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estudos:trawny:urgencia

Urgência (Not)

LDMH

  • A urgência (Not) em Heidegger não é pensada como necessidade corporal, psicológica ou carência mundana, mas como uma relação específica e originária com a história e o advento (Geschichte). Uma primeira aproximação aparece na Introdução à Fenomenologia da Religião (GA60 1920-21), onde a expectativa da parousia cristã é definida como uma “pressão absoluta” (absolute Bedrängnis), um “ser-acuado” (θλῖψις) no qual o cristão se situa ativamente. A urgência possui, desde então, um significado histórico (geschichtlich): é um modo de estar lançado e, simultaneamente, uma escolha diante do que advém. Na conferência Da Essência da Verdade (GA34 1930), esta estrutura se aprofunda: o Dasein, submetido ao reino do segredo (Geheimnis, o abrigo no recuo) e à pressão da erronia (die Irre, a dimensão aberta e desviante da verdade), é posto na “urgência do urgir” (in der Not der Nötigung). O Dasein é, assim, o “giro no coração da urgência” (die Wendung in die Not), o ponto de viragem onde a verdade do ser se decide.
  • Urgência como desamparo do ser e necessidade historial: Nas Contribuições à Filosofia [GA65], a urgência adquire sua significação plena no quadro da história do ser. Ela se abre no “desamparo do ser” (Seinsverlassenheit), concedido pela verdade do ser que dela “precisa” (brauchen). É a partir desta “urgência do desamparo do ser” que se torna “necessária” (notwendig, entendida como “volta da urgência”) a fundação da verdade do ser e do Da-sein. A urgência é, portanto, o traço decisivo onde se joga se o homem futuro pertencerá à escuta da verdade do ser ou será reduzido a uma “animalidade dissimulada”, recusando-se-lhe o “deus extremo”. A necessidade (Notwendigkeit) é reinterpretada como o “giro da urgência”.
  • A urgência do defeito de urgência e a maquinação: A urgência atinge sua paradoxal altura na “urgência do defeito de urgência” (die Not der Notlosigkeit), o desamparo íntimo do homem dos Tempos Novos, que perdeu a capacidade de experimentar originariamente o que é digno de questão. Este defeito é a marca da dominação da Machenschaft (maquinação, eficácia calculante) e do niilismo consumado. O que põe em urgência (das Nötigende) transcende as distinções entre bem e mal, progresso e regresso; é “o verdadeiramente por-vir”. A questão radical que Heidegger levanta é: como realizar este defeito de urgência como urgência? Como experimentar a falta de urgência no que ela tem de mais urgente? A resposta exige um repensar da linguagem para recuperar a “força de nomeação do essencial” nela abrigada.
  • O perigo extremo e a urgência única: Em textos posteriores, como A Essência do Niilismo e as Conferências de Bremen [GA79], a análise se radicaliza. O defeito de urgência aparece como o modo pelo qual a metafísica estende seu domínio, levando o próprio ser ao extremo de sua urgência. Na era da técnica, o “perigo” (die Gefahr) — a essência do Gestell (dispositivo) — permanece abrigado no recuo, e a “urgência” (no singular) se dissimula. As inúmeras misérias, sofrimentos e mortes em massa — a produção industrial de cadáveres — são sintomas aos quais não se presta atenção, pois obscurecem a “única urgência”: a do desamparo do ser e do extermínio da essência do homem. A “verdadeira urgência” é, paradoxalmente, esta “ausência de urgência” que reina no coração do perigo mais extremo. Pensar é, então, engajar-se no perigo deste extermínio da essência, pensar o perigoso a partir da urgência do ser.
estudos/trawny/urgencia.txt · Last modified: by mccastro