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Início (Anfang)
- O início (Anfang) em Heidegger não é um evento histórico pontual situado no passado, mas um elemento da história do ser entendida como “escatologia do ser”, uma ruptura originária que, enquanto o que há de mais grande, já está desde sempre à frente de tudo o que vem depois, incluindo a nós mesmos. Ele se situa, portanto, diante de nós como uma tarefa e uma interpelação. O conceito, elaborado decisivamente a partir do curso de 1932 sobre o início da filosofia ocidental e aprofundado nos Contribuições à Filosofia [GA65], designa o “desdobramento do próprio ser” (Wesung des Seins selbst), sendo assim cooriginário com a verdade (aletheia). Sua compreensão exige um pensamento “historial” que renove o sentido grego de archè, entendido não em sua aceitação aristotélica posterior e “alargada”, mas como “início e reinado” simultâneos, uma abertura que instaura e governa um âmbito de manifestação.
- O primeiro e o outro início: A história do ser se articula na diferença e no jogo (Zuspiel, a “passe”) entre o “primeiro início” da filosofia grega, que interroga o ente a partir de sua presença (ousia) sem tematizar a verdade do ser como tal, e o “outro início”, que tem por tarefa pensar precisamente o ser da verdade. Este último não anula o primeiro, mas o deixa aparecer em sua essência inicial (Anfänglichkeit) através de uma “distanciamento” (Fernstellung) que permite a confrontação (Auseinandersetzung). O pensamento do outro início é, portanto, um “pensar inicial” que se propõe a ser, ele mesmo, a inauguração de uma nova possibilidade histórica para a filosofia.
- O início como fundamento abissal e captura originária: Enquanto “desdobramento do ser”, o início é o que, antecipando-se, funda a si mesmo (Sichgründende Vorausgreifende). Este fundar não é estabelecer um fundamento sólido, mas abrir um “abismo” (Abgrund), uma profundidade sem fundo que instaura um sentido do ser e assegura, em sua antecipação, um “reinado supremo” que é “indespassável”. Em formulações posteriores, Heidegger escreve o termo como An-fang, destacando o verbo fangen (capturar, captar). O início é assim uma “captura inicial” que atinge o Ereignis (Acontecimento/Avenência) no seu jogo que faz sinais (im winkenden Spiel). É o ser que “ac-capara” o ente, iniciando o retorno (Heimkehr) do homem à pátria (Heimat) que é o próprio Ereignis.
- A dimensão da Anfängnis e a relação com o declínio: Em textos dos anos 40, Heidegger forja o termo Anfängnis (por analogia a Ereignis) para nomear a “essência plena” da história enquanto início. Esta dinâmica do início inclui em si mesma o “declínio” (Untergang) e o “adeus” (Abschied). O declínio, cujo início é a “devastação” (a época em que o ente perdeu seu domínio sobre o ser, mas permanece), não é um fim negativo, mas um “retorno ao início”, um “recaída” nele. Este adeus é, paradoxalmente, uma “chegada inicial” (anfängliche Ankunft) do ser, um retirar-se para a “dimensão recolhida do abrigamento”. O pensar do início é, assim, um pensar que acolhe também o ocaso como momento da eschatologia do ser.
- A tarefa do pensamento e a habitação poética: Pensar a partir do outro início significa empenhar-se na “fundação” (Gründung) da verdade do ser que ficou por fazer no primeiro início. A filosofia, assim compreendida, é um “saber inútil e no entanto senhorial”, um saber que não serve a fins exteriores, mas que instaura o âmbito do sentido. A captura inicial do An-fang aponta para o “unicamente sendo” (o ser) e para o “humano destinado à guarda (liberdade) do próprio ser”. A tarefa última que daí se anuncia é a de um “edificar poético de uma habitação apropriada à pátria que é a graça (Huld)”. O pensamento do início desemboca, portanto, na exigência de uma nova habitação humana no mundo, uma habitação que seja resposta à interpelação do ser e que se construa no elemento da poesia, entendida como instauração da verdade.
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