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estudos:vezin:temporalidade

Temporalidade (Temporalität)

LDMH

  • A palavra temporalité existe em francês desde o século XII, assim como o adjetivo temporal, acumulando múltiplas acepções ao longo do tempo; no vocabulário filosófico contemporâneo — especialmente a partir de Merleau-Ponty, que dedica um capítulo à temporalité em Phénoménologie de la perception —, seu uso adquire contornos específicos; em Heidegger, porém, Temporalität assume um sentido terminológico rigoroso e inédito, introduzido em Être et temps (página 19) como tradução direta de um termo que somente ele emprega em alemão; para a perspectiva alemã, trata-se claramente de um termo técnico, construído a partir de uma raiz latina (temporalitas existe na linguagem eclesiástica, mas Heidegger não se vincula a esse uso), designado para nomear unicamente a relação íntima e singular que o ser mantém com o tempo.
  • A temporalité em questão é a temporalidade do ser, não havendo outra; já a temporalité (Zeitlichkeit) pertence ao Dasein; surge então a pergunta: o que é essa temporalité do ser, da qual ninguém antes de Heidegger havia falado? Para compreender a obra publicada em 1927, Heidegger observou repetidamente que é necessário apreender o sentido e o papel da conjunção et presente no título: “C'est en elle que s'abrite le problème central” (GA 3, 242; Kant et le problème de la métaphysique, p. 298); o livro nasce do espanto de Heidegger diante da afinidade secreta que une ser e tempo; como se dá que, ao tentar falar do ser, se é inevitavelmente levado a falar do tempo, a adotar a linguagem do tempo?
  • Se se busca explicitar o que significa être, chega-se cedo ou tarde a dizer que être significa “être en train d'être”; e nesse “en train” reside o tempo; être quer dizer être présent; se se segue aqui a linguagem da gramática, o présent é um temps do verbo être; assim que se tenta sondar o que pode ser o ser, depara-se com o tempo; há, portanto, um caráter temporal do ser; o tempo torna-se, de certa forma, le prénom de l'être, ou mais precisamente “le prénom donné à la vérité de l'être” (GA 9, 376; Questions I, p. 36); não se pode nomear o ser sem já ter nomeado o tempo; essa é a temporalité de l'être, e a tarefa fixada ao livro de 1927 será, portanto, explicar o tempo como l'horizon transcendantal de la question de l'être (Être et temps, p. 41); ser e tempo são, assim, indissociáveis.
  • O “problema central” não consiste, portanto, em opor ser e devir, como se faz desde Platão, nem em tentar conciliá-los, como Hegel e Nietzsche tentaram fazer em direção contrária ao platonismo, mas em penser ensemble être et temps; um livro que não se propunha a pensar o ser contra o tempo, nem o tempo contra o ser, tinha tudo para desorientar; a tentativa é inteiramente nova; não está claro, até o presente momento, que ela tenha sido completamente compreendida, tão distante está dos caminhos tradicionais.
estudos/vezin/temporalidade.txt · Last modified: by mccastro