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Zeug
- Nos primeiros momentos da recepção de Être et temps na França, a busca por um equivalente adequado para o termo alemão Zeug representou um problema central, levando a propostas como “outil” (ferramenta) ou “ustensile” (utensílio), este último dando origem ao neologismo “ustensilité” (ustensilidade); essas traduções, embora amplamente adotadas por comentadores — que chegavam a falar do “caráter referencial do utensílio” —, revelaram-se, com o tempo e a reflexão, pouco defensáveis; o termo alemão que corresponde normalmente a “ferramenta” não é Zeug, mas Werkzeug, devendo-se, portanto, reservar “outil” (ferramenta) para traduzir este último termo, que Heidegger não hesita em empregar quando necessário; a questão não reside na tradução de Werkzeug — que se impõe naturalmente como “outil” —, mas em tornar sensível, em francês, a distinção que Ser e Tempo estabelece entre Werkzeug e Zeug, sendo o primeiro apenas um caso particular do segundo.
- A opção pelo termo “ustensile” (utensílio) partia da suposição de que ele poderia ser entendido em um sentido mais geral do que “outil” (ferramenta), apresentando-se como um equivalente possível; no entanto, “ustensile” não é um termo neutro para o ouvido francês, e as associações que evoca correspondem apenas parcialmente ao sentido terminológico preciso que Heidegger confere a Zeug, termo que não possui plural em alemão, enquanto a passagem para o plural de “ustensile” é, em francês, perfeitamente natural e comum; nesse aspecto, um texto de Francis Ponge intitulado justamente L’Ustensile (em Le Grand Recueil, t. II: Méthodes, p. 218-219) oferece matéria para reflexão, ao lembrar a tendência marcada do termo a integrar a locução “ustensile de cuisine” (utensílio de cozinha), o que o situa claramente em uma categoria específica de objetos: “Ele se pendura na parede da cozinha”, escreve Ponge, que acrescenta: “O utensílio é frequentemente de folha-de-flandres ou de alumínio”; nessas condições, chamar a “velha robe de chambre” (velho roupão) de Diderot de “ustensile” não é apenas difícil, mas contraria o próprio espírito da língua francesa; como observa ainda Ponge, “é um objeto modesto, leve, nitidamente especializado em sua utilidade […] e que se segura nas mãos sem pesar muito”; em tudo isso, reconhece-se perfeitamente o que “ustensile” significa em francês, mas será esse o termo adequado para designar, em toda a sua generalidade, “uma produção que engloba tudo o que a arte humana pôde arranjar ou fabricar para servir-se dela” (Ser e Tempo, Gallimard, p. 546 — nota do tradutor)? O termo Zeug, no sentido em que Heidegger o emprega, extrapola em muito o domínio dos utensílios de cozinha, de modo que “ustensile” revela-se um equivalente bastante inadequado — afinal, termos como “machin” (treco) ou “truc” (coisa) (!) teriam menos inconvenientes…
- Poder-se-ia argumentar que Heidegger, em Ser e Tempo, toma consideráveis liberdades em relação aos usos correntes de sua própria língua, o que autorizaria procedimentos semelhantes no vocabulário da tradução; de fato, para quem se atém ao uso do alemão cotidiano, o tratamento que Heidegger impõe a essa palavra é mais do que desconcertante (o que é explicado em detalhe na longa nota que a tradução francesa dedica a esse termo); como não admiti-lo? Mas como poderia o tradutor renunciar à preocupação com a clareza e a simplicidade, que por definição orientam sua empreitada? Vale notar que, em uma crônica intitulada “S. D.”, publicada na Nouvelle Revue Française (nº 363, p. 101), Jean Clair falou certa vez dos “ustensibles du confort au foyer” (ustensíveis do conforto doméstico); a expressão designava, em seu espírito, objetos técnicos como o refrigerador ou o aparelho de televisão, que fazem parte do equipamento de uma residência e situam-se em nosso ambiente imediato; “ustensible” já é interessante pela ideia de possibilidade que pode conter, sugerindo objetos que estão à nossa disposição, mas sobretudo porque, embora se assemelhe a “ustensile”, dele se diferencia nitidamente e, por isso, pode conjurar sua estreiteza; poderia, fora do contexto (o “conforto moderno”) ao qual Jean Clair o restringe, ser generalizado para abarcar então, em um singular coletivo, todos os entes com os quais lida a preocupação, desde o sílex talhado da época neolítica até o automóvel.
- Todas as dificuldades que a interpretação de um termo como Zeug — do qual Heidegger faz um uso muito particular e que choca rudemente os hábitos da língua alemã corrente — decorrem do fato de que o Zeug em questão é e não é aquilo que comumente chamamos de ferramenta; um martelo, exemplo tomado por Heidegger, só é uma ferramenta porque é, antes de tudo, um util (útil); recorrer à grafia antiga “util”, como se encontra em textos um pouco mais antigos (em São Francisco de Sales, por exemplo), pode surpreender se reutilizada hoje, mas não foi o gosto pela linguagem elegante que inspirou em Heidegger o uso muito particular que faz do termo Zeug para designar o ente tal como o encontramos na preocupação (ÊT, 68); se seu vocabulário tem frequentemente algo de abrupto, isso não prejudica necessariamente sua eficácia.
- Cabe acrescentar que, embora haja um pouco de exageração na ligação que Ponge acredita poder estabelecer entre “ustensile” e “ostensible” (ostensível), não deixa de ser verdade que, por sua própria aparência, a bolsa de mão convida a ser pegue com a mão; por outro lado, onde Ponge toca algo de essencial é quando afirma que há em “ustensile” “uma forma frequentativa em relação ao útil: é algo de que nos servimos frequentemente, cotidiana ou até diariamente” — o singular singulare tantum frequentativo, tal como se inscreve assim na cotidianeidade, tem, de fato, a propriedade de aclimatar o útil na temporalidade da preocupação.
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