusas
    • Há o risco de se perder na prática filológica, de não permanecer concentrado no elemento místico almejado, por causa da coniunctivitis professoria que essa prática implica, mas, como o Graal perdido na história, o pesquisador deve perder-se em sua busca filológica, pois esse próprio desnorteamento garante a seriedade de um método que é, ao mesmo tempo, experiência mística
  • Se investigar a história e contar uma história são, na verdade, o mesmo gesto, o próprio escritor enfrenta uma tarefa paradoxal
    • Deverá acreditar intransigentemente apenas na literatura, isto é, na perda do fogo, esquecendo-se de si mesmo na história que tece em torno de suas personagens, e, mesmo a esse preço, deverá saber discernir, ao fim desse esquecimento, os fragmentos de luz negra vindos do mistério perdido
  • “Precário” remete ao que se obtém por meio de uma prece (praex, pedido verbal, diferente de quaestio, pedido feito com todos os meios disponíveis, mesmo violentos), sendo por isso frágil e aventuroso
    • A literatura é, ela mesma, aventurosa e precária, se deseja preservar a relação justa com o mistério, e o escritor, como o iniciado em Elêusis, avança na escuridão e na penumbra, num caminho suspenso entre deuses infernais e celestes, entre esquecimento e lembrança
    • Há um fio, uma espécie de sonda lançada em direção ao mistério, que permite medir a cada momento a distância em relação ao fogo: essa sonda é a linguagem, sobre a qual se marcam implacavelmente, como feridas, os intervalos e as rupturas que separam o conto do fogo
    • Os gêneros literários são as chagas que o esquecimento do mistério infligiu à linguagem: tragédia e elegia, hino e comédia nada são senão os modos pelos quais a linguagem chora sua relação perdida com o fogo
    • Os escritores de hoje parecem não perceber essas feridas, caminham cegos e surdos sobre o abismo de sua linguagem, sem ouvir o lamento que clama do fundo, acreditando usar a linguagem como instrumento neutro, sem perceber o balbucio ressentido que reclama a fórmula e o lugar, que exige prestação de contas e vingança; escrever é contemplar a linguagem, e quem não vê nem ama sua língua, quem não sabe soletrar sua tênue elegia nem perceber seu hino murmurado, não é escritor
  • O fogo e o conto, o mistério e a história são os dois elementos indispensáveis da literatura, e a questão permanece sobre como um deles, cuja presença é prova irrefutável da perda do outro, pode testemunhar essa ausência, exorcizando sua sombra e sua memória, já que onde há conto o fogo está apagado, e onde há mistério não pode haver história
  • Dante condensou num único verso a situação do artista diante dessa tarefa impossível, ao falar do artista que, pelo hábito da arte, tem a mão trêmula
    • A linguagem do escritor, como o gesto do artista, é um campo de tensões polares entre estilo e maneira: o hábito da arte é o estilo, a posse perfeita dos próprios meios, em que a ausência do fogo é peremptoriamente assumida, pois a obra contém tudo e nada lhe falta, não havendo mistério nem nunca tendo havido, porque tudo está exposto aqui e agora e para sempre
    • Nesse gesto imperioso, produz-se às vezes um tremor, uma vacilação íntima em que o estilo transborda, as cores esmaecem, as palavras gaguejam e a matéria coagula e transborda: essa trembladeira é a maneira que, na deposição do hábito, atesta de novo a ausência e o excesso do fogo, e em todo bom escritor, em todo artista, há sempre uma maneira que se afasta do estilo, um estilo que se desapropria como maneira, de modo que o mistério desfaz e afrouxa a trama da história, e o fogo enruga e consome a página do conto
  • Henry James certa vez contou como seus romances se originavam, partindo do que chamava de imagem en disponibilité, a visão isolada de um homem ou mulher ainda desprovidos de qualquer determinação
    • Essas figuras se apresentam como disponíveis, para que o autor teça em torno delas a intriga fatal de situações, relações, encontros e episódios que as farão emergir da maneira mais apropriada, até se tornarem, ao final, aquilo que são — a complicação que mais provavelmente produzem e sentem, isto é, tornarem-se personagens
  • A história que, página após página, narra seus sucessos e fracassos, sua salvação e danação, exibindo-as e revelando-as, é também a trama que as sela num destino, constituindo suas vidas como mysterion, fazendo-as emergir apenas para encerrá-las numa história, de modo que, ao final, a imagem deixa de estar disponível, perde seu mistério e só pode perecer
  • Algo semelhante ocorre também na vida dos homens, pois a existência, que a princípio parecia tão disponível e rica de possibilidades, vai aos poucos perdendo seu mistério, apagando um a um seus fogos, até restar apenas uma história, insignificante e desencantada como qualquer outra
    • Até que um dia — talvez não o último, mas o penúltimo — a existência reencontra por um instante seu encantamento e de repente repara seu desencanto, de modo que aquilo que perdera o mistério torna-se agora verdadeira e irreparavelmente misterioso, verdadeira e absolutamente indisponível, e o fogo, que só pode ser contado, o mistério, integralmente violado numa história, agora nos deixa sem palavras e se encerra para sempre numa imagem
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