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estudos:vezin:tempo

Tempo (Zeit)

LDMH

STMS: ter-sido; BTMR: having-been; ETFV: avoir-été; STJR: haber-sido

  • Destruição da interpretação vulgar do tempo como sucessão de “agoras”: Heidegger identifica, desde Ser e Tempo, uma interpretação do tempo que domina a filosofia ocidental desde Aristóteles: o tempo como uma sequência linear e homogênea de “agoras” (nunc) que “passam” irremediavelmente. Esta concepção, útil para a medição cronológica (horários, física), é, contudo, uma redução e um “nivelamento” do fenômeno temporal originário. Ela obscurece a riqueza do tempo ao privilegiar o presente-passante e ao conceber o passado como simplesmente “revolto” e o futuro como “ainda não”. A tese revolucionária de Heidegger é que “o tempo não passa”, mas “chega” (kommt). Esta inversão desloca a questão da “fuga do tempo” para a “chegada do tempo”, abrindo uma dimensão onde passado, presente e futuro não são elos sucessivos, mas ekstases co-originárias que se interpenetram.
  • O tempo como totalidade ekstática e o ser-passado (Gewesenheit; fr. avoir-été): Contra o passado entendido como “perdido”, Heidegger introduz a noção de “ser-passado” (Gewesenheit): aquilo do passado que não cessou de ser, que continua a agir e a vir ao nosso encontro. O passado não é um depósito inerte, mas uma reserva de possibilidades que podem ressurgir e transformar-se no presente (como mostram as redescobertas na história da arte). Da mesma forma, o futuro não é um vazio à espera de preenchimento, mas a dimensão que, vindo ao nosso encontro (Zukunft como Zu-kunft), dá sentido ao nosso ser-presente. As três ekstases—futuro, ser-passado, presente—constituem uma unidade dinâmica, um “fora-de-si” (ekstatikon) originário no qual o Dasein existe.
  • A temporalização (Zeitigung) como amadurecimento e sazonalidade: Para nomear esta dinâmica não-linear, Heidegger recupera o verbo alemão zeitigen (temporar), que evoca o amadurecimento, o trazer à maturação no tempo certo. A temporalização é o modo como o tempo se dá como uma presença que aflui, e não como um fluxo que se esvai. Ela designa a entrada em um “tempo qualificado”: o tempo histórico, o tempo musical, o tempo das estações, o tempo de uma obra que amadurece na recepção. Este conceito permite pensar fenômenos como a “contemporaneidade do não-contemporâneo” (o passado que se faz presente), a “presença do futuro” na resolução (Entschlossenheit), e a experiência do instante (Augenblick) como ponto de cristalização das três ekstases.
  • Consequências para a história, a arte e a existência: Compreender o tempo como temporalização transforma a noção de história: ela não é a exploração de um passado morto, mas o diálogo com um ser-passado que nos interpela e do qual somos o “futuro” (como diz Valéry). A obra de arte “imortal” testemunha este poder do tempo: ela não “envelhece”, mas amadurece, esperando o momento de sua redescoberta. Na existência, isto significa que o Dasein autêntico não é aquele que lamenta a fuga do tempo, mas aquele que, assumindo sua finitude, se abre ao futuro a partir de um ser-passado assumido, vivendo o instante como a convergência das três dimensões temporais. A análise do tempo em Heidegger é, assim, menos uma “teoria” do que uma desobstrução (Destruktion) que visa restituir à experiência sua profundidade temporal, rompendo com o “tempo oficial” da cronometria.
estudos/vezin/tempo.txt · Last modified: by mccastro