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estudos:vezin:ent-fernung

Afastamento (Ent-fernung)

LDMH

  • Crítica da concepção geométrica e objetiva do espaço: Heidegger rejeita a ideia de um espaço puro, homogêneo e infinito herdado da geometria euclidiana e da física moderna, que se tornou uma “ideia recebida” inquestionada. Sua abordagem da espacialidade em Ser e Tempo (§§ 22-24) procura desconstruir esta representação categorial, partindo não de uma teoria do espaço, mas da análise do ser-no-mundo do Dasein. O espaço não é um continente prévio onde o mundo está contido; ao contrário, “o espaço está no mundo”. Esta inversão só é possível através de um “retorno ao mundo”, que por sua vez exige o reconhecimento da primazia da utilidade (Zuhandenheit) sobre a mera presença subsistente (Vorhandenheit). A coisa não é primeiro um objeto e depois um útil; para o Dasein em sua cotidianidade, o mundo ambiente (Umwelt) se oferece primordialmente como um campo de utilizabilidade e de referências práticas.
  • A des-aproximação (Ent-fernung) [afastamento, tr. Schuback] como existencial: A espacialidade própria do Dasein e de seu mundo ambiente é determinada pelo existencial da “des-aproximação”. O termo alemão Ent-fernung é ouvido em sua composição: o afastamento (Ferne) sendo suprimido (ent-). A des-aproximação não é uma operação subjetiva de medir ou reduzir distâncias objetivas, mas o modo como o Dasein, em seu ser, já está sempre “apropriando” as distâncias, trazendo o que é relevante para a proximidade da preocupação (Besorgen). O sol, por exemplo, não está “a 200 passos” nem a 150 milhões de quilômetros; ele está “des-aproximado”, ou seja, integrado no mundo ambiente como algo que conta, que se levanta e se põe, que aquece—sua distância astronômica é irrelevante para a espacialidade existencial. O Dasein é essencialmente des-aproximante; sua espacialidade é um “estar já sempre junto” ao que lhe importa.
  • Consequências para a compreensão do espaço e do tempo: A afirmação de que “uma 'meia-hora' não são trinta minutos” ilustra esta desconstrução da quantificação objetiva. O tempo da preocupação não é uma sucessão de “agoras” homogêneos e mensuráveis, mas uma duração qualitativa determinada pela tarefa em curso. Da mesma forma, o espaço da des-aproximação não é uma extensão métrica, mas uma rede de lugares (Plätze) e regiões (Gegenden) significativas, articuladas pelos percursos (Bewandtnis) do Dasein. Esta espacialidade originária precede e funda qualquer medição geométrica ou física. O “retorno ao mundo” não é, portanto, uma quimera, mas a condição para pensar o espaço a partir da experiência concreta da existência, desobstruindo as camadas de objetificação que o reduzem a uma grandeza matemática.
  • Alcance filosófico da análise: A tematização da des-aproximação permite a Heidegger escapar ao subjetivismo (o espaço como forma da intuição) e ao objetivismo (o espaço como contêiner neutro). Ela revela que a espacialidade é uma estrutura co-originária da temporalidade, ambas radicadas no ser-no-mundo. Esta análise, embora possa parecer “irracionalista” para uma mentalidade cientificista, busca recuperar uma experiência do espaço anterior à sua matematização, uma experiência na qual a distância e a proximidade são antes de tudo modos de envolvimento e cuidado. É neste sentido que a fenomenologia heideggeriana do espaço se afasta do programa husserliano de uma “geometria do vivido”, insistindo na irredutibilidade da espacialidade existencial à qualquer forma de idealização geométrica.
estudos/vezin/ent-fernung.txt · Last modified: by mccastro